Por Marcos Diego
Em 1983, Michael Lavine tinha 19 anos e vontade de trabalhar com animações. Morador da então pacata Seattle, onde nada de muita relevância acontecia, era o fotógrafo da turma de skatistas, músicos e jovens que gastavam o tempo procurando algo para fazer. Mal sabia ele que, ao registrar esses grupos, documentava o surgimento de um dos momentos centrais no rock dos anos 1990. Agora, 26 anos depois, lança Grunge, com prefácio de Thurston Moore, em que mostra – em preto e branco – as bandas e as “pessoas comuns” que, influenciadas por heavy metal, punk e hardcore, mostravam em seu jeito de vestir e agir a mistura que mais tarde levou grupos como Nirvana, Mudhoney e Pearl Jam à fama internacional.
Quando você decidiu ser fotógrafo profissional?
Comecei a trabalhar em 1987, mas já fotografava bem antes, quando estava na escola. Acho que ganhei a primeira câmera aos 10 anos. Fotografava por hobby, e foi nessa época que fiz as primeiras fotos do livro.
Se você não fosse fotógrafo, seria o quê?
Eu estava decidido a estudar animação. Era o que eu gostaria de fazer, mas na última hora mudei de ideia e troquei as aulas de animação por fotografia. Sempre quis ser animador.
Quais são suas recordações da Seattle pré-grunge?
Eu me mudei de Seattle para Nova York em 1985, então não me lembro exatamente do estilo de vida da cidade nessa época. O que eu me lembro é da música que veio de lá quando eu trabalhava para o escritório da Sub Pop aqui em Nova York. As bandas vinham de lá e eu as fotografava. Mas, sobre as coisas que mudaram, acho que foi uma questão de conscientização. As pessoas tomaram consciência da cena musical que existia por lá, e de uma hora para a outra o mundo inteiro ficou sabendo. Foi muito louco. Porque antes era uma cena muito pequena e independente, underground, em que todos se conheciam. Aí o Nirvana apareceu com “Smells Like Teen Spirit”, explodiu no mainstream, e de repente todos estavam envolvidos. Foi chocante para quem vivia isso, algo difícil de lidar.
O que mudou na sua vida depois da explosão do grunge?
Não sei. Acho que foi uma sensação de perda, de que a nossa comunidade havia sido de certa forma destruída. Mas, ao mesmo tempo, sem isso eu não teria conhecido as pessoas que conheci. Então é uma sensação amarga e doce ao mesmo tempo. Agora, a ideia do livro foi mesmo pontuar o fato de que o grunge não foi exatamente o que as pessoas pensam que foi. Esse livro é a minha visão pessoal, minha versão pessoal, sobre o que foi o grunge. Não é um livro sobre sua história definitiva.
E o que é o grunge para você?
Grunge foi o rótulo dado pela imprensa tradicional para um amplo leque estilo musicais que estavam rolando por todo o país. Eles basicamente juntaram algumas bandas de metal e punk sob esse rótulo. Não significa muita coisa, na verdade. É só um nome que alguém deu a uma cena muito diferente do que as pessoas imaginavam. As fotos ficaram no meu armário por 25 anos, e acho que é uma boa hora para olhar para trás e ver o que aconteceu de verdade. Existem muitos mal-entendidos e [o livro] é uma forma de redefinir, esclarecer e ajudar as pessoas a entender o que rolava por lá.
Você é uma espécie de Bob Gruen do grunge. Concorda com isso?
(Risos) Eu conheci o Bob Gruen, e talvez ele não goste dessa comparação. Ele e o trabalho dele são uma grande influência, mas acho que para chegar lá ainda preciso ganhar mais alguns cabelos brancos.
As primeiras fotos do livro mostram jovens de Seattle e Olympia em 1983 vestidos sob influências de estilos variados.
De onde vinha isso?
Não existia internet naquela época, então as pessoas queriam se expressar de diferentes formas – para questionar a autoridade, por exemplo. É uma espécie de tradição usar roupas para enfrentar o sistema, se afirmar. Seja qual for a orientação política, isso ajuda a identificar grupos diferentes. Naquela época, em Seattle, a cena underground era bem pequena, e a música que se ouvia em geral era da Costa Oeste, de Londres, Nova York. O pessoal de lá acabou misturando todos os estilos e criou sua própria versão, que é o que as pessoas no mundo chamam hoje de grunge. Você pega pop, heavy metal, mods, skinheads, todos os tipos de rebeldia e transforma nisso. O som de Seattle também dizia isto naquela época: “nós não queremos ver The Go Go’s”, ou seja lá o que fosse o mainstream em 1983. Havia muitas bandas de heavy metal e new wave ruins, a política estava ruim, era o Rock Against Reagan, então a união chegava à esfera política também.
Como você fazia para capturar momentos espontâneos das bandas, como o Mudhoney? Você era amigo dos músicos?
No caso específico do Mudhoney, eu ainda não os conhecia. Mas eu acho que, por causa da minha amizade com o Bruce [Pavitt], chefe da Sub Pop, todo mundo era amigo de alguém, então havia um certo conforto nas relações. E essa é um dos segredos para se tornar um bom fotógrafo. Se você se sente à vontade perto de mim, você me escuta, e fotografar se torna mais natural.
Mas ser amigo da banda é importante para conseguir uma boa foto?
Não, de jeito nenhum. Às vezes pode ser um problema, se você ficar conversando e não se concentrar no trabalho. (risos)
O prefácio do seu livro é do Thurston Moore. Como ele entrou na história?
A ideia inicial do livro foi dele. Ele é meu amigo há muitos anos, meu vizinho, e um dia, há uns dez anos, perguntou por que eu não fazia um livro. Há quatro anos, novamente, ele lembrou da ideia. Demorou três anos para que o livro ficasse pronto, o processo de seleção e compilação foi bem longo.
Qual foi a banda mais difícil de fotografar?
A mais difícil? Sonic Youth. (risos) Porque eles são difíceis, um pé no saco. [Folheando o livro] Nirvana foi explosivo, Pearl Jam foi ok, Soundgarden eu fotografei um milhão de vezes e todas renderam ótimas imagens, Butthole Surfers também... Vou te dizer, a maior parte das pessoas é fácil de fotografar, você raramente encontra alguém difícil. Até a Courtney Love não é assim, ela é divertida. Quer dizer, ela pode dar uma de louca de uma hora pra outra, mas sempre foi divertida.
Pensei que sua resposta seria Kurt Cobain. Como era o relacionamento entre vocês?
Pois é, Kurt não foi difícil comigo porque era meu amigo. Ele me respeitava, eu acho, então foi uma boa relação de trabalho.
O que, para você, fez dele alguém tão especial?
Se eu soubesse responder isso, estaria rico! (risos) Nós não sabemos. Ele vivia em Seattle, e é uma coisa mágica, é magia! Se você está numa sala com um cara desses, ele é só mais um, uma pessoa doce e amável. É exatamente como você e seus amigos. Quer dizer, ninguém sabia que o cara ia se tornar uma lenda. Ele era apenas um de nós.
Qual é o seu álbum favorito daquela época?
Daydream Nation, do Sonic Youth. É um disco forte. Eu trabalhei nele e sinto sua força até hoje.
O que você faz hoje em dia?
Tenho um grupo de pessoas que eu fotografo e um trabalho com vídeo também. Acabei de finalizar o videoclipe do Heavy Trash, a banda nova do Jon Spencer. Trabalho também com a Cher, a Miley Cirus, fiz as promos para o álbum do TV on the Radio. Trabalho também para algumas emissoras, como a Fox.
E o que você tem ouvido?
Muitas coisas. Peguei o Them Crooked Vultures recentemente, gosto também do Spoon e do Heavy Trash. Já ouviu Fever Ray? É uma garota sueca que tocou no The Knife e não sai do meu som. Não é rock, é algo mais viajante.
Qual é sua melhor foto, na sua opinião?
Todas possuem uma história, mas fiquei muito feliz que as fotos dos jovens na rua tenham saído. Porque acho que ninguém conhece de verdade esse lado de Seattle. Tempos atrás recebi um e-mail de uma das fotografadas em 1983, dizendo que o livro era o anuário escolar que ela nunca teve.
Você planeja uma segunda edição do livro, ou outro com alguma banda específica?
O livro tem uma versão em cores, que é completamente diferente. Fiz algo parecido no meu outro livro, Noise From the Underground: A Secret History of Alternative Rock (Fireside), lançado há 10 anos e que tem diversas bandas, de 1986 a 1996.
Acertando as Contas
Entrevista com Felipe Motta aka Mottilaa
Por Tiago Moraes
Há mais ou menos dez anos, época em que dedicava cem por cento do meu tempo ao skate - seja dando meus grinds por aí ou tocando a Agacê, marca que criei em 1997 junto com três amigos de infância -, resolvi criar e divulgar o projeto Portfolio, com o intuito de revelar jovens talentos do universo do skate e posteriormente desenvolver projetos colaborativos.
E foi entre quase uma centena de cartas e telefonemas recebidos durante o período da promoção que o traço de um garoto carioca impregnado de humor e sarcasmo acabou me chamando a atenção. Foi dessa forma que conheci Felipe Motta e a partir daí, de 1999 a 2004, fizemos dezenas de trabalhos juntos e viramos grandes amigos. Se Billy Argel criou praticamente sozinho toda a estética do skate nos anos 80, Motta é sem sombra de dúvida o maior nome que surgiu no universo de arte de skate desde o final da década de 90 até os dias de hoje, em um mercado em que, salvo raras exceções, ainda prevalece a falta de identidade, de originalidade e de cultura de investimento em arte e conceitos originais.
Mesmo que no mercado de skate seu traço seja facilmente reconhecido em shapes, camisetas, anúncios e outros trabalhos comerciais, muitos ainda não tiveram o prazer de conhecer seu trabalho autoral, que Mottilaa compulsivamente põe para fora em seus caderninhos para depois transportar para telas, muros, banheiros e qualquer outro suporte que tiver coragem suficiente de aparecer na sua frente.
Como amigo e fã de carteirinha, sempre incentivei o seu lado autoral, e talvez seja por isso que, mesmo com vontade de entrevistá-lo desde a primeira edição, tenha esperado o momento ideal para bater esse papo com o figura. E foi no meio da reta final de produção para a sua primeira individual - que acontecerá no fim de outubro no Espaço +Soma - que decidi ser a hora de finalmente acertar minhas contas com ele.
Motta, conta pra mim, quando foi que você pegou num pincel pela primeira vez?
(Risos) Na primeira vez que fui fazer xixi sozinho! Agora, sério, eu tenho um quadrinho na casa dos meus pais que fiz em 84, com 6 anos. Entre um monte de profissões, meu pai se formou em arquitetura e, apesar de não ter seguido profissinalmente a carreira de artista, pintava uns quadros quando tinha a idade que eu tenho agora. E ele sempre me incentivou muito a desenhar, esse primeiro quadrinho que eu fiz ele tava do meu lado, me ensinando como mexer com aquarela. E [quando se é] criança, além de pegar as coisas rápido, esses acontecimentos marcam muito. Lembro desse momento como se fosse hoje, é muito louco!
Você era um daqueles moleques que ficava na sala de aula fazendo caricaturas de todo mundo, dos amigos, do professor?
Era uma desgraça, cara! Tomei bomba duas vezes na escola e sinceramente nem sei como não repeti mais, me passavam de ano! E eu não era um aluno burro, até porque quando sentava pra estudar tirava até uns 10, mas tava mais preocupado em desenhar como se não houvesse amanhã! Mais tarde, no terceiro ano, antes de entrar pra faculdade, na sala de aula tinha dois murais, o da esquerda e o da direita. E o da esquerda era meu! (Risos) No fim do ano, tinha umas setenta caricaturas e charges de coisas que rolavam na sala de aula! Eu chegava do recreio e tinha gente de outras turmas vendo, às vezes até visitante de fora do colégio!
Fala um pouco das tuas influências (e más influências).
Eu geralmente não curto focar em fulano, cicrano, mas tem algumas pessoas que me influenciaram e influenciam muito. Meu pai sempre esteve lá, me deu apoio, até hoje quando vou pra casa dos meus pais pintar no terraço do sobrado ele não reclama quando eu cago tudo! (Risos) O Bruno Shulyba, amigo de infância, desenhava comigo desde criança e, apesar de não ter seguido carreira, desenhava demais, tinha um traço animal. O [Don] Torelly é um grande amigo e uma inspiração até hoje, passo mal com ele. Já o Billy Argel me mostrou que shape brasileiro podia ser lindo também. Tem o Evan Hecox, que é foda também, sei lá... tem vários!
Como (e quando) você se envolveu com o skate, e que estrago isso fez na sua vida daí em diante?
(Risos) Ganhei o meu primeiro skate com uns 10 anos. Essa história acabou ficando famosa por causa da minha parte no RE:BOARD (documentário recém-lançado sobre arte de skate no Brasil em que Motta foi um dos destaques). Pedi pra minha avó um skate com um desenho de dragão no meu aniversário e ela viajou pro Paraguai e me trouxe um que tinha uma lagartixa rosa bebê de óculos escuros em cima de um skate! De lá pra cá, eu simplesmente não sei como seria minha vida sem o skate junto. Tudo o que o skate me trouxe de brinde, no pacote, mudou minha vida. Arte, amigos, experiências de vida, roupa, gosto musical, tudo, cara... Minha carreira profissional é calçada na cultura de rua, mais especificamente do skate. E não tem como negar isso, nem quero!
E a sua história com os shapes, só esse assunto renderia mais uma entrevista... fala um pouco disso.
A minha história com os shapes é de longa data. Desde que ganhei meu primeiro skate, eu era vidrado nos desenhos. Colocava grabber nos shapes só pra não arranhar os desenhos e falava que era pra ‘grebar'! (Risos) Quando a primeira série de shapes que desenhei saiu pela Agacê, eu desacreditei! Foi um marco na minha vida, de verdade! Depois, desenvolvi em conjunto contigo na Agacê muitas outras séries, foi uma época muito divertida. Desde moleque sempre tive em mente que o meu maior desejo era de um dia andar com um shape que eu tinha desenhado, e ver gente andando na rua então, nem se fala!
Até hoje tento sempre fazer um shape tão inspirado quanto o primeiro que fiz. Por mais que pareça clichê, essa primeira série me mostrou que aquele sonho de moleque meio improvável poderia rolar. Por isso é sempre bom olhar pra trás e não esquecer dessa sensação que senti quando abri o pacote e vi os shapes finalmente prontos ali na minha frente!
Você também tem um trabalho forte com o rap carioca e já emprestou seu traço a vários artistas da cena, como De Leve, A Filial, BNegão e Marcelo D2, não necessariamente nessa ordem. Como rolaram essas parcerias?
Tudo amigo! O lance da música sempre foi muito presente na cultura do skate e sem querer a gente acaba conhecendo e ficando amigo de muita gente do meio musical, meio que uma coisa puxa a outra. O Edu [Lopes, do grupo A Filial] eu conheço desde moleque, do skate mesmo, o De Leve foi o Serginho que me apresentou, sempre me dizia que eu tinha que conhecer ele de quaquer jeito e acabou virando um amigão também. O Bê [BNegão] morava no mesmo lugar que o Edu, em Santa Teresa, daí acabou rolando o convite pra fazer o logo, o site dele. O Marcelo [D2] eu conhecia de vista, mas só fui conhecer mesmo quando ele quis samplear uns diálogos de filme da Pepa Filmes, de que eu participava na época. Daí o tempo passou, a gente acabou ficando amigo e rolaram vários trabalhos juntos, fiz a coleção da Manisfesto pra ele, e tem uns projetos aí pra rolar.
Já que você citou a Pepa Filmes, fale um pouco dessa época.
Foi uma época engraçada da minha vida. Eu estudava e namorava, já trabalhava, mas não tinha muitas obrigações na vida! Morava a uns quinze minutos a pé da casa do Pepa e do Renatim, e chegava lá, nego de bobeira e a gente: "Porra, vamo fazer um filme?" Não tinha roteiro e, na minha opinião, a parada era essa, o descompromisso. Depois o Pepa fez faculdade de cinema e, normal, quis deixar as coisas mais organizadas, marcava reuniões etc. E a onda dele eram mesmo os efeitos especiais, as sátiras com ficção cientifica, e a minha pegada era outra, do humor. Fora que depois já não tinha mais o tempo livre que a coisa demandava, daí acabei desencanando. Mas, sem resentimentos, foi uma época animal, de chorar de tanto rir, a gente não ganhava porra nenhuma, mas se divertia!
Mas o Cara de Cavalo tá na ativa até hoje, né?
O Cara de Cavalo é um personagem que saiu do Coronel Cabelinho vs Grajaú Soldiaz, o longa metragem da Pepa Filmes, que era pra ter trinta minutos e acabou com quase uma hora e meia! Tenho uma relação meio maluca com ele, tá na ativa, mas aparece quando dá na telha, não manda e-mail nem liga antes (risos)!
É tipo um espírito que baixa em você de vez em quando?
É, tem uma parada engraçada que minha mãe e minha vó me contam. Meu avô materno morreu antes de eu nascer, e elas falam que ele também tinha essa coisa, do nada dava uma ziquizira e ele aparecia na sala, incorporando um personagem. E desde moleque eu sou assim, tem até filmagem minha pequenininho todo montado, incorporando personagem... E com o Cara de Cavalo rola isso também, ele acabou ganhando vida própria, ainda mais depois da vinhetinha que gravei pro disco do Quinto Andar.
Você tem um pequeno arsenal de personagens que criou, e alguns deles já te acompanham por um bom tempo, como o Negolindo, o Abarreta, o Theo22. Como nascem esses personagens? São inspirados em pessoas que você conhece ou são ficção? Conta um pouco a história de cada um deles.
Muita coisa eu tiro da vida real mesmo. O Negolindo é meio que uma tiração de sarro com os personagens bonitinhos que pipocaram no graffiti nos ultimos tempos. Ele é a síntese do que as pessoas mal resolvidas na vida acham de ruim: é um pivete preto, zarolho, desdentado, descalço e sem camisa. Mas tem cara de feliz. O Abarreta é uma tiração com os famosos wannabes, como são chamados na gringa. Ele não faz nada de bom, não sabe cantar, é um mimado, mas se fantasia de rapper e vive uma vida de glamour que não existe. O Theo22 é um cara que existe na ZN, num condomínio na Vila Isabel. É um cara sinistrão! Já fiz uns graffitis dele na frente da sua casa, ele já virou até shape pra uma marca alemã (Subvert). Fiz o cara saindo duma tumba no cemitério. E tenho alguns outros personagens que criei e ainda não fiz nada com eles, pretendo um dia, mas por enquanto estão na minha cabeça, bem guardados.
Seu trabalho parece ter sempre uma dose de humor impregnado. Você não consegue levar nada na vida a sério?
Por incrível que pareça, eu levo essa sacanagem muito a sério (risos)! Tenho um prazer muito grande em provocar o riso, mesmo que interno, nas pessoas. Pintei um banheiro químico no Circo Voador um tempo atrás, que era um boneco do lado de fora e dentro só bilhete sacana! E tá lá até hoje. As pessoas entram e saem rindo. Isso pra mim não tem preço.
Você é do tipo que perde o amigo, mas não perde a piada?
Cara, pior que não! Eu não curto o humor que parte pro plano da humilhação. Dei apelido pra um monte de gente já, apelidos que ficaram até hoje, mas não lembro de nada humilhante. Tenho esse sarcasmo que não larga de mim, gosto de dar umas alfinetadas, mas acho que dá pra ser sacana sem ter que humilhar.
Falando em apelidos, você um tempo atrás andou mudando a grafia do seu nome, primeiro de "Felipe" para "Felipe", e depois começou a assinar seus trabalhos como Mottilaa, com dois "a" no final... Qual foi o motivo dessas mudanças? Numerologia, esoterismo ou porque já tinha Felipe Motta demais por aí, de campeão de snowboard a dono de loja de vinhos online?
[A Mari, mulher de Felipe responde por ele] Todas as respostas acima! (Risos)
Todas e mais um pouco! É um assunto delicado, que mexe com forças ocultas, prefiro não comentar mais sobre isso! (Risos)
(Risos) Ok, vamos esquecer esse assunto. Me explica então por que quase todos os teus personagens têm mãos de pinguim, sem dedos? Faltou na aula no dia que ensinaram a desenhar dedos ou é pura preguiça mesmo?
(Risos) Na real os meus personagens têm dedos, sim, é que de longe eles não aparecem! E se precisar eu boto dedos neles, sim, quando eles têm que mandar um fuck ou um joinha... Outro dia rolou um lance engraçado, fui a uma reunião de um trabalho em que me contrataram como ilustrador mostrar o layout dos personagens e o diretor de arte falou: "O Motta fez as mãos aqui no layout sem dedos para agilizar, né?", e eu: "Não, não, é assim mesmo!"
(Risos) Vai, chegou a hora de vender o seu peixe! Fala um pouco do Petit-Pois Studio.
Opa! Essa a Mari responde! (Risos) O Petit Pois Studio nem era um projeto, mas acabou rolando. Como a Mari também é designer, a gente começou a pegar uns trabalhos juntos e, quando a gente viu, precisamos alugar um lugar pra trabalhar. O nome do estúdio é o nome do nosso cachorro, e o logo é a cara dele. A gente fala que criou o conceito de "Live Logo": ele fica aqui junto com a gente, então é o logo andando pelo estúdio o dia inteiro! (Risos) Na real, o Pois é o nosso chefe, a gente só obedece!
E o graffiti, você considera mais como uma técnica ou leva a parada a sério, toda a questão da ideologia, da tradição e das regras, de ter que fazer bomb, letras etc?
Eu tenho uma relação engraçada com o graffiti. Comecei com os caras do FleshBeck aqui no Rio, me pilhando pra colocar meus desenhos no muro, daí fui me interessando, ficando vidrado nessa coisa da escala, do tamanho das coisas. É muito louco ver um personagem teu com quatro metros de altura na entrada de um viaduto por onde passam milhares de pessoas por dia. Você fica pensando "o que todas essas pessoas devem pensar quando passam por aqui?" Acho legal essa coisa do graffiti, de deixar lugares horrorosos mais bonitos. Fiquei um tempo sem pintar, pintando uma coisinha aqui e outra ali, mas da metade do ano pra cá acho que me deu um estalo e voltei com pique! Essa coisa de as pessoas se reunirem pra pintar também é meio que uma terapia...
Você já é bem conhecido no cenário do skate e da música, mas pouca gente conhece o seu trabalho autoral. Agora que está se preparando para a sua primeira individual, no fim de outubro, onde vai poder mostrar esse seu outro lado que nem todos conhecem, fala um pouco sobre a temática da exposição e o que pretende mostrar por lá.
Então, eu viajei em abril com a Mari pro Peru. Passamos só 10 dias lá, mas a quantidade de coisas que vimos foi absurda! Rodamos meio sem destino, mal sabíamos pra onde a gente ia no dia seguinte. E é um país com muita diversidade, a fauna, a flora, as pessoas, cores pra tudo quanto é lado. E a gente, que trabalha com isso, não tem como não voltar com a cabeça pipocando de ideias! Então essa exposição será a minha leitura, a minha interpretação do que vi por lá. Sempre com essa pegada bem-humorada, nem que seja apenas no traço. E é uma puta oportunidade pra eu dar um gás nesse meu lado autoral, que sempre esteve latente. Sempre pintei e ilustrei autoralmente, mas ainda tem todo um trabalho que tem que ser feito... Estou na maior expectativa, tá chegando, mas eu funciono bem na pressão... pelo menos nos últimos 31 anos! (Risos)
E no geral, como você cria? Parte de uma ideia ou de um conceito pré-definido, se inspira em fatos ao seu redor ou simplesmente sai desenhando?
Geralmente tenho a ideia e quando boto no papel, mesmo que seja só pra rascunhar, ela já está bem definida na cabeça. Mas às vezes não, é um processo que nem sempre é linear. Saio na rua e ouço um cara falando uma merda, acho engraçado e aquilo me lembra de alguma outra coisa, que me dá uma ideia que às vezes não tem nada a ver com a merda que o cara falou! (Risos)
Defina seu trabalho em uma frase curta, estilo frase de msn ou twitter.
(Risos) [Mari diz] Você faz esse tipo de tortura com todo mundo que entrevista, tipo Marília Gabriela?
(Risos) Não, mas quando é com amigo tem que dar uma judiada, né? Quem vai ao programa dela já sabe que tem que chegar com uma frase pronta na ponta da língua. Então, assim, de surpresa é mais divertido!
A Mari mandou outro dia uma que me define bem: "Se Deus escreve certo por linhas tortas porque eu é que vou ter que fazer linhas retas?" (risos)
Para terminar, gostaria de dizer mais alguma coisa em sua defesa?
(Risos) Deixa eu pensar... "Quem não deve não treme!"
Veja Mais:
www.mottamobil.blogspot.com