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Wed: 08-24-11

Amabis . Memórias Luso-Africanas . Independente . 2011

Dois desafios básicos que todo álbum conceitual deveria considerar: ser capaz de contar a mesma história até o final e evitar que a narrativa perca a graça. Memórias Luso-Africanas, estreia solo de Gui Amabis, enfrenta ambos, com resultados variáveis. Produtor paulistano em ascensão (compôs para filmes como O Senhor das Armas e co-produziu Céu, por exemplo), Amabis se lançou no projeto por um motivo pessoal: preservar o sentimento trazido por histórias familiares que ouvia na infância.

Mais do que homenagear seus antepassados, no entanto, Amabis quer explorar o conflito eterno entre a cultura imperialista portuguesa e a dos escravos africanos, central não só na origem da cultura brasileira, mas na sua própria genealogia pessoal. A intenção está explícita logo na faixa de abertura, “Dois Inimigos”, única cantada pelo autor. Sobre notas melancólicas de teclado e instrumentação minimalista, ele canta “E pensar em meus pais e meus avós/ Que sou dois inimigos em um só”, revelando um vocal grave surpreendente, bem resolvido, na tradição de Leonard Cohen e Vic Chesnutt.

A partir da segunda faixa, Amabis abre espaço a convidados no vocal, que alternam momentos memoráveis (“Para Mulatu”, com Criolo, e “Imigrantes”, com Tiganá, por exemplo) a outros que soam prosaicos em um projeto com ambições maiores (as duas com Tulipa e “Swell”, com Céu). Seja como for, Memórias é um disco com o que de melhor que Amabis tem a oferecer: produção meticulosa com ecos de fragmentação tropicalista, timbres refinados herdados do rap e do trip-hop, e alma afro-brasileira. Poucos fazem isso tão bem quanto ele.

Por Mateus Potumati