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Tue: 08-02-11

The Bad Plus . Equação Complexa

 

Por Raquel Setz . Fotos por Fernando Martins Ferreira

Fugindo da acomodação que assola certas vertentes do jazz, o trio de Minneapolis The Bad Plus vem desde o ano 2000 resgatando uma tradição (perdida) do gênero: a de utilizar a música pop da época como material para a improvisação. Já gravaram Yes, Tears for Fears, Nirvana, Radiohead, Blondie, Bee Gees, entre outros.

O baterista, Dave King, e o baixista, Reid Anderson, são os roqueiros do trio, os caras que curtem tanto o som progressivo da primeira fase do Genesis quanto o pós-punk do Joy Division. Já o pianista, Ethan Iverson, vem da música clássica e não conhece quase nada do universo pop – e é justamente essa falta de ligação sentimental o que lhe permite julgar a linguagem de uma banda como Nirvana em termos estritamente musicais.  

Embora adicionem elementos jazzísticos às originais, as versões do grupo não seguem um padrão (por exemplo, transformar tudo em swing) e tentam manter intacta a essência de cada canção. Vem dando tão certo  que o baixista Geezer Buttler procurou os caras após um show do Bad Plus para dizer que nunca tinha ouvido um cover de Black Sabbath tão bom quanto o que eles fizeram para "Iron Man".



Em 2008, o inquieto trio lançou o disco For All I Care, que trazia duas novidades: a participação da cantora Wendy Lewis e a gravação de três peças do repertório erudito contemporâneo (Fém, de Gyorgy Ligeti; Semi-simple Variations, de Milton Babbit, e Variation d’Apollon, de Igor Stravinski). No ano passado, saiu Never Stop, álbum só de composições próprias (apesar de a banda ter ficado conhecida pelos covers, cerca de 70% do material encontrado na discografia é original).

Em maio, o grupo se apresentou em São Paulo e a aproveitamos para conversar com eles sobre improvisação, complexidade versus simplicidade, cafonices e a eterna polêmica envolvendo downloads e direitos autorais. E, para quem ficou frustrado com a ausência de covers de rock nos shows, aqui vai uma boa notícia: Dave King garantiu que logo eles voltarão a fazer versões – até porque, se não levarem a cabo o arranjo de "Kashmir" que está no forno desde 2007, ele próprio ficará bem descontente.

Gostaria de começar com algo que Reid disse em uma entrevista ao "Ithaca Times": “Nós somos um grupo com uma linguagem de grupo”. Foi uma decisão puramente pessoal ou vocês sentiam que a cena do jazz (ou a cena musical em geral) estava muito focada em talentos individuais?

Reid: Foi uma decisão consciente desde o início. Toda música que amamos é essencialmente música de grupo, mesmo no jazz. John Coltrane Quartet, por exemplo. Para nós, é som de banda. Hoje em dia é tão difícil uma banda permanecer unida. Sentimos que não é saudável, para a música, estar focada no chamado líder do grupo, e ter um monte de outras pessoas intercambiáveis.

The Bad Plus parece ser uma banda que ensaia bastante.


(Fazem não com a cabeça)
Dave: Nos conhecemos há bastante tempo e uma característica nossa é ouvir os outros atentamente, já que não há uma pessoa liderando. Então não precisamos ensaiar tanto.

Reid: Essa é outra parte de se estar em uma banda: porque tocamos nossa música, levamos muito a sério e todos temos muita responsabilidade individual.

Se não ensaiam muito, quando entram no estúdio vocês meio que não sabem o que vai acontecer?

Ethan: Normalmente tocamos as músicas na estrada, às vezes por anos, antes de gravá-las. Então sabemos o que estamos fazendo. Há algumas exceções em alguns discos. O disco com a Wendy Lewis, For All I Care, teve um pouco mais de takes, ainda estávamos ajeitando algumas coisas no estúdio. Acredito que, se você está improvisando, o ideal é fazer em um take ou dois, senão você pode ficar auto-consciente. Você lembra do take anterior e, se gostou de alguma coisa, tenta fazê-la de novo.



Principalmente nos covers, pude perceber apenas alguns curtos momentos de improvisação, o resto soa como um arranjo bem preciso. Estava errada?

Dave
: Não. Há improvisação em tudo o que fazemos, mas uma coisa na qual realmente trabalhamos duro é em arranjar músicas. Muitos dos melhores jazz foram feitos em forma de canção. Não fazemos solos longos, nos concentramos na interação do grupo, em apresentar uma ideia dentro de um bom arranjo. Tentamos fazer arranjos de maneira a deixar espaço para improvisação – em algumas músicas bem mais que em outras –, mas mantendo a forma de canção.  

Acreditam que fazer esses covers possa ajudar a trazer fãs de rock e de pop para o universo da música instrumental?

Ethan: É uma tradição do jazz tocar música pop da época. Louis Armstrong gravou Stardust, que foi um hit pop. Não foi uma decisão comercial tocarmos Nirvana. Para o primeiro show, não tínhamos material original suficiente, então em vez de tocar standards como All Things You Are, Reid e Dave sugeriram que tocássemos algumas músicas pop, e nós fizemos. Mas é verdade: se você toca uma melodia conhecida, você coloca todos que estão no local em sintonia, de cara.

Dave: Somos fãs dessas músicas. Somos como a plateia: eu quero ouvir músicos criativos improvisando sobre canções que fizeram parte da minha vida. Reid e eu conversamos sobre e experimentamos isso por anos. Nossa experiência também vem do rock, então é um jeito bastante honesto de achar novas músicas para tocar e improvisar. Sim, acredito que as pessoas reajam a isso e, se você é um fã de rock que nunca ouve jazz e descobre o jazz através de nós, é um grande elogio.

É uma tradição (tocar música pop da época), mas que se perdeu. Os jazzistas de hoje continuam tocando "My Funny Valentine" eternamente. Por quê?

Reid: Acho que é porque há uma tradição estabelecida. Já existe um mapa de como improvisar e como estruturar a música se você toca "My Funny Valentine", por exemplo. Com a música popular de hoje, não é tão evidente, não há uma tradição estabelecida de como tocar música pop moderna em um contexto de jazz. Você tem que começar do zero toda vez, tem que descobrir algo. Cada canção tem seu próprio mundo e você deve explorá-lo por conta própria, ninguém esteve lá antes.



Além de gostar das músicas, o que mais atrai vocês em, por exemplo, uma canção do Nirvana, que é bem simples? A maioria dos músicos de jazz não pensaria que essa é uma boa harmonia para improvisar.

Reid: Isso não é verdade. Há uma tradição no jazz chamada música modal. Ouça Kind of Blue ou A Love Supreme. Aquelas músicas são mais sofisticadas que "Smells Like Teen Spirit"? Há uma certa atitude no jazz que quer fingir que sim, mas eu acho que é um erro.

Dave: Também há várias ferramentas que você pode usar como ponto de partida para a improvisação. Uma melodia forte é tão útil quanto grandes variações de acordes. Claro que improvisamos sobre músicas que têm uma harmonia mais rica, e também recheamos algumas músicas com isso. Em "Heart of Glass", por exemplo, pudemos criar um free jazz abstrato e agressivo (quase como a tradição de free jazz torrencial dos anos 60) com essa espécie de melodia disco. Há uma emoção complicada ali e estamos mexendo com isso. Utilizamos várias tradições dentro do jazz – todos viemos de escolas diferentes de improvisação e gostamos de misturar tudo e fazer algo acontecer.

Reid: É verdade que, em geral, a linguagem harmônica da música pop atual não é tão rica ou diversa quanto à do Jazz Songbook. Com nossas composições originais, satisfazemos outros desejos que temos, como por exemplo, tocar sobre uma harmonia que você não encontra na música pop atual. Então não é uma coisa ou a outra. Não saimos por aí dizendo “Você tem que tocar rock’n’roll”. É uma equação mais complexa, e esse é um dos aspectos importantes dessa banda.

Criar um solo improvisado sobre uma harmonia complexa é mais difícil do que sobre alguns powerchords?

Ethan: Na minha opinião, não. De certa forma, quanto mais acordes você tem, mais a harmonia te diz o que tocar. Só acompanhando as mudanças você já será capaz de tocar alguma coisa. Mas ao mesmo tempo, há vários guitarristas que soam bem tocando em Mi, e não conseguem fazer as mudanças. Ambos são diferentes.

Dave: Um bom exemplo é o David Gilmore, do Pink Floyd. Ele tem alguns solos perfeitos criados sobre harmonias bem simples. É a mensagem econômica mais perfeita. Esse também é o nosso objetivo. Às vezes, ampliar o campo de atuação é um desafio.

Reid: O que é realmente difícil é inventar uma grande melodia, ter uma voz melódica como solista. Tanto em harmonias simples quanto nas mais complexas, esse é o critério: você tem ideias melódicas? Elas fazem sentido? Elas dão continuidade à música ou são apenas notas que se encaixam?



Em uma entrevista de 2007, Dave contou que estavam trabalhando em um cover de "Kashmir". O que aconteceu com ele?

(risos)
Reid: Na verdade, nunca fizemos. Tocamos algumas vezes em passagens de som e estava começando a soar muito bem, mas não fomos até o fim.

Ethan: Temos muito respeito pelo material original. Muitas vezes, jazzistas não têm respeito nenhum, eles simplesmente “jazzificam” tudo. Um exemplo óbvio é a música brasileira. Você vai a qualquer lugar nos Estados Unidos onde há um clube de jazz, e eles tocam uma bossa nova horrorosa. Qualquer pessoa que entenda um pouco de música brasileira percebe que esses músicos não sabem nada. É uma besteira naïve. Então, o que quer que seja que você faça, você deve fazer com seriedade.

Eu estava ouvindo "Lithium" (gravada em For All I Care), e é tão legal, porque vocês mudaram o ritmo, mas ela permaneceu uma canção forte sobre um colpaso nervoso. Quando vão fazer um cover, vocês sentam e discutem o que deve ser mantido na música?

Dave: Temos os mesmos impulsos, mas conversamos sobre o que devemos fazer para capturar a energia original de uma música. Começamos a falar sobre Lithium porque todos adoramos essa música. Lembro que no começo estávamos pensando em como poderíamos nos afirmar nela, e então trouxemos um ritmo que tinha uma atitude disfuncional, o que eu achei que se encaixou lindamente. Tipo… algo está errado… é sombrio. Mantemos a emoção original ao mesmo tempo em que criamos algo interessante e diferente – porque não há nada mais frustrante do que um cover ou uma interpretação que é igual à original. Lembro que começamos com aquele ritmo e a partir daí pudemos visualizar. Levou bastante tempo para Wendy cantar aquelas frases perfeitas… ainda não sei como ela fez aquilo, como ela foi capaz de fazer aquilo toda noite (após o lançamento do disco, eles saíram em turnê por quase um ano), porque é um padrão exato.



"Chariots of Fire" e "How Deep is Your Love" (gravadas, respectivamente, em Suspicious Activity? e For All I Care) originais são meio cafonas. Sentiram que eram boas melodias presas em maus arranjos?


(risos gerais)
Reid: Primeiro de tudo, acho que "How Deep is Your Love" é uma ótima canção…

Mas o arranjo original não é…

Reid: Vamos ter que brigar sobre isso.

Dave: Está assentado em um período histórico que pode ser visto como de mau gosto ou bobo. Quando você olha para os Bee Gees eles parecem ridículos…

Reid: (interrompendo) Acho que é o cabelo no peito.

Dave: Mas os Bee Gees são compositores sofisticados. Nos atemos ao fato de que é uma bela canção, mas que está emoldurada dentro de um gênero ou período que é visto como menos importante do que o punk rock ou algo do tipo. De novo, estamos lidando com emoções complexas. É o mesmo com Chariots of Fire. Pode ser algo geracional, mas essa música tem uma energia altiva, como em um hino. De onde nós somos, o tema de Carruagens de Fogo era algo que você aprendia nas aulas de piano. E achamos que a complexidade de emoções estava em pegar essa música e realmente incorporar a grandiosidade por trás dela. Nós três temos reações emotivas bem fortes com essa música, e sentimos que muita gente também tem. Quando tocamos ao vivo e chegamos naquele final “ta da da du da du da du da”, podemos sentir…

As pessoas choram.

(risos)
Dave: A energia original está intacta e é ok admitir que esse é um dos momentos na música pop em que você se deixa render, em vez de tentar ser cool ou dizer “Eu não ouço isso, ouço The Clash”. O negócio é o seguinte: embora pareçamos ser cool (risos), não estamos interessados nisso, estamos interessados em músicas, melodias e no que podemos fazer com elas. Essas duas ("Chariots of Fire" e "How Deep is Your Love") são os exemplos perfeitos das águas complicadas em que tentamos navegar.



E "This Guy is in Love With You"? Procurei por essa canção no youtube e achei com Ella Fitzgerald, Faith no More, Oasis… todo mundo gravou. Vocês sentiam que havia algum aspecto que ainda não havia sido explorado por nenhuma dessas versões ou foi só uma homenagem?

Reid: Nós simplesmente gostamos dela. Tentamos expandir o espectro de possibilidades. Ok, vamos pegar algo como Chariots of Fire, em que o desafio é pegar uma música de mau gosto e torná-la nossa, torná-la poderosa mas sem ironia, e por outro lado há aquelas músicas que você quer tocar simplesmente porque são músicas boas.

Vocês gravaram peças eruditas contemporâneas em For All I Care, e é mais complicado quando você trabalha com esse tipo de música, porque na música pop você tem uma melodia e uma harmonia e a partir desse material você cria um arranjo; já na música erudita, a composição é seu próprio arranjo. Como vocês fizeram para abordar essas peças como improvisadores, mas sem ser desrespeitosos?

Reid: Adicionar bateria em uma música que não foi feita para ter bateria é um dos desafios. Mas também há essa coisa de tocar música que não é improvisada, nós realmente tocamos o que está na partitura – talvez com algumas mudanças aqui e ali.

Na peça do Ligeti há uma segunda parte, mais calma, que vocês cortaram. Por quê?

Ethan: Bom, porque… ele é um dos meus compositores favoritos, mas não sei se aquele coda estava certo. Foi uma edição. Consertamos para ele.

(risos gerais)
Dave: (apontando para Ethan) Ele disse isso, eu não!

Você acha que ele concordaria com você, se ainda estivesse vivo (Ligeti faleceu em junho de 2006)?


Ethan: Provavelmente, não.

Dave: Esperamos ele morrer.

Ethan: Mas eu realmente acredito que… tenho que dizer que conheço todos aqueles estudos muito bem e aquele último pedacinho sempre me desapontou. Nunca entendi por quê. Funciona, mas não para o que precisávamos fazer com a peça. Teria sido muito difícil descobrir o que fazer com ele.  



Dave: O filho do Ligeti, Lukas, gostou da nossa versão.

Ethan: Ele nos deu permissão.  

Vocês foram convidados pela Duke University para tocar Sagração da Primavera (a primeira apresentação foi em março de 2011).

Reid: Nosso mais novo cover. (risos)

Como vocês fizeram essa peça só com três pessoas?

Ethan: Moleza. (risos) Stravinski também escreveu uma versão para dois pianos. Então partimos daí. Era bem óbvio como fazer, precisamos de apenas um pouco de tempo.

Reid: Já foi tocada em piano solo?

Ethan: Sim. E também há uma versão para violão solo, do Larry Coryell.

Dave: Meu deus! A peça inteira?

Ethan: Inteira.

Dave: Fantástico.

E como foi essa experiência? Como as pessoas reagiram?

Reid: Foi muito poderoso. Era uma apresentação multimídia, com vídeos. Não sabíamos o quão emocionante seria, e as pessoas tiveram reações bem fortes. Para começar, porque é uma grande música. Experienciamos uma coisa… porque estávamos realmente tocando a peça, não pegamos apenas segmentos e improvisamos. Tocamos a Sagração inteira. Há muitos detalhes… francamente, foi bem estressante. Começamos a tocar e temos que continuar até a peça acabar, não há nenhum intervalo ou improviso.



Se você errar alguma coisa nessa peça, está fodido.


Reid: Agora precisamos chegar ao ponto em que podemos errar alguma coisa e não estarmos completamente ferrados. É o próximo nível. (risos)

Quando vocês lançaram Suspicious Activity? a Sony colocou um spyware (software que deixa o computador vulnerável a vírus e outros problemas) no CD, e vocês escreveram no site da banda: “Não comprem nosso disco!”. Qual a opinião de vocês nessa discussão enorme sobre downloads, copyrights e o possível fim das gravadoras?

Dave: Estava esperando por isso. Primeiro de tudo: somos contra o spyware da Sony, as gravadoras não lidaram com isso da maneira certa. Mas, ao mesmo tempo, sinto que se você copia um CD, não importa de qual artista, você está roubando. Ter um disco no mundo abre as portas para que possamos tocar no Brasil ou em outros lugares legais. Se seus discos não vendem, as gravadoras não ajudam na divulgação e você não consegue fazer shows. Então, acho que é responsabilidade da pessoa, apesar de estar aí… quero dizer, para nós é chocante lançar um disco e vê-lo de graça na internet. Você pode ir lá e simplesmente pegá-lo. É errado. Nos custou dinheiro e tempo. É o equivalente a alguém chegar em você e tirar seu dinheiro. Ou seus recursos – porque não ganhamos dinheiro com os discos, eles são recursos para que possamos viajar fazendo shows.  

Mas hoje há muita música no mundo. Se eu digo para um amigo “Existe uma banda ótima chamada The Bad Plus”, ele não vai comprar um disco e aí ver se gosta. Ele vai baixar da internet para conhecer e talvez, depois, ele compre.

Reid: Música não é uma commodity comum, não é como uma camiseta. As pessoas têm uma relação diferente com a música, é mais pessoal. Já atravessamos a linha, você pode fazer downloads, está tudo disponível. Agora é preciso entender: se você quer música na sua vida, se você quer que as bandas existam, que criem música e gravem discos, elas devem ser capazer de fazer disso seu trabalho. Ninguém questiona se alguém sai vendendo o que quer que seja para ganhar dinheiro. Então não questione o músico que diz “Olha, temos que ganhar dinheiro com isso”. Sabe quanto custa para fazer um CD? Custa muito dinheiro!



Dave: Não estamos nos nossos quartos usando plug-ins do Garageband.

Reid: É ótimo que as pessoas possam conferir o The Bad Plus online, mas há uma responsabilidade: se você gosta da música, dê suporte o artista.  

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Saiba mais:
thebadplus.com