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Mon: 08-15-11

Bahia de todos os negros . Conexão Vivo Salvador 2011

Por Amauri Stamboroski Jr. . Fotos: Marcelo Santana e Tiago Lima

Talvez nem em suas visões mais ousadas dentro do seu projeto pan-africanista Marcus Garvey tenha previsto a hegemonia cultural que a música da diáspora negra imporia involuntariamente sobre o Ocidente. Virtualmente tudo de relevante produzido na música – um das áreas culturais mais importantes do século XX, econômica e culturalmente – durante os últimos cem anos no lado oeste do globo carrega uma forte influência, quando não advém explicitamente, das periferias culturais negras da África ao Brasil, do Caribe aos EUA e de volta à Europa.

Nesses diálogos do Atlântico Negro o Brasil ocupa um espaço privilegiado, absorvendo, inventando, adaptando e ressignificando, ao mesmo tempo, a matriz africana “ancestral”, a criatividade local e os ritmos modernos amplificados pela indústria cultural. A série gratuita de shows em Salvador entre quinta (11) e domingo (14) deste mês, que marcou o início da etapa baiana do projeto Conexão Vivo 2011, representa, de certa forma, a amplitude e a importância que a música negra têm na formação do tecido cultural brasileiro – especialmente ali, na cidade que foi o primeiro destino dessa diáspora.

É a celebração dessa diversidade que dá sentido a uma escalação que reúne no mesmo palco o estudo rítmico-folclórico do Sertanília – acompanhado por Nego Henrique e Emerson Calado, ex-percussionistas do Cordel do Fogo Encantado – ao lado do groove progressivo do A Cor do Som. Sob o signo dessa árvore musical cujas folhas espelham as raízes africanas, Salvador assistiu apresentações de carimbó, hip-hop, samba, frevo, reggae, tecnobrega.

Com a praia da Pituba castigada por uma forte chuva, a noite de sexta-feira abriu com o  grupo Babilak Bah acompanhado do DJ Chico Correa, numa vibe de experimentação percussiva – entre ritmos, contrapontos e repetições – muito mais instigante que as canções que compunham a outra metade da apresentação. Iva Rothe, que subiu ao palco na sequência, deu uma aula de música tradicional paraense, e acabou explicitando a conexão caribenha entre Salvador e Belém ao chamar o baiano Gerônimo para encerrar a apresentação cantando “Jubiabá” e “Sereia”.

Ainda sob uma precipitação de proporções diluvianas, o trio Três na Folia – espécie de girl group de música de Carnaval – divertia os foliões mais resistentes à água e ao barro que se formava à frente dos palcos. Já sob menor ameaça das intempéries, o “bloco das M”, formado por Márcia Castro e as convidadas Mayra Andrade, Mariana Aydar e Mariella Santiago abriu a sua apresentação com “Doces Bárbaros” numa espécie de carta de intenções, e seguiu passeando por uma informal história do papel da voz feminina na formação da MPB.

Se Pedro Morais foi às raias do soporífero, chegando a anunciar uma música sobre “sustentabilidade” – que por muita sorte da plateia, não foi tocada – e ganhando a simpatia do público apenas depois da entrada dos convidados locais do Maglore, Gaby Amarantos, se apresentando na sequência, mostrou com quantos beats se faz uma festa na laje. Com voz poderosa, comanda o público com facilidade, transbordando carisma, sensualidade e paixão em mesma medida. Atacando com “Faz o T” – homenagem à aparelhagem Treme-Terra Tupinambá, de Belém, composta pela própria cantora – Gaby combina coreografia, refrão e batida, numa fórmula que não faria feio na mão das divas pop que dominam a programação de música estrangeira das rádios. Porém “diva pop” é pouco para ela, q    ue ainda assume a personalidade de madrinha do samba (em “Eu Bebo Sim”), musa MPB (em “Chuva”, de Iara Rennó e Thalma de Freitas) e cantora brega (“Galera da Laje”). Com sua nova banda – que inclui diversos membros do La Pupuña – acrescenta o rock ao seu tecnobrega (ela prefere o “brega” ao “melody”, epíteto recente e menos hostilizável para o mesmo gênero) em uma constante busca de uma sonoridade que a represente com precisão. Equilibrando talento, ambição artística, curiosidade e articulação, Gaby Amarantos é um dos nomes mais instigantes da música brasileira hoje.

À trégua da chuva seguiu-se um impressionante aumento do público, que praticamente lotava o Parque dos Namorados quando Lenine subiu ao palco, praticamente jogando em casa – o sucesso é tamanho que se quisesse, ele poderia tocar apenas os instrumentais e deixar que o público cantasse o resto do repertório.

Apesar da apreensão e do medo de um novo toró, o sábado começou agradável com uma suave brisa marina e o Sertanília cantando suas cirandas, forrós e sambas – aliás, o samba acabaria sendo um dos grandes protagonistas da noite. Os mineiros do Família de Rua na Estrada trouxeram ao palco um duelo de MCs, com nomes locais e outros belorizontinos disputando a noite e os aplausos da plateia. Destaque para a batalha entre o proficiente Vinilão e o malemolente Fall, que teve direito a terceiro round. Ao final, o prêmio ficou com o local Shugs, graças a um bom flow que fez juízes e plateia relevarem o cacoete de abrir quase todos os versos com “tá ligado”.

O momento mais complicado da noite foi a série de problemas de som que prejudicaram o show de Érika Machado – com jeito de tímida, a cantora de voz suave acabou sofrendo bastante com a situação. Em seguida o Senta a Pua, ao lado do flautista e saxofonista Eduardo Neves, passeou entre o choro, a gafieira e o samba canção, e acabou realizando um dos pontos altos da noite com Elza Soares no palco – sentada, após uma recente operação na coluna – derramando pathos em “Se Acaso Você Chegasse” e “O Neguinho e a Senhorita”. Ovacionada, cantou à capella (os músicos tinham deixado o palco após um repertório curto, graças aos atrasos no show de Érika Machado) “Espumas ao Vento”, num bis improvisado e emocionado.

Para seguir balançando os quadris da plateia, o jeito foi o Samba de Compsitor, com a participação de Mariene de Castro, cantando composições de Miguel dos Anjos e Mestre Jonas (“Benção em Vida”), Nei Lopes (“Samba de Eleguá”) e outros bambas. Mas o que atraiu talvez o maior público de todas as quatro noites desta edição do Conexão Vivo foi mesmo o recém-reformado A Cor do Som, que contou ainda com Pepeu Gomes para garantir que não faltasse virtuosismo na noite. Abrindo com “Pororocas”, o grupo passeou pelo reggae (“Abri a Porta”), progressivo (“Frutificar”) e o verdadeiro pop baiano (“Beleza Pura”), fechando a festa com “Dentro da Minha Cabeça” e uma multidão de sorrisos nos rostos.
O domingo começou mais cedo e viu o dia apagar-se para nascer uma linda lua ao som do Grupo Percussivo Mundo Novo – cujo vocalista Mikael Mutti pilota um misto de controle de Guitar Hero com touchpad – com a ilustre presença de Wilson das Neves, transformando por um momento as doideiras da banda em um respeitável samba de gafieira. Peu Murray e Magary, por sua vez, mostraram uma tentativa de reavaliação da música afro na Bahia, com um toque mais pop sem deixar a festa de lado. Manuela Rodrigues, com sua surpreendente voz, foi de Tom Zé a Natiruts, e convidou Romulo Fróes para dividir o palco.

Mas o momento pelo qual todos estavam esperando rolou só no penúltimo show. O rastaman mineiro Celso Moretti – que chegou a usar um estilingue para jogar bolinhas de papel com poemas para o público – chamou para o palco Edson Gomes, pioneiro do reggae baiano. “Faz 30 anos que eu espero por esse encontro”, confessou Moretti, emocionado no palco. Na Pituba lotada não havia uma pessoa, dos camelôs aos organizadores do evento, que não soubesse as letras hits regionais como “Malandrinha”, “Samarina” e “Lili”. Fechando a noite e o festival, o rapper Renegado cantou com a sua banda, contando com a participação de Lenine e apresentando faixas de seu novo álbum, como a suave “Suave”. Dosando partes às vezes desiguais de balanço e hip-hop, o cantor se saiu bem e botou o público extremamente alegre, divertido e acolhedor, para mexer as cadeiras.

(O jornalista viajou a convite da organização do festival)