“I want to hear everything... It’s everything time.” A frase, falada sem acompanhamento já no primeiro segundo de Eye Contact, diz bastante sobre os procedimentos dos nova-iorquinos. Desde God’s Money (2005), a banda liderada por Lizzi Bougatsos parecia ter escolhido o território da música de celebração para trabalhar com seu jogo de sobreposições e efeitos saturados.
Ao mesmo tempo que radicalizavam o som de pista (grime, dubstep e a eletrônica mais experimentalista), partiam da música de rádio de países pobres. A referência ao Sun City Girls neste contexto é fundamental. Como o trio americano dos anos 90, o GGD trata a música da África Subsaariana, dos países árabes, da Ásia Central e do extremo Oriente como canônicas e trabalha as referências pop dos EUA como exotismo. Os sons são combinados e muitas vezes transformados em outra coisa, seja na manipulação dos timbres, seja na organização rítmica e melódica.
Usando uma analogia visual, os mais de onze minutos de “Glass Jar” parecem uma série de imagens impressas em alta definição e superpostas. Os ruídos se repetem, ficam em destaque, perdem intensidade e se tornam paisagem sonora. O mesmo acontece com vocal e ritmo, criando algo ideal para o que as composições parecem sugerir: uma musica de celebração e transe, parte de uma construção bem pouco cerebral. Algo como um carnaval sintetizado, em que as melodias se perdem com os movimentos, ganham novas dinâmicas e se ressignificam.
Em momentos como “Adult Goth”, “Thru and Thru” e “MindKilla”, a banda trabalha numa sonoridade em que o pop é compreendido por elementos que podem soar extremos, datados ou fora do lugar. Aos poucos, melodia e arranjo se misturam em frações, células rítmicas e ruídos que parecem se prolongar além da duração de cada faixa. Assumir estas impurezas que o modelo de estúdio pasteuriza parece ser um dos grandes trunfos do GGD.
As três vinhetas com o símbolo do infinito são outro ponto forte. Instrumentais ou baseadas em samples, as faixas desnudam o procedimento de amontoar ideias sonoras. Quando estas encontram um ponto comum, se reorganizam. De repente, a banda está em outro lugar, e o ouvinte pensa no sem-número de combinações que um ruído pode ter.
Por Lauro Mesquita