Primeiro álbum da banda recifense Nuda (que surgiu em 2008 com o surpreendente EP Menos Cor, Mais Quem), AMARÉNENHUMA estabelece comunicação imediata ao mesmo tempo em que aponta meia dúzia de caminhos no horizonte. O “rock libertário” (boa definição do release do grupo) se impõe em onze faixas prenhes de leituras, com masterização de Don Grossinger, que trabalhou com Flaming Lips, Brian Wilson e Pink Floyd.
“Toque pra Calhetas”, com versos histriônicos e cadência bossa-novista, é uma resposta do século XXI ao estímulo de um Novos Baianos, em ode feliz à praia pernambucana (“Parou. / Desce a pé, tás em Calhetas / Pequena e total no astral do som / da banda que a pedra fez com o mar”). Já os versos “Nós canta porque nós quer fazer o ranço sumir / Canta esperançoso assim / A cidade é maquiagem / Negócio tá tão ruim que nós semo vice-ruim”, de “Maruimstad”, desaguam em solo curto e grosso de guitarra (aliás, certa contenção no desbunde é prova da grandeza do grupo), em uma canção na qual a ironia dolorida serve de abre alas para a corajosa e desassombrada versão de “Ode Aos Ratos”, de Chico Buarque e Edu Lobo – o que diz muito sobre ambições líricas e requinte harmônico, pedras basilares da estética da Nuda.
Na seguinte, “Em Nome do Homem”, um acordeon mantém a temperatura de uma letra que se poderia pensar cantada na boca de Chico ou Sérgio Ricardo na juventude. O texto se impõe como uma pensata, não como uma denúncia, deixando o trabalho no ponto certo para a rápida e experimental “Pisa”, porta de entrada para o questionamento mundano aos ditames metafísicos em “Acorde Universal”. A alquimia sonora do grupo, botando tradição e modernidade em chave indistinta e indecorosa, se apoia no flagrante humanismo de versos como “Ah, o homem é só / É sua própria batalha” e acrescenta a palavra coragem ao vocabulário de uma geração tão tacanha em ambição e transgressão.
Numas de transrock ou trans-sambas, como pensou Caetano Veloso e sua banda Cê, a Nuda marca gol de placa e inaugura capítulo cheio de frescor na música pernambucana – o que por si só não é pouca coisa. A Nuda sabe que o sentido para a vida é sempre adiante.
Por Velot Wamba