A notícia chegou primeiro por e-mail, para amigos, conhecidos e fãs: “Olá! Aqui vai o link para o 1º episódio da minha nova série de micro-mixtapes”, dizia sucintamente a mensagem do produtor e rapper Parteum (Mzuri Sana). Misturando diálogos da série “Fringe”, rock dos anos 70 e rimas sobre a natureza da realidade – entre outros tantos sons – as suas micro-mixtapes, batizadas de “Cortexiphan”, soam como uma “desconstrução da memória musical”, nas palavras do próprio produtor. Intrigados com as mensagens e impressionados com a qualidade do som (o que não é novidade, em 2010 Parteum lançou o ótimo EP “Autoridade da Razão” – confira aqui nossa resenha), trocamos uma ideia por e-mail com o produtor, falando de inspiração, distúrbio de atenção e rock progressivo. Confira abaixo os sons e a entrevista.
Cortexiphan by Parteum
Você está acompanhando "Fringe"? Sempre se interessou por ficção científica?
Sim. Desde bem pequeno acompanho uma coisa ou outra de ficção científica. Lia contos de H. G. Wells e Isaac Asimov, por conta de um tio que colecionava Seleções de Reader's Digest, livros de contos e etc. Acho que um dos meus brinquedos prediletos era uma pistola Laser do Buck Rogers… Só não entendia esse lance dos seriados de ficção dos anos 80 acontecerem, em grande parte, dentro das naves e não realmente explorando a superfície dos planetas "hostis". “Star Wars” mudou isso, ao meu ver.
O que na série te inspirou a fazer as mixtapes? Aliás, porque micro-mixtapes*? Quanto tempo você demora para fazer uma? A inspiração vem toda de “Fringe”?
Basicamente, a relação de Walter Bishop com bandas de rock progressivo e o seu entusiasmo ao falar sobre suas descobertas. Todo criativo é meio assim, e todo mundo é criativo, e todo mundo tem umbigo… Lendo um livro de uma escritora chamada Maggie Jackson, descobri que tenho um certo problema de atenção. Uma micro-mixtape me permite achar meu "ponto de repetição" mais rapidamente. Quando começo a criar patterns e ou ideias melódicas parecidas, pulo para o próximo estágio. Quando estou produzindo um álbum, por exemplo, alongo o processo de feitura das bases, procuro tons parecidos, penso na sequência e etc. Em “Cortexiphan”, minha preocupação é esvaziar o log de ideias do dia. Levo cerca de 40, 50 minutos para produzir e finalizar cada uma.
Você está usando os samples da série dublada – como você acompanha, fica esperando para baixar no dia, acompanha pela TV a cabo, pela TV aberta?
Compro os episódios semanalmente, via iTunes. Tenho os DVDs originais e gravo o que passa na TV a cabo, também. Mês passado, num hotel em Juiz de Fora, descobri que o SBT havia comprado os direitos para TV aberta, mas nem sei qual temporada estão passando.
Você usa muitos samples – e até faz rimas – falando da fragilidade da realidade objetiva. Como o instrumental dialoga com esse conceito?
Graças à tecnologia disponível para produção musical, posso começar meu processo criativo enquanto assisto a algum episódio. Percebi que o esquema de trilha do seriado é criar vazios nos momentos alegres e/ou usar músicas já conhecidas do público adulto contemporâneo… Cresci nos anos 80, consigo lembrar dos hits da época… começo a recortar o que tenho, mexo no tempo, retoco algumas passagens, filtro samples… As mixtapes são na verdade exercícios de produção. É a partir disso que as faixas de álbum surgem.
Nas mixes a gente pode ouvir um trabalho de desconstrução, uma transfiguração do sample, mas sempre amparado no breakbeat – isso faz parte do conceito de “Cortexiphan” em si?
Eu desconstruo, de certa forma, minha memória musical. Como disse, o gosto musical de Walter Bishop me faz lembrar do que ouvia em casa quando comecei a fazer aulas de bateria. Eu detestava treinar viradas por partitura. Produzindo “Cortexiphan”, posso loopar a parte que mais gosto de uma canção, posso criar uma atmosfera esquisita alongando (time-stretching) um sample, posso alterar o tom original do mesmo… é um exercício de produção, mesmo.
Onde você está caçando os samples? Que plataformas você está usando para produzir?
Tenho alguns vinis e uma grande coleção de CDs. Uso o Garage Band no iPad, Reason, Pro-Tools e Logic no laptop, uso meus teclados antigos, minha Groovebox 505, gravo pianos com o mic do telefone, se visito algum estúdio por aí, e pego a MPC emprestada com o Hoodão, de vez em quando.
Por Amauri Stamboroski Jr./ Fotos por Fernando Martins