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Mon: 06-27-11

Cicatrizes . David Small . Barba Negra . 2010

Em poucos momentos uma HQ conseguiu unir poesia e vocação cinematográfica e não soar como um mínimo denominador de ambas as artes. "Cicatrizes", de David Small, é um momento privilegiado nesse sentido e, dentro desse subgênero de quadrinhos autobiográficos tão incensados, uma obra a se observar. O álbum transmite, com profusão de sugestivas imagens e frases raras e definitivas, um mundo em eterno estado de desmoronamento. Nisso, lembra tanto a literatura de O’ Henry como os filmes de Gus Van Sant.

O drama pessoal vivido por Small não é de fato tão casual: Edward, o pai do autor, certo de que poderia curar os problemas respiratórios de seu filho, o trata com altas doses de radiação, o que possivelmente causou o seu câncer. Daí advém toda uma miríade de questões com as quais nem a família nem o garoto sabem lidar – e nessa inadequação das partes é onde entra o brilho da narrativa gráfica, impondo sequências nas quais a HQ se faz sentir como linguagem e transmite o mundo interior e exterior do narrador.

E em um mundo de fatos não discutidos, sublimação e anulação de emoções, o autor criou um todo por fim unificado, amealhando imagens de grande carga emocional que acabam não por nos levar a uma catarse redentora, mas à compreensão de atmosfera tão hostil. O que seria pesadelo ganha ares de contos de fada moderno às avessas, realista, graças ao talento de Small com as imagens, talhado no universo dos livros infantis, onde fez carreira. As imagens ternas do quadrinista dão justamente a noção dessa apreensão mais dilatada e menos simplista que as crianças de fato têm ao lidar com situações difíceis. Por Velot Wamba