Por Pedro Pinhel
Love is in the air, baby.
Não é de hoje que artistas de todos os gêneros musicais conhecidos pelo ser humano falam sobre amor em suas composições. Jazzistas, soul men, rappers, funkeiros, sambistas, pagodeiros e sertanejos costumam destilar paixões, amores, faíscas, lampejos e seus respectivos desdobramentos em seus trabalhos, dos mais simplórios e honestos às supertrilhas vencedoras de Grammys.
Artistas tão diferentes quanto John Coltrane e A Tribe Called Quest jamais poderiam ser exceções a uma regra tão clássica. No caso da obra-prima concebida pelo monstruoso saxofonista John Coltrane no distante ano de 1964, o amor em questão se traduz em doses cavalares de espiritualidade que, harmoniosamente distribuídas ao longo de três faixas-operetas, revolucionaram todo um gênero musical, mudando para sempre a forma de pensar, criar e executar um dos estilos mais ricos e complexos da música contemporânea.
Menos badalados e muito menos celebrados por especialistas e connoisseurs que discutem verborragicamente as mazelas do jazz, embora tão influentes quanto, o trio de rappers A Tribe Called Quest criou, à sua maneira, uma homenagem bastante sincera ao conceito de amor. Obviamente, o amor cantado por essa rapaziada do Brooklyn (NY) é objetivamente associado à paixão, ao romance, ao sexo e ao sensual rebolado, a.k.a. vai-e-vem, das pessoas do sexo feminino em geral.
Espiritual ou carnal, passional ou platônico, o amor se faz presente em discos de diferentes gêneros, em diferentes épocas e com diferentes conotações. Experiências são minuciosamente descritas, divididas, transformadas em melodias, partituras, belas poesias ou rimas cheias de sinceridade. E o maior beneficiado, meu amigo, é você!
John Coltrane – A Love Supreme (Impulse!, 1964)
Gravado ao final de 1964, "A Love Supreme" reúne todas as inovações musicais experimentadas por John Coltrane durante a década anterior aplicadas em “apenas” três faixas; “A Love Supreme PT. 1 – Acknowledgement”, “A Love Supreme PT. 2 – Resolution” e “A Love Supreme PT 3 – Pursuance / Psalm”.
Um dos discos mais espirituais já gravados, ainda que cheio de lógica em sua composição, A Love Supreme reuniu o Dream Team do jazz em uma formação de fazer inveja ao USA For Africa: Elvin Jones na bateria, McCoy Tyner no piano e Jimmy Garrison no baixo, além do sax impecável de Coltrane como fio condutor. Musicalmente e espiritualmente alinhados, os quatro músicos criaram uma obra-prima do jazz, e também um dos discos mais celebrados da história do gênero – alem do LP mais vendido da carreira de JC.
Com seus pouco mais de trinta minutos, "A Love Supreme" pode ser considerado um disco de curta duração, embora a história constantemente nos diga o contrário. Instrumental do início ao fim, influenciou músicos de todos os estilos, épocas e gerações, provando ser a meia hora mais revolucionária da música contemporânea. O free jazz (muitas vezes descrito por entusiastas em geral como avant-garde jazz ou hard bop) tomaria novos rumos a partir de seu lançamento, e John Coltrane certamente adicionou dois ou três adjetivos ao significado da palavra “amor” nos dicionários modernos.
A Tribe Called Quest – The Love Movement (Jive, 1998)
Muito menos espiritual que a obra-prima de Coltrane, "The Love Movement" é uma ode dos MCs Q-Tip e Phife Dawg e do produtor Ali Shaheed Mohammad ao amor. Obviamente, um amor menos requintado, menos metafórico e muito mais objetivo, visceral e aplicado à vida cotidiana.
Em "The Love Movement" os MCs falam sobre experiências pessoais, amadurecimento, decepções, frustrações e... mulherada na bota, obviamente – problema que assola onze entre dez rappers desde que Big Bank Hank e Wonder Mike escreveram os primeiros garranchos da hoje mitológica “Rapper’s Delight”.
A produção, seca, direta e cheia de timbres perfeitos – evolução natural do ótimo "Beats, Rhymes & Life", de 96 – garante momentos espetaculares, como a ótima “Find A Way”, parceria entre o ATCQ e o finado produtor James “Yancey” Dilla, que tem até sample da Bebel Gilberto, e a sincera “Common Ground”, que descreve com simplicidade e de forma verdadeira as angústias e as alegrias de um relacionamento prestes a completar um ano.
O flow espetacular e os one-two punches aparentemente perfeitos entre Tip e Phife escondem uma triste verdade: a relação desgastada entre os membros do grupo gerou uma prematura separação entre seus membros logo apos a turnê de "The Love Movement", separação que durou até o ano de 2009, quando os bolsos falaram mais alto que as ideologias e o trio finalmente cogitou voltar a dividir o mesmo palco, ainda que sem previsão de novos álbuns.
O amor juntou, o amor separou, o amor reagrupou. E o fruto do amor do ATCQ é um dos melhores discos de rap do final dos anos 90 - um disco sobre amores, desamores e todos os respectivos estágios intermediários.