Por Daniel Tamenpi Fotos: Divulgação
Formado por músicos e produtores que ditam tendência na música europeia atual, a banda Orelha Negra é uma das melhores novidades vindas de Portugal nos últimos anos. Os gajos foram escolhidos a dedo para acompanhar a turnê do último álbum de Sam The Kid (o rapper mais famoso e bem-sucedido de Portugal) e, durante os ensaios e jams, surgiu a ideia de uma banda instrumental que passeasse entre o funk, soul, rock e eletrônico, tendo o hip-hop como base, mas com uma identidade local, usando samples, colagens e vozes populares da cultura lusitana. O grupo conta com Sam The Kid, DJ Cruzfader, Fred Ferreira (Buraka Som Sistema), Francisco Rebelo e João Gomes (ambos da banda Cool Hipnoise), e seu álbum de estreia homônimo foi um dos mais vendidos de Portugal em 2010, rendendo uma indicação ao MTV Europe Music Awards e shows por toda a Europa. O baterista Fred Ferreira falou um pouco sobre o projeto, a cultura dos sleevefaces, a parceria com o artista plástico Vhils e a recém-lançada mixtape.
O Orelha Negra reúne grandes nomes da música portuguesa contemporânea. Como aconteceu essa união e como rolou a ideia da banda?
Aconteceu quando estávamos fazendo a turnê do Sam the Kid. Nós já éramos a banda dele nas apresentações ao vivo e durante as passagens de som íamos fazendo muitas jams. Quando terminaram as apresentações, combinamos uns ensaios para curtir um som juntos e começou a nascer a Orelha Negra.
E o nome, como surgiu?
Também em um ensaio. Foi muito rápida a decisão. Achamos o nome muito bom e fazia todo o sentido com a música que estávamos fazendo, já que a nossa principal fonte de inspiração é a black music. Confesso que, na primeira vez em que escutei o álbum, me lembrou muito o som do RJD2 e de produtores que usam o hip-hop como base para criar um som mais abrangente.
"Somos um grupo bastante heterogêneo, e há várias influências e percursos diferentes entre os músicos da banda, mas o hip-hop é o ponto de partida. Talvez até uma técnica, mais que uma estética"
Essa foi a intenção de vocês?
Nunca pensamos muito dessa forma. Claro que quando fazemos música o objetivo é chegar ao máximo de pessoas possível. Ficamos contentes de termos chegado a muita gente, mas o objetivo principal é sempre criar um som com que nos identificamos, e realmente gostamos do som que estamos criando. Talvez tu sintas que isso acontece porque, de fato, somos um grupo bastante heterogêneo, e há várias influências e percursos diferentes entre os músicos da banda, mas o hip-hop é o ponto de partida. Talvez até uma técnica, mais que uma estética.
Portugal tem uma das melhores cenas hip-hop da Europa. Vocês acham que o Orelha Negra está abrindo espaço também para o lado instrumental da música urbana portuguesa?
Realmente em Portugal não existem muitas bandas de hip hop instrumental, mas ainda assim temos nomes como o DJ Ride, o Bling Project e alguns outros que também têm uma vertente instrumental dentro do hip-hop. Nós somos mais um a representar o nosso país e estamos tentando levar a nossa música o mais longe possível.
As músicas trazem muitos elementos: samples, arranjos, colagens. Além de usarem influências de diversos estilos como funk, soul e rock. Como funciona a composição das músicas para vocês?
Varia muito. Tem muitas músicas que surgem de uma base do Sam the Kid na MPC, outras se iniciam com os instrumentos, mas acaba sendo tudo criado com os cinco na sala tocando por cima de ideias de cada um.
Vocês imaginavam que iriam ter um dos álbuns mais vendidos de Portugal, além da indicação ao MTV Europe Awards? Acha que é um sinal de mudança positiva na música popular europeia?
Foi uma grande alegria para todos nós esse reconhecimento e sucesso do nosso primeiro álbum. Permitiu que fizéssemos shows em muitos lugares, levando a nossa música a muita gente. Temos tido um feedback muito grande não só de Portugal, mas de vários países da Europa, Estados Unidos e, agora, do Brasil também. Talvez haja muitas pessoas que estão fartas do mainstream atual na música e procure coisas novas, novas direções. Uma banda de hip-hop instrumental, cheia de groove, samples e vozes em português pode ser a solução!
Além da ótima música, outro grande destaque é a capa do álbum, em que a banda toda aparece em sleevefaces. Como surgiu a ideia e por que esconder o rosto de vocês, que são artistas conhecidos na cena portuguesa? Teve alguma segunda intenção nisso?
A ideia do sleeveface foi sendo desenvolvida ao mesmo tempo em que íamos fazendo o disco. Convidamos o nosso amigo Pedro Claudio, que fez um trabalho incrível nas fotos e chegou ao resultado que queríamos. Decidimos aparecer dessa forma nas fotos para que a música falasse mais alto. Não queríamos que fizessem nenhum tipo de julgamento pelos músicos que estavam ali, apenas pela música. Também queríamos fazer uma homenagem ao vinil, como representante da época do analógico, da era de ouro da música soul, funk e do nascimento do hip-hop. Sendo o nosso primeiro disco, teria que representar quem somos na essência. Daí optamos por essa técnica de que somos grandes fãs. Uma coisa muito interessante foram os samples de nomes da música portuguesa como Fernando Tordo, além de nomes populares como Henrique Mendes e Julio Isidro.
Isso criou um diferencial no som de vocês, dando uma identidade local forte. Foi proposital?
Foi intencional no sentido de criar uma identidade nossa, do Orelha Negra, porque tínhamos consciência de que o universo da música portuguesa não é devidamente explorado pelos produtores de hip-hop daqui, o que não faz muito sentido, já que é uma das principais referências em termos de cultura urbana para a nossa geração, e também a dos nossos pais. São os discos que mais se encontram nas feiras de discos e sebos. São os samples que estão à nossa disposição e com os quais todos, pelo menos em Portugal, se identificam. Esse pode ter sido um dos segredos para o nosso som ter tido uma aceitação tão transversal.
"Temos tido um feedback muito grande não só de Portugal, mas de vários países da Europa, Estados Unidos e, agora, do Brasil também. Talvez haja muitas pessoas que estão fartas do mainstream atual na música e procure coisas novas, novas direções. Uma banda de hip-hop instrumental, cheia de groove, samples e vozes em português pode ser a solução!"
Percebe-se coisas da música brasileira também. Qual a relação de vocês com a nossa música?
Em Portugal existe uma grande ligação com a música brasileira. Todos nós já tivemos experiências com músicos brasileiros como o Marcelo Camelo – fazemos inclusive uma versão de um tema dele (“Saudade”) no nosso disco –, o Kassin, o Marcelo D2, a Orquestra Imperial, entre outros. E todas essas boas influências e boas experiências que passamos serviram de inspiração para o processo de criação do álbum.
Como começou a parceria com o Vhils? Além do clipe, vocês estão com outros planos juntos?
O Vhils é uma pessoa que já conhecíamos de outros trabalhos e é nosso amigo há muito tempo. No ano passado surgiu a oportunidade de tocarmos em um grande festival daqui (Festival Sudoeste) e propusemos ao Vhils participar da nossa apresentação. A parceria foi perfeita, todos ficamos muito contentes e com vontade de fazer mais coisas juntos. Logo em seguida surgiu a hipótese de fazer o clipe da “M.I.R.I.A.M” (lançado em fevereiro de 2011) e neste momento ainda estamos desfrutando desse novo trabalho em conjunto, mas já estamos pensado em algo especial para um futuro próximo também.
E como são as apresentações ao vivo da banda?
Seguem um pouco o formato do disco, já que, pelo fato de compormos as músicas em grupo, como uma banda de rock, conseguimos tocar em tempo real todos os sons, vozes, loops e efeitos que você ouve no disco. A diferença é que temos liberdade para interpretar os temas como uma música instrumental, sem ser sequenciada como é no álbum. Temos também vários momentos em que homenageamos nossos heróis em clássicos do hip-hop e outros estilos, com versões e variações sobre breaks e samples clássicos. Como não temos um vocal, esse papel se complementa com o DJ Cruzfader e o Sam The Kid com vozes e colagens através da MPC e scratches. E, por esse mesmo motivo, investimos bastante também na parte cênica e visual do show.
Agora vocês lançaram a mixtape com diversos remixes e versões rimadas e cantadas com grandes MCs como Valete, Xeg, NBC, além de nomes de fora do hip-hop como Lucia Moniz e Orlando Santos. Vocês sentiam uma necessidade de letrar os instrumentais?
Não sentíamos propriamente necessidade, mas fomos recebendo algumas músicas nossas com letras do pessoal daqui e decidimos então fazer uma mixtape. São vários cantores amigos nossos, e é uma pena não termos conseguido colocar todas as músicas que recebemos, ficaram coisas muito boas de fora. É muito bom ouvir a interpretação que cada um faz ao ouvir a nossa música. Demos total liberdade a todos para fazerem o que quisessem, e o resultado foi muito bom.
Saiba mais:
myspace.com/orelhanegra