Se o punk nasceu de uma necessidade de refletir e sintetizar de maneira crítica o que até então havia acontecido no rock, nenhuma banda foi tão efetiva nesse sentido como o Minutemen. Inspirados pelo clássico Pink Flag, do Wire, o trio partiu para suas longas reflexões sobre a música em composições de pouco mais de 60 segundos. Coisa que só amigos obcecados por som poderiam fazer. Ao longo da carreira, começaram a elaborar esses pequenos fragmentos em composições maiores e em outros tipos de canção, sempre refletindo sobre o rock e sobre o impacto da cultura independente na sociedade.
D. Boon, guitarrista do Minutemen, definia o punk, em tradução livre, como qualquer coisa que queremos que assim seja. Após a sua morte, essa noção de liberdade continuou permeando as carreiras dos dois remanescentes da banda de San Pedro – do baixista Mike Watt, principalmente. Sua trajetória errática no cenário independente americano fez com que ele passasse por formações que vão dos Stooges aos experimentalismos do Ciccone Youth. Mas, em seus trabalhos solo, sempre parecia que o baixista mais influente da música independente americana estava tateando um caminho. Isso até este incrível Hyphenated-Man.
O disco é chamado por Watt de sua “terceira ópera”, mas não espere a trajetória de um personagem errático com começo, meio e fim, ou uma interpretação roqueira de algum modelo clássico. Inspirado pelo pintor flamengo do século XV Hyeronimous Bosch, o álbum é composto de 30 pequenos fragmentos musicais (só uma canção tem mais de dois minutos), que soam como se olhássemos para uma tela cheia de personagens caricaturais e situações bizarras. São peças com significados particulares – como os personagens-provérbio de Bosch –, mas que têm um sentido comum entre elas.
É nesse painel que Watt recupera muito do poder de síntese do Minutemen (são só três instrumentos!), dialogando com a estética que o grupo construiu nos anos 80 (as canções foram compostas em uma antiga telecaster de D. Boon) e com muito da música que formou a sua geração – de Captain Beefheart e Credence a Wire, Black Flag, Gang of Four. O resultado é esclarecedor para entender um dos personagens que ajudaram a dar forma ao rock como nós o conhecemos hoje. Por Lauro Mesquita