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Mon: 04-04-11

Rafael Sica . Ordinário . Quadrinhos na Cia . 2011
Eu quase desisti de escrever este review ao ler a apresentação que Fábio Zimbres assina ao final de "Ordinário". Sério, que cara egoísta: achou todas as palavras mais cabulosas, frutos de insights tão brilhantes, que não sobrou nada pra ninguém. Se você quer entender mesmo porque o Sica é um artista tão único, é só comprar o livro e ler aquele texto (só não fiz um CTRL C + CTRL V aqui porque ficaria feio e eu poderia acabar comprando briga com a editora). Claro, talvez antes de ler a apresentação e de comprar o livro você queira saber o que se passa ali dentro. E é só por isso que eu vou me atrever a dizer algo além do que o Zimbres já disse.

Rafael Sica é um quadrinista gaúcho – o melhor da nova geração no Brasil na minha opinião –, que tem um traço ao mesmo tempo sujo e delicado, à base apenas de lápis preto e nanquim, e faz quadrinhos mudos. E é assim, nessa carência auto-imposta de meios, que ele conta histórias sobre a vida das pessoas. Histórias, como o nome do livro sugere, ordinárias. Tão ordinárias que, se você tentar lê-las sentado no banheiro, vai passar batido, sem entender nada. Essa é a mágica do Sica: pra sacar o extraordinário ali, só se o leitor fizer como ele.

É preciso se despir de um olhar viciado e podar a ansiedade para entrar em um ritmo mais lento, no qual cada pequeno quadro surge como se fosse uma história em si, à espera talvez de um quadro seguinte, que traria uma legenda, como nos filmes mudos. Mas esse quadro-legenda nunca vem, e você fica ali, criando epifanias em completo desamparo enquanto se dá conta de que "Ordinário", pequeno no tamanho, diminuto em recursos, é um livro de ambições magníficas. 

Por Mateus Potumati