+HIGHLIGHTS


Thu: 04-28-11

Entrevista: João Lelo . Super Mario Arte


Por Natália Lucki e Marina Mantovanini . Retrato por Fernando Ferreira Martins


Com referências que vão de Mario Bros. a Klimt, João Lelo surge como uma lufada de ar fresco na cena carioca. Iniciado no desenho por influência dos pais, se envolveu posteriormente com telas e escultura, além das habituais paredes grafitadas pelo Rio de Janeiro. Consciente de que o mercado oferece possibilidades de conduzir sua carreira sem imposições, acaba de entrar no casting de artistas da Choque Cultural. Por conta de sua formação como designer, a criatividade pictórica de João é baseada no universo vetorial, e suas pinceladas criam personagens pop em cores fortes como amarelo e vermelho.

O graffiti apareceu no Rio de Janeiro um bom tempo depois de São Paulo, muito pela tradição que o pixo já tinha na cidade. Fale um pouco sobre essa nova cena de street art no Rio.

São Paulo tem graffiti desde os anos 80. No Rio chegou somente nos anos 90. Eu já sou da segunda geração, comecei a pintar em 2000/2001. No final dos anos 80 teve uma pequena cena de estêncil que morreu meio rápido, e no final dos 90 começou o graffiti. O reconhecimento tem acontecido faz uns dois anos, mas ainda tem preconceito, ainda não aceitam o graffiti. O próprio pessoal que faz graffiti não se posicionava como artista. Agora os caras já começam a pensar numa produção de estúdio, sem ter que repetir o que se faz na rua. Daqui a uns dois ou três anos vai ter uma cena bem legal de artistas cariocas.

Tem lugar pra expor no Rio, galeria especializada, ou vocês é que estão criando?

Está sendo criado. Não são os artistas, mas gente que está no nosso meio, da nossa geração. Tem a La Cucaracha e a Homegrown, que abrem espaço pra exposições e eventos não só de graffiti, mas de tatuadores, lançamento de livros, fotografias, calendários. É uma coisa bem DIY, ainda não está virando muito, mas é feito de coração. E agora tem algumas galerias que estão começando a abraçar isso.

 

“Quando comecei a desenhar, as minhas referências eram os quadrinhos. Eu não fazia aula de desenho, mas jogava muito videogame. Quando as pessoas me perguntam minhas referências, eu falo: Super Mario.”

 

Foi você quem chegou até os caras da Choque?

Foi uma coisa meio mútua. É um processo, você não entra lá e faz uma exposição, eles fazem um trabalho com você. No Rio ainda é um comércio, o curador pega você, faz uma exposição, vendeu, acabou, morreu. Na Choque, eles apoiam seus projetos. E eu tenho muitas ideias de projetos pra realizar.

Pode contar?

A ideia é que em 2012, com a minha exposição, eu faça a abertura com um bloco de carnaval. Vou desenvolver tudo, carro alegórico, as vestimentas, os detalhes todos. É uma ideia meio doida, mas os caras sentam, escutam e ajudam a fazer. Isso é uma coisa que não tive no Rio.

Você já tinha relação com o pessoal de São Paulo?

Comecei a me interessar na parada de sticker e de pôster, e por acaso vim pra São Paulo. Era 2000 ou 2001, e vi que aqui já tinha uma cena de pôster, que eram os caras da SHN e Faca. Voltei pro Rio, comecei a fazer pôsteres e adesivos e conheci o pessoal da SHN. O Eduardo [Saretta] ficou um tempo no Rio pra fazer uma pesquisa e a gente ficou amigo. Foi ele que me falou de um pessoal querendo fazer uma galeria, e era a Choque Cultural. Na época, os caras não sabiam no que ia dar. Eles já tinham algum conhecimento, porque a Mariana é filha do Aldemir Martins, mas foram descobrindo e criaram um modelo de galeria que pra mim é um dos mais legais.

O lance da arte veio por causa dos seus pais, você teve uma formação artística em casa. Quanto você acha que isso influenciou seu trabalho?

Sou formado em Desenho Industrial, mas tenho uma base de arte. Meus pais são arquitetos, mas sempre pintaram. Sempre teve muito livro de arte e quadrinhos em casa. Eu desenho desde sempre. Desenhava com meu pai. Quando eu estava um pouco mais velho, meu pai me colocava pra ajudar ele a montar maquete. Quando fui fazer o básico de desenho na faculdade, já tinha feito isso 18 anos antes. Meu trabalho de arte é autodidata, a maneira que eu uso o material muitas vezes não é a certa.

Seu desenho é bem vetorial. Você acha que a falta de ter um estudo técnico influencia na sua produção?

Meu trabalho é muito chapado. São traços muito definidos. Acho que o detalhe no meu trabalho fica nessa parte de padrões. Eu não trabalho com volumes. Meu primeiro curso de modelo vivo foi na faculdade. Daí eu já tinha meu estilo. Na verdade, sou um pouco contra curso de desenho por isso, você acaba sendo imposto a desenhar como o professor. Acho legal o cara ter técnica, mas o mais legal é ter o estilo dele, que é bem mais difícil.

Na hora que você sai do 2D e vai pro 3D, precisa ter um pensamento espacial completamente diferente. Como você está trabalhando nisso?

Eu fazia uma exposição, e sempre gostava de pintar a parede. Daí eu fiz uma em Belo Horizonte em que pintei a parede e queria fazer umas árvores, mas, em vez de pintar, montei com umas caixas de madeira. Aí, na [exposição] Transfer, fiz uma pintura e coloquei umas peças em volume, uma brincadeira com as linhas no espaço. Na verdade, eu ia a muita exposição e tinha preconceito com instalação. Hoje em dia é o que eu mais olho. Fui à Bienal e o que eu mais queria ver eram as instalações, vou e fico olhando, reparo até no material que o cara está usando. Começou assim. E da instalação já parti pra escultura. Mas não sei se chamaria de escultura, é mais montar umas peças, voltando até um pouco pro meu estudo básico de design de produto.

 

“Gosto de pintar com mais gente, mas são poucas as pessoas com quem gosto de trabalhar. As pessoas não sabem interagir, tem muito mural de graffiti com trabalhos separados. Isso pra mim sempre foi sem graça.”

 

Você passou por linguagens completamente diferentes. Saiu do desenho, passou pela área acadêmica, o graffiti e agora as instalações. Como vê a evolução do seu trabalho?

São linguagens diferentes, mas no final tudo tem a ver. No começo, eu me ligava muito em composição, diagramação. Isso me preocupava muito no desenho, mas quando fui pra rua deixei de lado. Fazia um desenho muito solto e agora meio que estou voltando pra isso, meu trabalho agora tem uma preocupação mais geométrica, por mais que sejam personagens bem cartum.

Seus trabalhos têm uma paleta de amarelo muito forte. Isso tem algum motivo?

Acho que tenho umas fases de cor. Montei o meu site agora e, quando botei todos os thumbnails dos trabalhos no portfólio, as cores são amarelo, vermelho e marrom. Agora tô começando a usar mais azul, é uma coisa também do design, você pensa numa paleta de cores. Quando fecho uma paleta de cor, tenho uma enorme dificuldade de incluir outra.
Você era viciado em videogame, e seus personagens são pura arte pop. Como você desenvolveu esse trabalho?
Quando comecei a desenhar, as minhas referências eram os quadrinhos. Eu não fazia aula de desenho, mas jogava muito videogame. E comecei copiando, lembro que meus primeiros personagens do graffiti eram umas coisas que eu fazia no colégio, uns caras vestidos de coelho. Eu jogava Super Mario 3 e, quando as pessoas me perguntam minhas referências, eu falo: Super Mario.

Mas você tem outras referências?

Sempre gostei muito do Schiling e do Klimt, por causa dos livros de art nouveau que meu pai tinha em casa. Quadrinhos dos anos 70, as mulheres que os caras desenhavam. Meu primeiro contato com o graffti foi com os caras que faziam graffiti de letra, mais tradicional. Eu experimentei, mas não foi uma coisa que bateu em mim. Daí um amigo meu me trouxe um livro do Futura (um dos principais nomes do graffiti nova-iorquino). Quando vi aquilo, já sabia que o cara fazia uns desenhos, mas não graffiti, foi a primeira vez que bateu. Fiquei muito louco com o trabalho dele.

Mas como pegou a lata pra pintar mesmo? Quando você mergulhou nisso?

Tem um amigo meu, o Ipek, que faz um graffiti mais de letra. Liguei pra ele e pedi pra me chamar quando fosse pintar na rua. Ele fazia as letras dele e eu ainda estava aprendendo, fazendo uns personagens toscos. Com o tempo fui pegando o jeito.

Você curte pintar com mais gente ou prefere trabalhar sozinho?

Gosto de pintar com mais gente, mas são poucas as pessoas com quem gosto de trabalhar. As pessoas não sabem interagir, tem muito mural de graffiti com trabalhos separados. Isso pra mim sempre foi sem graça. As pessoas com quem eu pinto mais, a gente se encontra um dia antes, faz um rabisco juntos ou às vezes nem rabisca, mas chega num lugar e pensa no desenho juntos.

Você ainda faz bastante coisa na rua?

Nesses dois últimos anos tenho me dedicado muito ao meu trabalho autoral. Pintei bastante tela, fiz exposição em Washington, no Brasil. Daí pintei menos na rua. Se você começa a pintar muito, chega uma fase que nem pensa mais no que está fazendo. Às vezes acho legal parar. Não pinto, não desenho, fico só indo a livrarias, sem pensar em nada.

Saiba Mais:
flickr.com/photos/joaolelo