Existe um tipo mais perigoso e danoso de injustiça artística do que não reconhecer os grandes gênios perdidos – reconhecer o talento, mas traduzir sua influência com as intenções menos virtuosas possíveis. Vendo as coisas por esse ângulo, poderíamos colocar os escoceses do Mogwai entre os artistas mais injustiçados da história. Apesar de uma carreira de mais de dez anos no pós-rock, apresentando diferentes tonalidades, soluções e propostas no nebuloso estilo, o quinteto acaba sendo repetidamente citado como principal referência por um longo corolário de bandas de metal ruim – Steve Vai encontra Iron Maiden para fazer música de elevador seria uma boa definição para esse séquito –, que insistem em afirmar que, por não contarem com um vocalista, na verdade fazem pós-rock. Enquanto seus seguidores de menos talento chafurdam em pastiches de “Like Herod” (faixa do disco de estreia do Mogwai, Young Team, de 1997), o Mogwai cria um álbum econômico e diverso, quase pop em alguns momentos. “Mexican Grand Prix” combina vocoder nos vocais com base krautrock, e a climática “Letters To The Metro” lembra os bons tempos do álbum Come On Die Young. O grupo mostra até que sabe fazer rock (quase) convencional, como em “San Pedro” e na moderninha “George Square Death Party”. Na ótima “You’re Lionel Richie”, o Mogwai se disfarça de Godspeed You! Black Emperor para mostrar com quantos minutos se faz um épico. Um dos discos mais acessíveis da carreira do grupo, Hardcore Will Never Die, But You Will já tem pelo menos um feito que o garantirá na memória dos fãs: é desde já o melhor título de álbum de 2011.
Por Amauri Stamboroski Jr.