MV Bill – O Mensageiro e suas Verdades
Por Daniel Tamenpi . Retratos por Fotonauta . Fotos ao vivo por Otávio Leite
Alex Pereira Barbosa, mundialmente conhecido como MV Bill, construiu nos últimos dez anos um trabalho firme e concreto, não só no rap e na música brasileira, mas também na área social. Seus diversos e bem-sucedidos projetos o levaram a ser reconhecido pela UNESCO, em 2007, como uma das dez personalidades mais influentes do mundo naquela década. Isso sem falar em seus discos, que elevaram ainda mais o nível do rap brasileiro. Com a agenda sempre cheia, o rapper separou um tempo e nos recebeu em sua passagem por São Paulo, no início de dezembro, para falar sobre carreira, projetos, passado, presente e futuro.
“Eu falava muito, dentro da Cidade de Deus, que o hip-hop era a música da mensagem, que o hip-hop tinha uma verdade, e as pessoas começaram a falar ‘olha o menino da verdade’ (...) e cheguei ao Mensageiro da Verdade. Hoje, com 36 anos, vejo que é uma parada muito pretensiosa. Qual verdade? Que verdade é essa? Hoje o MV tá mais pra ‘minha vida’, ‘minha verdade’.”
A sua história na música começou com o samba. Veio de família, isso?
Na verdade fui induzido. Meu pai meio que me chantageou. Como estava se separando da minha mãe e já era compositor de samba-enredo, ele meio que me obrigou a puxar samba pra ele. Tive uma iniciação com o microfone por causa disso, mas não foi a minha iniciação na música. Eu já queria ouvir rap desde cedo, mas minha mãe me obrigava a ouvir o que ela queria. Hoje agradeço por isso ser parte da minha formação musical, apesar de ter sido a contragosto.
Eu li que a alcunha MV foi dada pela comunidade evangélica da CDD (Cidade de Deus). Você teve uma infância religiosa?
Nunca fui religioso, mas sempre vi o hip-hop como uma coisa muito próxima de uma religião. Hoje o hip-hop começou a demonstrar que poderia trazer um certo status. Mas tempos atrás o sentido era outro. Não tinha essa coisa de visibilidade artística no hip-hop, era muito mais pela militância, pelo ativismo. Pra mim o MC era como um pastor evangélico, por não discriminar o lugar onde tem que chegar, mesmo os mais perigosos. Eu falava muito, dentro da Cidade de Deus, que o hip-hop era a música da mensagem, que o hip-hop tinha uma verdade, e as pessoas começaram a falar “olha o menino da verdade”. E, como no Rio tem a cultura do funk carioca, quando eu falava que era MC, as pessoas perguntavam: “Vai cantar o quê? O funk do tênis? O funk da cabeça?”. Daí eu vi que teria que criar algo único pra mim, e cheguei ao Mensageiro da Verdade, que era o que me identificava. Hoje, com 36 anos, vejo que é uma parada muito pretensiosa. Qual verdade? Que verdade é essa? Hoje o MV tá mais pra “minha vida”, “minha verdade”.
E voce faz questão de continuar morando lá, né? A CDD é o seu refúgio do mundo artístico?
É uma questão de identificação. É lá onde eu me sinto bem, onde percebo que ainda tem muita coisa pra ser mudada, que ainda tem muito trabalho por fazer. Fico em hotéis legais, almoço em restaurantes bacanas, viajo de avião, tudo isso faz com que os pés deem uma flutuada, mas quando chego na Cidade de Deus parece que os pés se fincam de novo no chão e vejo qual é a realidade.
Como você disse, o Rio de Janeiro é uma cidade que tem o funk como trilha principal do povão. Qual foi seu primeiro contato com o rap, e quando decidiu que era através do rap que queria viver?
O Rio de Janeiro tem mesmo uma cultura de funk muito forte. Mesmo antes do funk carioca em si, já tinha o Miami Bass feito na Flórida, que dominava o Rio. Talvez pela similaridade entre Miami e Rio. Quando fui pra Miami pela primeira vez, entendi. Parece bastante, umas avenidas iguais às da Barra. Cheguei em casa e comecei a revisitar uns clássicos daquela época, e percebi que é um som de clima de cidade praiana, e caiu muito bem no Rio. E rolavam umas sessões nos bailes chamadas de “rasteiros”, Gucci Crew, 2Live Crew, Tha Doggs, de vez em quando vinha um Whodini. Pra mim isso já era rap. Quando vi "Colors – As Cores da Violência", tive um esclarecimento do que era o hip-hop. Isso foi em 88. Quando fui ver as coisas que tinha, percebi: “Mas isso aqui é o rap”. Já escutava LL Cool J, Mantronix, Ice T. Mas o grande “plim” veio quando comprei os dois discos do Public Enemy, o "Yo! Bum Rush the Show" e o "It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back", junto com uma fita com vários videoclipes. Foi quando vi que o hip-hop, além de ter um balanço maneiro, uma música legal, um estilo de roupa que também era fascinante, tinha ali uma coisa que eu poderia fazer, que poderia ser o grande diferencial na minha vida e na minha comunidade. Quando estive com o Chuck D na Cidade de Deus, disse que sabia tudo que ele tava falando sem entender uma palavra de inglês, só assistindo aos videoclipes. No encontro seguinte, em Washington, eu mostrei uma fita com meus vídeos e ele disse a mesma coisa. Essa linguagem do sentimento me fez dizer “quero fazer isso da minha vida”.
No seu primeiro disco, "Traficando Informação", rolou aquele problema com o clipe do “Soldado do Morro”. Você acha que, se esse clipe fosse lançado hoje, quando a mídia transmite ações violentas ao vivo e na íntegra, teria o mesmo problema?
Acho que não. Até porque hoje a minha imagem é quase globalizada, sou conhecido em muitos lugares. Antes as pessoas não me conheciam, e normalmente se tem um olhar de muita desconfiança pra quem vem desses lugares. Até que se prove o contrário, está se propagando o banditismo. E eu tive que provar o contrário. Tive que recusar a alcunha de bandido. A MTV foi proibida de passar o clipe. Eu não aceitei isso. Se aceitasse, estaria admitindo que de fato sou um bandido. Iria deixar de fazer uma intervenção em uma discussão que estava sendo levada pro lado errado. Apresentei o vídeo pro [então ministro da Justiça] José Gregori e perguntei se aquilo era crime. Ele disse que eu só tava mostrando uma realidade que não pode ser jogada pra debaixo do tapete. A partir de então, todos os jornalistas que estavam me acusando voltaram atrás. E se o ministro não fosse um cara compreensivo? Se fosse um cara reacionário, fascista, e me acusasse de banditismo mesmo? Eu ia ser condenado? Então comecei a questionar qual era o critério utilizado pra determinar o que é arte e o que é banditismo. Por exemplo, se “Soldado do Morro” tivesse sido escrita por um cara de classe média de pele clara, será que ia ser considerada banditismo? E se o videoclipe fosse com pessoas da mesma característica? O critério tem uma dose grande de preconceito. Hoje eu percebo que deu uma diminuída comigo por eu ser uma pessoa famosa. No Brasil tem um racismo velado, a pessoa se torna incolor, mas sei que pros meus semelhantes que não têm a mesma fama que eu a história continua parecida.
“A música do Brasil tem a mesma diversidade da raça brasileira. Se cada grupo de cada região misturar o rap com essas músicas regionais, teremos uma diversidade imensa. Engana-se muito quem acha que o rap legítimo do Brasil vai ser o rap com samba. [Por exemplo,] tem um grupo no Rio Grande do Sul chamado Rafuagi que mistura rap com musica gaudéria. Outro de que eu gosto muito pela originalidade é o Rapadura, desde o nome até as batidas cheias de referências nordestinas.”
No disco "Declaração de Guerra" você apresentou uma música mais trabalhada, com arranjos de orquestra, naipe de metais, percussão e muitas referências à música brasileira. Já era uma manifestação da intenção de fazer um rap mais grandioso, que fugisse do lugar-comum?
As músicas do "Traficando Informação" são músicas da minha vida inteira até aquele momento. Eu gravei em 99, mas tinha versos de 89/90. Escrevendo em cima de base americana. Era a estrutura que a gente tinha pra começar. Hoje fico muito feliz de ver a molecada começando com base própria, uns arranjos bem feitos, algumas até melhores que as gringas. É o processo de evolução mesmo, e eu ia ficar triste se não estivesse assim. Mas no nosso período era tudo muito limitado. No "Declaração de Guerra" tive mais liberdade e condições de grana pra trazer músicos pra tocar, já conhecia outros produtores, não tive medo de ousar e misturar. Uma das grandes sacadas desse disco foi ter incorporado a música erudita através do violino, que veio de uma sessão do filme O Último Imperador. No momento em que entraram as cordas, um arranjo de um maestro chamado Sakamoto, eu comentei com o Luciano (produtor). Ele me mandou o beat com o sampler e sugeriu uma orquestra pra acompanhar.
“Hoje fico muito feliz de ver a molecada começando com base própria, uns arranjos bem feitos, algumas até melhores que as gringas. É o processo de evolução mesmo, e eu ia ficar triste se não estivesse assim.”
Hoje o rap já é uma música conhecida no Brasil, em comparação com as décadas passadas. Mesmo com os altos e baixos, já temos prêmios dedicados ao hip-hop, nomes na grande mídia, diversas promessas. Como você vê essa evolução e o que tem a dizer sobre o futuro do rap no Brasil?
Talvez tenhamos passado por um momento não tão promissor pro hip-hop nacional. Por falta de espaço. Às vezes também por falta de maturidade do próprio movimento. O rap achou que era um movimento independente, esqueceu os outros elementos. Teve momento em que os DJs só tocavam música gringa. Muitos dançarinos de break foram dançar em grupos de axé, de funk. Os grafiteiros começaram a frequentar galerias de arte, fazer desenhos comerciais pra marcas, lojas. Cada um foi pra um lado. Acho que esse momento já tá ficando pra trás. Serviu pra uma reciclagem do próprio movimento. Muita gente parou pra rever seus conceitos. O Brasil mudou, as periferias se modificaram. O governo Lula, com todos os seus defeitos, trouxe mudança e transformação pra periferia, e a nossa abordagem tem que ser outra. Muitos daqueles moleques que não tinham o que comer hoje estão com telefone que tem câmera, sacou? Então a linguagem tem que ser outra. Quem tá antenado nisso continua se comunicando com a molecada de dentro e de fora da favela. Estamos em um momento de renovação, com muitos trabalhos de qualidade, mas esses grupos ainda não têm visibilidade nacional.
O rap brasileiro sempre teve uma identidade meio americanizada, principalmente na produção musical. Você acha que isso está mudando?
Acho que sim. Eu nem culpo as pessoas no passado, até porque fiz parte disso também. Foi um momento. Só viveu isso quem começou muito tempo atrás. Melhor do que ficar pensando no que poderia ter sido feito no passado é pensar no que a gente tá fazendo agora e no que ainda vai ser feito daqui pra frente. A música do Brasil tem a mesma diversidade da raça brasileira. Se cada grupo de cada região misturar o rap com essas músicas regionais, teremos uma diversidade imensa no rap brasileiro. Engana-se muito quem acha que o rap legítimo do Brasil vai ser o rap com samba. Até porque o samba tem várias ramificações. Tem um grupo no Rio Grande do Sul chamado Rafuagi que mistura rap com musica gaudéria. Outro de que eu gosto muito pela originalidade é o Rapadura, desde o nome até as batidas cheias de referências nordestinas. No Rio tem o Romeu R3, o Ramonzin, que estão fazendo musica de gente grande, só que ainda não têm disco, nem gravadora.
“Quando veio a oportunidade de ficar trinta minutos no ar (no 'Domingão do Faustão'), pra falar de tudo que eu estava desenvolvendo, vi que essa era a chance. Por mais que tenhamos discordância com a TV, a periferia tá vendo. Se você conseguir inserir alguma coisa que faça a população pensar dentro de uma programação que é ruim, pra mim tá muito válido. É utilizar o que a gente critica a nosso favor.”
Lembro da primeira vez que você apareceu no Faustão. Foi um fato inédito e causou uma certa apreensão no movimento. Afinal, o rap nacional sempre teve um discurso anti-Globo, e a sua participação ia contra tudo isso. Como foi essa decisão?
A minha decisão aconteceu antes, quando eu comecei a ir pra São Paulo interagir com os grupos e percebi que tinha que tomar um rumo diferente. Muitos grupos recusavam a mídia sem um mínimo de convicção do motivo por que não iriam pra TV. As explicações não convenciam. Eu entendo que pro Racionais é uma bandeira, mas só deu certo com eles. Eu sou do Rio de Janeiro, natural de uma comunidade que não tem cultura de hip-hop. Posso manter meu senso crítico e fazer o que quiser, e ali posso amplificar minha voz e meu discurso. E eu tenho o que dizer. Não vou me calar diante de uma ideologia que não é a minha. Ele já tinha me chamado pra ir antes, mas eu não aceitei, porque era pra chegar lá e cantar uma música que não tocava no rádio. Dificilmente as pessoas assimilariam aquilo sem ouvir novamente. Mas quando veio a oportunidade de ficar trinta minutos no ar, sem corte, sem intervalo, e não só pra tocar, mas pra falar de tudo que eu estava desenvolvendo, vi que essa era a chance, a minha forma de colocar o Brasil pra pensar. Ficamos 45 minutos no ar. Por mais que tenhamos discordância com a TV, a periferia tá vendo. A população brasileira não almoça nem janta sem a TV ligada, é quase como mais um elemento da família. Se você conseguir inserir alguma coisa que faça a população pensar dentro de uma programação que é ruim, pra mim tá muito válido. É utilizar o que a gente critica a nosso favor.
Você acha que essa atitude de se isolar da mídia acabou isolando o rap também?
Eu concordo com os que não querem ir. Principalmente com quem não tem o que dizer, porque já tivemos algumas situações desastrosas de alguém querer falar na televisão sem ter se preparado. Nunca vi a mídia como inimiga, sempre achei que poderia utilizar parte dela a meu favor, a favor do coletivo. A minha atitude de não aceitar fazer entrevistas fora da Cidade de Deus é pra mostrar coisas positivas dentro da comunidade. São formas inteligentes de utilizar a mídia a favor do próprio movimento. Mas quem não tem o que dizer pode continuar calado.
“Agora mesmo eu estava numa escola americana de milionário aqui em São Paulo, onde os próprios alunos pediram à direção pra me convidar pra um bate-papo. Se eu tivesse aquela cabeça preconceituosa não ia. Mas é aí que tá. Lá tá o moleque que é filho dos donos de empresas milionárias e que vão herdar isso no futuro. Se forem herdeiros com mais consciência social, mais consciência da relação racial, das diferenças do Brasil, serão gestores mais humanos.”
Você fez bastante barulho com a série "Falcão" (que engloba livro, documentário e disco). Conseguiu usar metade do "Fantástico" para a exibição do documentário e isso gerou muitos debates sobre o assunto. Que balanço você faz desse trabalho?
Só vejo aspectos positivos. A gente ajudou a colocar na pauta das discussões importantes com um outro olhar, um outro foco. Toda vez que se falava desse jovem do tráfico, ele estava algemado, de cabeça baixa, era sempre alguém falando por ele. Por conta da nossa proximidade e da nossa história, conseguimos fazer esse jovem falar. E nas falas deles percebe-se nitidamente que o que precisa não é de mais policiamento ostensivo, e sim de mais investimento social. Muitos moleques daqueles que estavam dando entrevista não conheciam o pai, vinham de família desestruturada, tinham pouca perspectiva, e a gente acha que foi super positivo ver as pessoas discutindo aquela realidade. Mas o Brasil tem um histórico de comoção momentânea, com o passar do tempo aquilo cai no esquecimento. Por isso eu venho caindo dentro desde 2006, rodando o Brasil de ponta a ponta com todo tipo de gente discutindo essa realidade. Agora mesmo eu estava numa escola americana de milionário aqui em São Paulo, onde os próprios alunos pediram à direção pra me convidar pra um bate-papo. Se eu tivesse aquela cabeça preconceituosa não ia. Mas é aí que tá. Lá tá o moleque que é filho dos donos de empresas milionárias e que vão herdar isso no futuro. Se forem herdeiros com mais consciência social, mais consciência da relação racial, das diferenças do Brasil, serão gestores mais humanos.
O seu novo trabalho, "Causa e Efeito", está com distribuíção própria, em um esquema independente. Da forma como estão as coisas na indústria fonográfica, você acha que esse caminho é o ideal?
Pra mim tem sido. Colocamos mais de dez mil cópias do CD na rua. Em um período de muita pirataria, downloads, isso é um número muito bom. Além disso, tenho um controle de onde está chegando, tenho vendido muito nos shows. Fiz um preço promocional pra combater não a pirataria, mas os preços abusivos das gravadoras, que colocam o seu trabalho a 25/30 reais. Isso só ajuda a fomentar a pirataria. Quando descobri que pra fazer o meu CD na fábrica custaria menos de R$ 2,50, fiquei puto com as gravadoras, mandei todo mundo se foder em pensamento e resolvi vender eu mesmo a 5 reais. Acho que, se todos os artistas colocassem os CDs a 5 reais, ia dar uma aquecida no mercado fonográfico no Brasil e seríamos pioneiros no mundo.
E essa história de atuar, como começou? Você se imaginava atuando em "Malhação" dez anos atrás?
Antes de "Malhação", eu já atuava nos meus videoclipes e fazia uns exercícios na companhia de teatro da CUFA, a Tumulto. Do nada, recebi um convite da Sandra Werneck pra participar do filme "Sonhos Roubados", que foi uma experiência muito legal. E então veio o convite pra uma reunião com os diretores e o autor da "Malhação". De primeira eu achei que eles estavam convidando a pessoa errada. Até porque eu tenho uma metralhadora verbal que várias vezes estava apontada pra "Malhação", por ser um programa que fala direto com a juventude, porém não dá representatividade a toda diversidade que tem no Brasil. Então eles vieram com um papo de revisão dos conceitos da novela, fazer algo mais real, que toque na questão social e racial, mas eles não tinham credibilidade pra isso e acharam que eu poderia trazer essa credibilidade. Fiquei feliz quando ouvi isso. Que tinha credibilidade pra alguma coisa (risos). Eles me apresentaram uma série de coisas e eu comecei a pensar que aquilo poderia ser bom pra mim, pra minha carreira, e também pro coletivo, pra discussão. É uma serie que tá tocando em assuntos como gravidez precoce, uso de preservativos, falando sobre paternidade, relações inter-raciais, de classes sociais diferentes O meu personagem agora vai ser avô, e o epicentro da discussão é essa criança, preta, afro-descendente, que na maioria das vezes seria motivo de rejeição, as famílias estão brigando pra ver quem vai ficar com ela. Um programa como "Malhação", de meia hora diária, não vai mudar o histórico de distanciamento entre a mídia e a população afro-descendente, mas acho que pode ser o início de alguma mudança.
“Eu avaliaria [o governo Lula] como um governo que foi bom, que ajudou de fato a transformar o Brasil. Na gestão da Dilma espero que tenha continuidade nas coisas que estão sendo feitas e tenho grandes expectativas de que novas coisas surjam também. Estou na torcida pra que dê certo. Já deu pra perceber que ela é uma ótima executiva, agora precisamos ver se ela será uma boa presidenta. Torço pra que sim.”
Bem, vamos mudar um pouco de pauta. O que você achou do governo Lula nesses oito anos, e o que espera da Dilma nos próximos quatro anos?
A gestão do Lula modificou o Brasil. Muitas coisas se tornaram possíveis através do governo dele, mas também teve coisas que eu não esperava, corrupção, lentidão em alguns setores. Ainda espero mais investimento na educação, pois ela tem que ser a bandeira de um governo que quer ver uma transformação plena no país. Mas eu avaliaria como um governo que foi bom, que ajudou de fato a transformar o Brasil, deu um passo muito importante. Na gestão da Dilma espero que tenha continuidade nas coisas que estão sendo feitas e tenho grandes expectativas de que novas coisas surjam também. Estou na torcida pra que dê certo. Já deu pra perceber que ela é uma ótima executiva, agora precisamos ver se ela será uma boa presidenta. Torço pra que sim.
A carreira política é algo que te atrai para as próximas décadas?
Hoje eu te diria que não tá na minha planilha. Nem sei se é uma bandeira futura. Como sou muito politizado, conheço muito do assunto, gosto de ler sobre, me envolvo, debato, talvez seja um caminho inevitável por conta desse envolvimento. Mas hoje não vejo como um caminho.
Como anda a situação no Rio de Janeiro, com toda essa política de combate ao tráfico com a pacificação policial? O que você tem achado das UPPs?
A gente não pode deixar que as UPPs se transformem na única representação do Estado dentro da favela. Tem muitos outros problemas que não são de ordem policial. Então precisa de uma ocupação nas favelas que não seja somente relacionada à área de segurança. Por exemplo, o que aconteceu no Alemão? Teve a ocupação, mas agora estou ansioso pra ver qual é a próxima operação. Espero que seja na mesma proporção da policial. Uma operação social. E que não cheguem lá com a receita do bolo pronto. Tem que consultar a comunidade, aproveitando as lideranças locais, as ONGs que já estão trabalhando lá dentro de forma séria. Devolver a comunidade pra comunidade. Não deixar fazer politicagem lá dentro. Espero que haja o mesmo investimento pesado que tem na área de segurança, com tanques de guerra gigantes, na área social.
“O que aconteceu no Alemão? Teve a ocupação, mas agora estou ansioso pra ver qual é a próxima operação. Espero que seja na mesma proporção da policial. Uma operação social. E que não cheguem lá com a receita do bolo pronto. Tem que consultar a comunidade, aproveitando as lideranças locais, as ONGs que já estão trabalhando lá dentro de forma séria. Devolver a comunidade pra comunidade.”
As UPPs estão “limpando” as favelas das facções, mas não se vê uma política de reintegração desses soldados à sociedade. O que você acha que deveria ser feito em relação a isso?
Tem gente que acha um absurdo, mas eu faço parte de um grupo de pessoas que pensam que deveria ter uma oportunidade pra quem quer largar o crime, principalmente porque a gente não tem cadeia que ressocialize ninguém. O nosso sistema penal é completamente falido, as pessoas saem muito pior do que entraram. Se tivessem chances de verdadeiramente se ressocializar, muitos sairiam. Se não existe essa chance de mudança, de busca por um direcionamento positivo, é como se houvesse uma obrigação de continuar na marginalidade. E, como essas operações não têm prendido muitas pessoas, elas estão migrando pra outros lugares.
Talvez você seja mais conhecido pela militância do que pela música em si. Qual o balanço que você faz em relação a tudo isso e, principalmente, em relação à CUFA?
Sou muito orgulhoso de ser conhecido por feitos, por realizações. É lógico que, como músico, quero mostrar minha música também, mas isso não chega a ser uma frustração. Sou muito grato à CUFA, porque foi onde tive a oportunidade de colocar em prática aquilo tudo que eu tinha na teoria, na música, no discurso. A CUFA me ajudou a fazer tudo isso virar realidade.
Além da carreira de ator, está com algum projeto novo?
Tô fazendo músicas com a minha irmã, músicas soltas, que o momento atual permite, que de repente posso soltar na internet ou lançar num EP com menos faixas. Estamos interagindo com alguns DJs da cena, com versões diferentes das músicas nas pistas. Tô com um projeto de livro novo com o Celso Athayde, o "CDD – Anos 80", que traça um paralelo entre a minha infância e adolescência até a transformação que a CDD vem recebendo desde a chegada das Falanges, dos armamentos mais pesados, até os dias de hoje, com a pacificação da UPP.
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