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Fri: 03-18-11

Obras Primas . Blue Music (Otis Redding x Jay-Z)

Por Pedro Pinhel

Verdadeiros mestres em seus respectivos gêneros, Otis Redding e Jay-Z são donos de discografias capazes de fazer inveja à de qualquer lenda da música, de qualquer época, desde os remotos tempos dos gramofones. Ambos souberam, como poucos, inserir fragmentos das próprias almas em seus trabalhos. "The Blueprint" – cuja tradução é “a impressão digital” – representa o auge da criação do rapper de NYC, e é sem dúvida o mais pessoal de seus discos. "Otis Blue: Otis Redding Sings Soul" também é – discutivelmente – o principal LP da carreira do formidável Otis Redding. O “blue”aqui simboliza certa tristeza, a tal melancolia que assola gênios em seus ofícios e propicia a criação de obras-primas como esta pérola da soul music. Jay-Z e Otis Redding fazem uso de suas experiências pessoais, suas influências diretas (Jay-Z reverenciando o legendário Notorious B.I.G., e Otis homenageando o mitológico Sam Cooke) e do poder de síntese de cada um para contar suas respectivas histórias. Os resultados são autênticos e cativantes, em agressivos, marcantes e irreversíveis tons de azul.



Otis Redding – Otis Soul: Otis Redding Sings Soul (Stax, 1965)


Gravado no distante ano de 1965, "Otis Soul: Otis Redding Sings Soul" é a obra-prima da carreira de um dos maiores fenômenos da musica soul de todos os tempos. O terceiro álbum de estúdio de Otis Redding é também seu trabalho mais autoral: quase um quarto do álbum é dedicado a versões de clássicos do prolífico Sam Cooke – assumidamente a maior influência de OR. Confira, por exemplo, a belíssima “A Change Is Gonna Come” e tire suas próprias conclusões. Sua versão para a clássica “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones, originalmente composta por Mick Jagger e Keith Richards como um tributo ao próprio Otis, é um dos momentos sublimes do LP. Outra faixa que também ganha vida própria na voz de Otis é a bonita “My Girl”, dos Temptations. A versão original de “Respect”, famosa na voz de Aretha Franklin, é cria do mestre, mas o grande destaque do disco fica por conta da lindíssima “I’ve Been Loving You Too Long”, uma das mais tristes canções do gênero desde seu surgimento. Triste como o destino de Otis Redding, que morreria pouco tempo depois, num trágico acidente aéreo que tirou ainda as vidas dos músicos da formação original dos Bar-Kays, sua banda de apoio. Um fim prematuro e melancólico para um dos maiores fenômenos da musica soul, um artista cujo legado influencia artistas de diversos gêneros há mais de quatro décadas. Otis Blue!

Jay-Z – The Blueprint (Roc-A-Fella, 2001)


Trinta e seis anos após o lançamento de "Otis Soul: Otis Redding Sings Soul", outro fenômeno da música pop apresentava suas cartas ao mundo. O segundo LP do rapper Jay-Z evidenciou que o hip-hop de Nova York (e norte-americano) tinha um novo rei, e o trono de Notorious B.I.G. seria finalmente ocupado por um hustler à sua altura. Cinco anos após a ótima estreia com o hoje clássico "Reasonable Doubt", o discurso antes pretensioso do rapper parecia enfim começar a fazer sentido. As produções então inovadoras e explosivas dos jovens Kanye West e Just Blaze foram fundamentais para que discurso e música se completassem, e a ausência das chatas participações especiais que costumam inflar discos de rap possibilitou a concepção de um disco completamente autoral, no qual Jay-Z discorre sobre seus temas preferidos: a juventude nos projects do Brooklyn, os tempos de trafica, a superioridade no mic, o talento para a pegação, relacionamentos passados e o gosto por hábitos sofisticados. O LP é uma espécie de raio-X da personalidade do HOV, e algumas das faixas do disco – o mais soul, sem dúvida, da discografia de Jay-Z – são clássicos instantâneos: “Izzo (H.O.V.A.)”, com o hipnótico sample dos Jackson 5, “Girls, Girls, Girls”, incorporando o folclórico bragadoccio do MC quando o assunto são as menininhas; “Heart of The City”, que conta com os vocais de Mary J. Blige no refrão, e a preferida do autor destas linhas, a grudenta “Song Cry”, em que Jay associa os tempos de novo rico a uma possível incompatibilidade amorosa com a gata das antigas – pô, quem aí nunca ficou milionário e teve crises com a ex em função disso logo depois? "The Blueprint" retratou a persona do rapper de forma nua e crua, e os frutos são colhidos até os dias atuais – Jay-Z hoje é unanimidade quando o assunto é hip-hop, pincelando criativos tons de azul em um gênero que tem se acinzentado a cada ano que passa.