Da mesma forma como Chuck D. encarna o rapper politizado no cenário estadunidense, por aqui quem carrega tal carga simbólica é GOG. Com uma sólida carreira construída ao longo de duas décadas à margem da grande indústria do entretenimento, o MC de Brasília certamente foi um horizonte no início da carreira de rappers como MV Bill. O maior mérito de seu livro "A Rima Denuncia" é mostrar através de 48 letras o poder de intervenção de suas rimas bem informadas que, dispostas em ordem cronológica, de certa forma contam a história de parcela basilar do rap brasileiro, inclusive definindo boa parte da “gramática” do gênero.
Outro ponto a favor foi a forma como o poeta, professor e ativista Nelson Maca transcreveu as letras do MC para o livro, mimetizando procedimentos da poesia escrita e redimensionando assim a obra do MC. O “negro drama” social da lírica de GOG é exposto de forma racional, informando e convocando com frequência o ouvinte à mobilização, criando uma estética muito particular para seu trabalho de agitação e propaganda. Se comumente trabalhos agitprop são acusados de terem pouca vigência estética, GOG guarda um ou dois trunfos na manga que o colocam em alta conta, como na hoje histórica música “Brasil Com P”, em que o MC praticamente recria a história brasileira pela voz dos vencidos – tal qual um "Veias Abertas da América Latina", de Eduardo Galeano – somente com vocábulos iniciados com a letra P. Em um contexto de poucas obras que dão conta do rap nacional, este livro em primeira pessoa por um de seus protagonistas é essencial.
Por Velot Wamba