Satanique Samba Trio: a fronteira final e inexplorada da música brasileira, criando o melhor da música de invenção desde 2002. Não conhece os álbuns "Misantropicália" e "Sangrou"? Ok, "Bad Trip Simulator #2" é o ponto ideal para conhecer o trabalho do SS3 (como é conhecido pelos iniciados), já que é o melhor e mais bem acabado trabalho do grupo de Brasília. Partindo de premissas eruditas de compositores como Anton Webern, o baixista Munha (compositor, arranjador e um dos mais subvalorizados inventores brasileiros) vira do avesso o samba, incorporando dissonância, distorção e ritmos compostos. Alguém pode se lembrar de Tom Zé e seu "Dança Êh Sá" de alguns anos atrás: pois o SS3 trabalhou com ambições muito semelhantes antes dele e com melhores resultados.
A música do SS3 é convictamente desconfortável, hermética, um universo em si mesmo. Temas curtos, com andamentos diversos e rápidos, dão lampejos de balanço e melodia, elementos caros ao samba, para depois miná-los um a um, criando uma atmosfera em que não há alívio para o ouvinte em nenhum momento, colocando a contemplação passiva como um norte inviável. Nada na música do quinteto (apesar do Trio do nome) lembra convenção: o grupo coloca em suspenso um momento da música e possibilita uma estética que dialoga ativamente com o passado e não encontra pares no presente. É de se aguardar que algum estrangeiro mais ousado, tal qual David Byrne em relação a Tom Zé, descubra o grupo e dê o reconhecimento a um trabalho tão vibrante quanto o do SS3, para que ele enfim conquiste alguma audiência local.
Por Velot Wamba