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Tue: 02-01-11

+Entrevista: Caribou, por Amauri Stamboroski Jr.

(Entrevista publicada na +Soma 21 Dez-Jan 2011. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)       

Caribou

Matemática Aplicada à Dança

 Por Amauri Stamboroski Jr.

Indo do krautrock ao pop psicodélico e à dance music em uma carreira de dez anos, o canadense Dan Snaith não parece perder muito tempo se entediando, apesar da aparência nerd (legitimada por um PhD em Matemática). Sob a alcunha de Caribou - ex-Manitoba, nome abandonado após uma ameaça de processo do vocalista da banda punk Dictators -, o músico se apresentou em São Paulo em outubro, no festival FourFest, acompanhado de sua banda. No palco, duas baterias, guitarras, baixo, sintetizadores e um sem-número de fios ligando tudo a um computador que disparava os samples do novo álbum do artista, Swim, lançado em 2010. Ao contrário do psicodélico Andorra, de 2007, o novo disco é voltado para as pistas de dança e, segundo Snaith, está sendo tocado até em Ibiza.

Você compõe e grava seus discos como um artista solo, mas se apresenta com uma banda.

Eu nunca penso em como o disco vai soar ao vivo - não quero que a ideia de um show limite as possibilidades do que pode aparecer no álbum. Temos bastante controle sobre o nosso som no palco, usamos vários objetos diferentes para disparar os samples das camadas mais eletrônicas enquanto tocamos, mas ainda é algo espontâneo. Não estamos tocando com uma trilha de fundo, a música sempre fica diferente, podemos adicionar as texturas na hora em que quisermos.

Quando você lança um disco novo, tem que ensaiar muito para fazer ele soar bem ao vivo? Como é o processo de traduzir a música de um álbum para um show?

Todos os membros da banda participam nessa hora. Eu envio para eles por e-mail os arquivos abertos das músicas, com as faixas de gravação separadas. Cada um sugere o que quer tocar e nós aprendemos as nossas partes antes de começar a ensaiar. Para tocar o Swim, nos reunimos por três semanas, ensaiando todo dia, para tentar fazer as coisas de jeitos diferentes, para ver o que funcionava melhor. Desde que começamos a turnê, as músicas evoluíram e já estão tomando rumos diferentes. Estamos sempre evoluindo.

Cada um de seus álbuns parece focado em um estilo específico - krautrock em The Milk of Human Kindness (2005), psicodelia anos 60 em Andorra (2007) e agora dance music em Swim. Como você decide o que vai fazer em seguida?

Eu nunca penso especificamente nisso, nem tento fazer as faixas ficarem parecidas, não tenho um conceito. Cada disco documenta um ano da minha vida, e as coisas que me atraem mais ao longo daquele período acabam entrando no álbum.

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E o que te inspirou em Swim?

Eu queria fazer um disco diferente de Andorra, daquele pop psicodélico. Tinha a ideia de fazer uma música fluida, dinâmica, em que tudo se comportasse como uma onda. Outra coisa que me influenciou foi ir a clubes, ver gente como [o DJ de Detroit] Theo Parrish discotecando em Londres, ouvir músicas realmente estranhas, mas ao mesmo tempo animadas e dançantes. É um ambiente para o qual eu nunca compus nada, e é muito excitante imaginar as pessoas indo para um lugar ouvir as suas faixas em um equipamento que custa US$ 1 milhão. É incrível pensar que ainda existe isso numa era em que as pessoas costumam ouvir música nos falantes de seus laptops. É o último refúgio dos audiófilos, e um espaço para o qual vale fazer música ambiciosa.

Como tem sido a recepção do disco nas pistas?

Eu pensava que o álbum ficaria preso entre dois mundos - quem gostou de Andorra não curtiria, e as pessoas que gostam de dance music nunca ouviriam, afinal não foi lançado pelo [selo alemão de eletrônica] Kompakt. Mas estou impressionado, as pessoas vêm me contar que ouviram as músicas tocando em Ibiza (risos). Vamos lançar um disco de remixes com vários produtores de eletrônica agora, e eles estão adorando.

Quem participou desse projeto?

Tem gente como James Holden, Gold Panda, Motor City Drum Ensemble, Junior Boys, Fuck Buttons, Ikonika, Nite Jewel, Walls. É uma lista louca, e ela aconteceu porque eu estava muito animado com a ideia de colaborar. Toda vez que ouvia um disco de que gostava, mandava um e-mail para o artista. Foi quase uma desculpa para poder ter contato com esse pessoal.

Quando você começou a carreira, ainda com o nome de Manitoba, recebeu dos críticos o rótulo de IDM (Intelligent Dance Music), mas em Swim você criou algo que se relaciona com a dance music tradicional. O ato de dançar inspirou o que você queria fazer nesse disco?

Com certeza, sim. Sempre tive interesse em música de transe, de diferentes maneiras: krautrock, compositores minimalistas do século XX, free jazz, John Coltrane. Andorra é uma exceção - tudo é conciso, todas as faixas são canções. Gosto do processo de repetição, que te coloca em uma espécie de transe. E não tem maneira melhor de atingir isso do que dançar em um clube, onde está tudo escuro. O que eu gosto na dance music é que os elementos rítmicos funcionam como um trem carregando a música, e você coloca todo o resto em cima dele. Você pode brincar com isso e criar um monte de sons estranhos em torno do ritmo.

Quando você começou a ouvir dance music? É algo mais recente ou você ouvia quando era adolescente?

Comecei a descobrir a música eletrônica com artistas como os Chemical Brothers, nos anos 90. Na época eu ouvia bandas como Yes e Genesis, e foi algo que mudou meu mundo completamente. Ao longo dos anos, passei a ouvir mais ou menos, dependendo da época, mas os últimos dois anos foram ótimos para a dance music.

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Quais são os melhores discos de dance dos últimos anos?

Nunca são álbuns, especialmente no caso da dance music. Tem duas faixas, acho que são de 2009 ou 2008, do Theo Parrish, "Love Triumphant" e "Going Downstairs", que são bons exemplos de dance music muito estranha. Ao mesmo tempo, descobri artistas como Charanjit Singh, um produtor indiano. Ele tem um disco de 1982, Ten Ragas To a Disco Beat, que soa como Derrick May, é algo que antecipa todo o tecno de Detroit. Tudo foi composto em TR 808 ou TB 303 (sequenciadores clássicos da Roland). É fenomenal. Estamos também em uma boa época para redescobrir essas coisas perdidas, que estão sendo relançadas agora.

Você falou sobre música de transe, free jazz, krautrock, mas como fez para mudar disso para o pop psicodélico em Andorra?

 Foi um desafio, aprender a realmente compor música. Quando você trabalha com músicas baseadas em loops, você improvisa, segue o fluxo, mas em Andorra eu precisava sentar e pensar em toda a música de uma vez só, algo em que todas as partes se encaixassem. Foi um processo difícil para mim. Mas eu amo muito esse tipo de música, exemplos óbvios como os Beach Boys, os Zombies, compositores maravilhosos. E acho que alguns desses elementos mais pop ainda estão presentes em Swim.

Você foi obrigado a trocar de nome artístico após uma ameaça de processo por parte do Handsome Dick Manitoba. O que levou você a escolher Caribou?

 Nós estávamos em turnê, e foi um momento meio frustrante. Estávamos no meio do Canadá e tínhamos um dia de folga. Sentamos no campo chapados de ácido para pensar em um novo nome para mim. Aí veio um urso falante e me disse que o nome seria Caribou (uma espécie de rena canadense). Foi o que aconteceu. Mas eu adorei. Porque Manitoba era um nome bem canadense, de uma província, então não foi uma mudança tão drástica para mim. Eu queria manter um nome canadense.

Em uma entrevista você falou sobre seu trabalho como matemático, e disse que não poderia explicar a sua tese de PhD para alguém que não é da área, mas que ao mesmo tempo tem uma abordagem intuitiva em relação ao tema. O mundo da matemática e o da música são tão distantes, afinal?

Eu não sou um dos grandes matemáticos vivos, mas não seria estranho dizer que muitos de nós temos uma abordagem intuitiva. Muitas vezes você vê um conceito, mas tem que explicá-lo, saber se ele funciona de verdade. E aí você começa a mexer com os números, começa a "sujar as mãos", como dizemos. Com a música, para mim, não é tão diferente - você pega os instrumentos, começa a brincar com eles, vê aonde podem te levar e se a sua "tese" vai funcionar ou não.

 

Saiba mais:

 myspace.com/cariboumanitoba