Uma coisa legal dos festivais independentes no Brasil hoje em dia é que vários deles não se resumem a 3 dias de festa (o que por si só não seria ruim, evidentemente). O Coquetel Molotov/Conexão Vivo é um belo exemplo disso: antes do início oficial do festival (que acontece logo mais às 17h), uma série de atividades prévias movimentou não só Recife, mas a vizinha Olinda e até Salvador, que este ano recebe sua versão do evento.
Na manhã da quinta 23, por exemplo, vários debates, com temas variados, aconteceram em pontos diferentes de Recife e Olinda. Em um deles, no Memorial Chico Science, o principal convidado foi o artista Stephan Doitschinoff, que ainda pinta um mural na tarde de hoje. Em outro, eu, Alex Antunes, Tiago Agostini (Scream & Yell) e Marcelo Dalmaso (Se Rasgum/Belém) levamos um papo sobre música na internet (que, como era de se esperar, expandiu para música em geral) com uma plateia interessada e esperta, formada por universitários da AESO. Conversa ligeiramente disfuncional (eu estava há mais de 24 horas sem dormir), mas com bons momentos.
Pátio Sonoro
À noite, o Coquetel encerrou sua curadoria convidada no Pátio Sonoro, evento semanal que acontece no belo Pátio de São Pedro, no centro histórico da cidade. No palco montado em frente à igreja de São Pedro, cercado por casarões antigos muito bem conservados (e hoje estrategicamente tomados por bares), um bom público viu os shows dos pernambucanos Semente de Vulcão e dos paulistas FireFriend e Guizado. Quando chegamos, o FireFriend já estava tocando. Sem pudores em fazer um som 100% calcado em um indie rock da linhagem Velvet Underground, à moda de um um Yo La Tengo ou de um Sonic Youth (impressão amplificada pela incrível semelhança entre a baixista Julia Grassetti e Kim Gordon), o FireFriend tem músicas inegavelmente convincentes, no qual chamam atenção principalmente as camadas de guitarra trabalhadas com esmero. Nada novo, mas uma remissão honesta, bem composta e executada a uma das vertentes mais amadas do punk.
Já o Guizado... É difícil não se admirar ao ver como a banda tem sido bem sucedida em sua intersecção peculiar entre vanguardas dissonantes e música pop. Especialmente em músicas como “Amplidão” e “Mais Além”, do disco “Calavera”, o quarteto comandado por Gui Mendonça transita por um espectro tão amplo quanto espinhoso, que tem momentos de atonalismo, de free jazz, de guitarras indie e de refrões pra cantar junto – coisa que vários presentes fizeram. A dinâmica do grupo – que, com todo respeito a Curumin, funciona melhor com Richard Ribeiro na bateria – ora remete à de um grupo de rock, ora a de um ensemble de jazz, por grande mérito dos experientes Régis Damasceno e Rian Batista. E o público respondeu à altura, cantando várias músicas, dançando o tempo todo e pedindo bis várias vezes (“exigindo” talvez seja o termo mais exato). Fora isso, existe ainda um ponto de validação essencial em shows ao ar livre: a aceitação dos moradores de rua. E eles estavam lá, na frente do palco, fazendo seu show à parte e aplaudindo o tempo todo. Música com função social é isso aí.
Hoje o festival começa oficialmente, com shows de Otto, Miike Snow e Soko (França), entre outros.
Texto e fotos por Mateus Potumati, que viajou a Recife a convite do Coquetel Molotov/Conexão Vivo.