(Obras Primas publicada na +Soma 18/Jul-Ago 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Obras Primas
Por Pedro Pinhel
“Hell” versus “Back From Hell”
Dois LPs para incendiar qualquer sistema de som, “Hell” e “Back From Hell” têm muito mais em comum do que apenas os nomes. Ambos representam os últimos lampejos de genialidade – e não de criatividade, compreenda – de James Brown e Run-DMC. Se em 1974 James Brown ainda punha fogo em espetaculares jam sessions com os J.B.’s e gravava uma média de dois discos por ano (!), encontrando tempo e disposição para se apresentar do Apollo Theater ao Zaire, o trio do Run-DMC mostrava que ainda tinha muita lenha pra queimar em 1990; ao contrário do famoso crossover rock versus rap que os projetou e perdeu espaço após o clássico “Raising Hell” (1986), os MCs Run e DMC e o DJ Jam Master Jay (RIP) pareciam ter recuperado o fôlego numa insinuante mistura de new jack swing e do hardcore/gangsta hip-hop produzido na virada da década. Hell yeah!
James Brown . “Hell” (Polydor, 1974)
Muito pode se debater quando o assunto é ao bra do mestre James Brown, e dizer que “Hell” é o último lampejo de genialidade do Godfather poderá causar a ira de centenas de equipes de som e puristas de todo o planeta Terra e região, mas o fato é que a produção de JB perdeu muita consistência após 74 – ano que marcou ainda o lançamento do ótimo “Reality”. Concebido como um álbum duplo, o disco é visto por muitos como o auge do período mais criativo da carreira do Ministro do Super Heavy Funk. Cada faixa aqui começa com o soar de um gongo, ao melhor estilo kung-fu, e o carro-chefe de “Hell” é a sampleadíssima “Papa Don’t Take No Mess”, uma pérola do jazz-funk que vale cada um de seus treze minutos de execução.
As belíssimas “These Foolish Things”, “A Man Has To Go Back To The Crossroards” e “Sometime” fazem parte do catálogo das melhores baladas de James Brown – um hábito muito comum à época, em que um dos lados do LP era inteiramente composto por canções ao melhor estilo mela-cueca. “Hell” é também um microcosmo de tudo o que se tentou produzir nos EUA, e em todo o mundo, em termos de música funk de altíssima qualidade, definindo o padrão de produção do gênero a partir de então. O legado da fase áurea da produção funk de James Brown é incomparável na história da música contemporânea. Após um período de produções menos impactantes durante a segunda metade da década de 70, muito em função da chegada da disco music e da substituição gradual de bandas como The J.B.’s por sintetizadores e drum machines, The Hardest Working Man In Showbiz iria ainda ressurgir do inferno na metade da década seguinte com o clássico “Living In America”, mas aí nós descambaríamos para Rocky IV e você perderia o fio da meada.
Run DMC . “Back From Hell” (Arista, 1990)
Dizer que “Back From Hell” é o ultimo grande disco do trio de rap mais folclórico da velha guarda também poderá ofender o pessoal que representa e afirma por aí que a rua é nóis, já que seu sucessor, “Down With The King”, de 93, também teve considerável sucesso comercial. Mas o fato é que a levada new jack/bounce de “Back From Hell” é conceitualmente mais interessante e envolvente do que a tentativa de réplica da atitude e a da música gangsta que marcaram “Down With The King”. O estilo que dominava o gênero no início da década de 90 tinha no quinteto NWA seu maior expoente e, embora o Run-DMC tivesse feito muito bem a lição de casa, o disco não passava de uma cópia sem criatividade, apesar de bem produzida, do som do momento – até porque o discurso do Run-DMC era bem menos agressivo e ofensivo.
“Back From Hell”, por sua vez, apesar de não ser o maior trabalho da carreira de Joseph “Run” Simmons, Darryl “DMC” McDaniels e Jam Master Jay, apenas comprova a longevidade da carreira dos rappers do Queens (NY), que souberam se adaptar aos vários períodos e estilos do hip-hop desde sua primeira fase, no início dos anos 80, marcada por singles, beats e timbres simples e secos, até a fase hardcore/gangsta rap do início dos anos 90. Musicalmente, o disco não traz nenhuma grande inovação, mas faixas como “The Ave”, “Bob Your Head” e “Pause” certamente figuram entre os melhores lançamentos do ano em questão. Problemas pessoais enfrentados por Run – acusado de estupro – e de DMC – internado em 91 por alcoolismo – podem parecer incompatíveis com um álbum, cujo título é justamente a saída do inferno, mas no fim ambos os rappers conseguiram sair de seus infernos pessoais e, apoiados por nomes como A Tribe Called Quest, EPMD, Public Enemy e Naughty By Nature, seguiram com suas carreiras e fizeram do Run-DMC um dos grupos de maior longevidade da história de um gênero que já assistiu a milhares de ascensões e quedas meteóricas, em seus aproximadamente trinta anos de existência. Hell, DMC!