Por Mateus Potumati . Retratos por Caroline Bittencourt . Foto de show por Fernando Martins Ferreira
"Ainda não tenho nada, mas já sou o rei da cocada”, canta jocosamente Maurício Takara naquela que talvez seja a faixa mais assobiável do seu novo disco, "Sobre Todas e Qualquer Coisa". Apesar de a letra ter sido escrita pelo parceiro Tiago Mesquita, ela não poderia ser mais pertinente à carreira deste que é um dos músicos mais polivalentes da nova música paulistana. O sentido, ambíguo, é uma pérola do auto-humor sempre bem-vindo a qualquer artista sobre quem pese o rótulo “de vanguarda”. Mas, ao mesmo tempo, traz embutida uma provocação sutil, como quem diz: “não sou como vocês, que já conquistaram tudo, mas sou muito melhor”. Assim, nessa ambição discreta, Takara trilha uma carreira que já soma 13 anos e inclui inúmeros projetos, sendo o mais famoso deles o Hurtmold, do qual é baterista. Desde 2004, Takara lança discos solo instrumentais, marcados pela união de timbres orgânicos e eletrônicos, com temas que passam pela música brasileira, pelo jazz e pelo post-rock, mas com um espírito inapelavelmente punk.
A partir do ano passado, seu projeto virou oficialmente um trio. A adesão do colega de Hurtmold Rogério Martins e de Guilherme Valério aumentou exponencialmente as possibilidades de composição e, principalmente, de performance. Com a ajuda de outros parceiros, o M Takara 3 criou um dos discos mais interessantes de 2010, que revela um compositor em um novo estágio de amadurecimento e uma banda explosiva ao vivo. Eles falam sobre isso e muito mais neste papo com a +SOMA.
Antes de eu ligar o gravador, você estava contando umas histórias do Joe Lally no Leste Europeu. A gente podia começar por ele. Foi uma parceria importante pra você, né?
Maurício Takara . Foi foda em vários sentidos. O Fugazi foi uma das bandas mais importantes na minha vida. Na hora que rolou a parada, eu falei “caralho... e agora?” Foi uma das poucas vezes que realmente bateu esse sentimento. Às vezes você toca com uns caras foda e tal, mas que são de mundos tão distantes que você até abstrai essa relação. Sei lá, tocar com o Naná [Vasconcelos] é demais, mas é tão outro mundo que você fala “beleza, cada um na sua”. Com o Joe era bem mais próximo, sabe? Apesar de eu nem conhecer ele direito. E, fora tocar com ele outras vezes, rolou de desenvolver a maior amizade. Também foi praticamente o pontapé inicial da Desmonta. Foi a primeira turnê que o Lu (Valério, dono do selo) organizou, né?
Essa turnê com o Joe também lançou uma tendência da Desmonta, que se repetiu várias outras vezes: chamar artistas de fora pra tocar com bandas de apoio daqui. Vocês três participaram bastante disso. Como é esse processo?
MTak . A experiência mais recente foi com o Nathan Bell (ex-baixista do Lungfish, agora em carreira solo). É sempre bom, mas às vezes pode ser um pouco estranho. É uma parada mais pessoal do que qualquer coisa, sabe? Com o Joe, por exemplo, a gente não conhecia ele direito, então foi uma coisa mais tipo “Ah, vamos trazer, a gente gosta do som dele, e ele quis tocar com músico daqui”.
Dá pra dizer o M Takara, como trio, é fruto direto desse ethos da Desmonta?
MTak . Com certeza. A parte de tocar ali no palco é tão pequena em relação a um monte de outras coisas, sabe? E, no momento em que você tá no palco, esse monte de outras coisas influencia muito mais do que sua qualidade técnica. Muito, muito mais.
Rogério Martins . O que conta é a sua relação com a pessoa que toca com você...
Guilherme Valério . Acho que, se a coisa tá andando bem, de repente te inspira muito mais dar um rolê na rua, trocando ideia com os camaradas, ou andar de skate. Isso conta muito mais na hora de tocar do que falar “a base é essa, toca aí”.
RM . Aí, na hora de tocar, é só tocar.
Apesar desse clima de despretensão, o último disco também tem frases e temas bem definidos, e o show se parece muito mais com a gravação do que nos álbuns anteriores.
MTak . Isso é verdade. Tá rolando pela primeira vez, porque esse disco foi bem fruto dos shows que a gente vinha fazendo. Nos outros era o contrário: eu fazia os discos sozinho e no show a gente se virava pra tocar as músicas. Apesar de as minhas músicas terem sido o ponto de partida, elas têm mais cara de trabalho em grupo. Tem muito mais canção, também. Na verdade é um jeito bem comum de encarar uma composição, que tem muito a ver com o jeito que os jazzistas encaram. Aquela coisa: chega no show e fala “vamos tocar essa música minha? É assim, assim, assado e dentro disso toca o que você quiser”. Tem a essência ali, uma métrica mínima, uma forma mínima, um tema principal, só que dentro disso se você quiser tocar uma nota só ou tocar 720 notas é do seu gosto. A música pode ter ou 2 minutos ou 15, sabe?
Roger, você, que é o cara do jazz, acha que o som que vocês estão fazendo é jazz?
RM . Eu? Tá falando com a pessoa errada, cara! (Risos) Mas acho que talvez sim, no sentido de como pensar e agir diante da música que você vai fazer. É aquela atitude real mesmo, fazer de uma forma grandiosa. Aí, pode ser uma roda de samba, uma banda de rock ou um grupo de jazz. É mais essa coisa de saber o que tá acontecendo.
MTak . E valorizar essa parada espontânea. Apesar de a gente ensaiar bastante, não ficamos falando “agora entra isso, agora aquilo”. A gente ensaia pra se sentir confortável com a música. O Roger tá tocando teclado pela primeira vez no meu show, e foi bem assim “toca um teclado”, “mas o quê?”, “sei lá, toca uma parada meio assim”. E na primeira vez já saiu praticamente o que ficou.
Você fez até uns órgãos meio de igreja ontem (no show de lançamento do disco, no SESC Pompeia), num som novo, um reggaezinho torto que parece um Specials meio cubista. (risos)
RM . É engraçado porque não tem um tempo exato pra eu entrar nessa linha, mas eu caio certo toda hora!
MTak . Esse é o tipo de composição que, quando rola, eu falo “caralho, acertamos!” “Espelho” também tem isso muito forte, rola uma polirritmia fodida, mas, se eu tentasse compor aquilo, ia quebrar a cabeça e é capaz que nem saísse. É uma parada que rolou tocando, e eu tava vendo a música de uma forma, o Guilão de outra e o Roger de outra. Juntou os três mundos, e virou uma polirritmia em que ele entra quando quiser, e vai dar sempre certo.
Dá pra perceber ao vivo.
MTak . Pra mim o ciclo tá acabando em um lugar, pra ele em outro, pra ele em outro. Então a parada gira de uma forma muito diferente, tá em constante movimento, isso é legal. Isso é legal, em especial pra mim e pro Roger, porque é o oposto de um grupo como o Hurtmold. Ali são canções, temas bem arranjados, complexos, com várias partes, vozes. E a minha música trabalha muito mais com loops, também.
Eu ia falar disso, mesmo. Especialmente ao vivo, fica claro que o que mantém as estruturas são os loops, criando essa coisa cíclica.
MTak . Total. É bem isso, e é uma parada até meio antagônica. Numa música eletrônica tradicional, o loop é o que prende a coisa ao chão. No meu caso, eu piro em transformar esse elemento num ponto de partida pra diluir a música. É como se tivesse um núcleo rodando numa escala pequena, e tudo ao redor rodasse pra qualquer lado. Essa coisa que tá presa acaba dando uma liberdade fodida, sabe? No Hurtmold não é tão simples assim. Se a gente começar a se soltar demais ali, fodeu. Mas [no M Tak 3] temos essa liberdade em uma música como “Antícope”, que tem uma linha de baixo em loop na música inteira (imita a frase do baixo com a voz). Essa levada repetitiva marca tanto o tempo que começa a te tirar a noção de tempo, é legal.
RM . Você começa a ver diferenças dentro da normalidade. Eu acho que esse tipo de fenômeno acontece bastante com o Fela [Kuti], né? Ele tem isso de, sei lá, cinco minutos de introdução em uma música, sem muita variação. A guitarra faz aquilo, o xequerê faz aquilo, a bateria faz aquilo e vai embora. Aí, quando você vai ver, tá ouvindo a mesma linha, mas tá muito agradável.
Isso é bem registro de música modal em geral, né? Africana, indiana...
MTak . É, parece que a música vai te colocando no seu lugar...
RM . Exatamente, porque a sua cabeça nunca fica parada, então a música te faz ficar centrado. Você sai, volta, sai, volta, e a música tá tocando. Você é que se dispersou, que não se concentrou por muito tempo. E ela te traz de volta, acho legal isso.
Voltando ao disco, uma coisa que me chama a atenção é uma certa timbragem metálica em várias músicas, que dá uma cara bem sintética, um “urbano” quase estereotipado. “Espelho” parece reproduzir os sons do que seria uma “natureza paulistana”, que deixaria um Philip Glass meio paranoico (risos). É muito São Paulo, nesse sentido.
MTak . É, tem essa cara. Acho que essa relação, de cada um ver a música de um jeito, tem a ver com o espírito de quem vive aqui, e da cidade em si. A timbragem pode ser um reflexo indireto disso. Não é nada conceitual, mas tem isso de usar timbres descaradamente sintéticos, não tem muito aquela coisa de pegar um sintetizador e tentar soar vintage, cool, sabe? A relação com Philip Glass talvez venha daí, pegar um timbre e usar de uma forma meio caótica.
“Rei da Cocada” também tem esse synth bem exagerado, lembra a discoteca daquele desenho Corrida Espacial do Zé Colmeia. (risos)
MTak . Uns anos atrás eu não conseguia usar isso muito bem, punha e falava “tá meio brega”. Isso é outra coisa que tá me interessando cada vez mais, usar elementos bem óbvios, só que de um jeito nem um pouco óbvio. Aquele tecladinho horrível, que não presta pra nada, mas de uma forma legal (Roger usa um Casiotone de brinquedo).
Já o segundo som do show tinha um tamborzão bem afro...
MTak . Ah, a do Olodum (risos). Essa não tá no disco... Eu quis achar um padrão que desse pra gente seguir o tempo inteiro, sem precisar variar.
RM . Remete ao Olodum porque tem dois tambores fazendo a mesma batida, um bem grave e um mais agudo. E o Maurício também às vezes acentua junto e faz a batida crescer na bateria, então fica possante.
Olodum é meio um tabu aqui em São Paulo, né? Principalmente Carlinhos Brown.
RM . É, as pessoas não gostam mesmo. Mas, se você se desconectar da pessoa e prestar atenção no som, vai ver que tem umas coisas muito loucas acontecendo ali.
MTak . Neguinho ouve, sei lá, o Fela, e acha a coisa mais linda do mundo, e é foda mesmo. Mas o Olodum traz uma coisa muito parecida pra mim.
A guitarra desse som também é afro, mas meio dura, punk. Gui, como foi pra você essa transição de tocar em bandas punk e fazer esse som agora?
GV . Eu venho da escola do punk, sempre toquei em banda, mas nunca me satisfazia porque eu não era tão preciso quanto o Ian MacKaye, sabe? Mas eu sentia que tinha um suingue ali, e comecei a me interessar por isso, fui tentando filtrar, tocar guitarra de uma maneira mais econômica.
MTak . A parte do punk com que a gente se relacionava mais, que eram os grupos da Dischord ou da SST, era punk por causa do princípio dos caras, porque a música é uma vanguarda fortíssima. Minutemen, Sonic Youth, Bad Brains, Black Flag... Tem muita coisa de música avançadíssima ali, até hoje.
GV . Eu também sou muito fã do Hurtmold, ia sempre em show e me ligava na bateria, que é bem solta e suingada. Hoje eu escuto muita música africana, mas acho que o que mais tem me influenciado é o hip-hop. Não fico ouvindo muito guitarrista tocando, sabe? Prefiro ouvir outra coisa, pra tentar tocar guitarra de uma forma que não seja guitarra, que às vezes me incomoda.
A bateria do Maurício também tem isso, os timbres são bem diferentes.
MTak . É engraçado, cara, é um gosto que eu fui tomando, e hoje em dia até sinto certa dificuldade em tocar uma coisa muito reta. Preciso prestar atenção, porque em geral tenho essa vontade de quebrar o padrão rítmico. Acho que muito por causa de estar tocando com programação. E é uma coisa que muita gente não gosta. Tem vários músicos que, se me virem tocar, vão achar uma merda, porque a gente não tem essa visão muito ortodoxa e carregada de tradição. É até curioso, porque li agora na resenha da +Soma [sobre o disco] que eu tô “criando a minha própria tradição”. Acho que esse é um dos melhores elogios que alguém pode receber. Se eu for querer tocar um samba, um jazz, ou até um hardcore idêntico ao que as pessoas tocam, sempre vai ter 1500 pessoas fazendo aquilo melhor que eu, porque é um padrão. Mas se eu tocar uma coisa que sai naturalmente da minha mão, vai ser único, não vai ter ninguém fazendo igual.
Outra novidade nesse disco são as canções. Por que cantar agora?
MTak . Um dos pontos primordiais foi começar a usar palavras de outras pessoas. Nesse disco rolaram as parcerias com o Tiago [Mesquita] (letra de “Rei da Cocada”) e o Lauro [Mesquita] (“Hora Errada”). Eu sempre tive ideias pra cantar, só que, na hora de escrever, falava “pô que merda, palavra é uma merda”. Por isso que vira músico, né? Não sabe se comunicar direito de outra forma (risos). Aí, quando eu comecei a encontrar outros textos, comecei a me sentir mais à vontade.
“Hora Errada”, do Lauro, tem uma letra meio tensa, fala sobre ela.
MTak . Essa música é curiosa, é bem punk. Eu fui pra Espanha, e não deixaram a gente entrar lá, essa história ficou até famosa e tal. E aí depois de alguns meses aconteceu a mesma coisa com ele na Inglaterra... A gente já estava fazendo uma música, e quando rolou essa parada ele me disse “escrevi uma letra que você vai entender melhor do que qualquer pessoa”.
Demais. E quais letras são suas?
MTak . “Na Avenida”, que é uma música bem pop. “Eu não” é outra que eu já tinha escrito faz um tempo. As poucas que são minhas são bem nonsense. Vou encaixando as palavras mais pelo lado fonético e depois acho um sentido nas frases.
RM . Eu acho bem legal esse caminho que o Maurício encontrou para escrever.
E essa banda de vocês, tá rolando num esquema Vinícius de Morais? (risos)
RM . Eu espero que seja eterno enquanto dure, mas respeito muito o trabalho do Maurício em primeiro lugar. É uma coisa muito da cabeça dele, então acho que se, ele tiver a necessidade da banda, vamo aí. Se também não tiver, vamo aí de qualquer forma.
MTak . Mas esse show, essas músicas, eu só toco se for com essa banda. Antigamente ainda rolava, tipo “beleza vou fazer só eu e um guitarrista, ou só eu e uns eletrônicos e o Richard [Ribeiro] na bateria, tal”. Agora, no esquema que tá, prefiro nem fazer se não for nessa formação. Mas não sei também, pode ser que uma hora eu encha o saco do Guilão... (risos)
GV . É o Maurício que compõe, e eu acho que ele tem uma tendência de sempre buscar coisa nova, isso que é legal no trabalho dele. Foi engraçado, quando a gente fez o primeiro show no SESC Pompeia, o Richard me falou “é isso aí mano, a parada do Maurício tá sempre se renovando, boa sorte”.
MTak . Mas uma coisa legal é que a gente tá conseguindo dar essa renovada entre nós três também. O Guilão toca surdo numas músicas, o Roger toca teclado...
É, são três one man band ali. É difícil acreditar que são só três no palco. Tem tanto volume que dá até pra entrar mais gente. Imagina, uma Orkestra de Vanguarda do M. Takara?
MTak . Nossa...
RM . Pode ser legal, hein?
Saiba mais:
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