(Entrevista publicada na +Soma 18/Jul-Ago 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Jéssica Mangaba
“Sempre, diante de uma imagem, estamos diante do tempo”
Georges Didi-Huberman
A fotografia brasileira tem ganhado fôlego com o aparecimento de novos artistas como a jovem Jéssica Mangaba. A fotógrafa, de apenas 22 anos, já participou de algumas coletivas em São Paulo e esteve no importante Festival de Fotografia de Porto Alegre ao lado de nomes como João Castilho e Luís Santos. Além de construir seus belos ensaios imagéticos, ela pretende se dedicar à pesquisa fotográfica.
Com uma opinião forte sobre a estagnação do fotojornalismo e dos formatos repetitivos da fotografia nacional, Jéssica propõe novas maneiras de se construir uma imagem e de pensá-la. Seja por meio do formato analógico ou digital, ela concentra sua criação no processo e não apenas em apertar o disparador.
Como e quando rolou o seu interesse pela fotografia?
Bom, acho que a fotografia é um processo natural da vida de qualquer pessoa. Meus pais sempre fotografaram muito, e muitas coisas aconteceram na minha vida por causa da fotografia. A separação dos meus pais, por exemplo, eu descobri por meio da fotografia. O interesse de estudar foi natural. Eu ia prestar vestibular e fiquei interessada no curso. Eu fazia fotografia caseira como todo mundo e resolvi estudar o assunto, não aprender a fotografar, mas conhecer além do superficial.
O que a faculdade trouxe para você?
O processo da faculdade foi muito importante, principalmente pelo lado teórico. Conheci muita coisa, e eu não tinha tanto aprofundamento no tema. Foi uma porta pra mim.
E como você foi parar na Cia de Foto?
Uma amiga da faculdade, a Alexia, sempre me convidava para conhecer o trabalho deles. Um dia fui até lá, eles estavam precisando de uma assistente e rolou. A Cia foi uma formação muito importante também. Pra mim foi essencial ter passado por lá, porque é uma escola em relação ao estudo do processo.
A Cia de Foto é um coletivo, e não há uma assinatura individual. Qual a sua posição em relação a isso?
A proposta da Cia é muito interessante, e essa história de assinatura coletiva eu aprendi lá. Na faculdade, a gente tem outro processo de autoria, de pensar o que é autoria, algo mais individualista mesmo. E acho que é muito válido trabalhar como um grupo, além de ser um tema que precisa ser muito discutido, principalmente nos dias de hoje, em que tudo é voltado pro indivíduo. Acho que o meu caminho é como o da Cia. Por exemplo, no último ensaio que eu fiz tem fotos que não são minhas a ideia e toda a pesquisa são minhas, mas quem participou é tão dono quanto eu. É uma quebra da individualidade.
O seu trabalho de conclusão de curso da faculdade foi muito elogiado, chegou a ser exposto em algumas galerias. Fale um pouco sobre ele.
Meus pais são separados há muitos anos, e sempre teve uma relação da ausência da imagem do meu pai. Em 2008, ele me mostrou umas fotos que eu nunca tinha visto, da vida dele nos anos 70, algumas na Bahia, onde ele morou, e outras em São Paulo. Tinha diversas fotos em que ele aparecia com um violão, mas ele não toca violão, e aí eu comecei a estudar a representação da fotografia, do processo de a pessoa escolher como quer ser representada. E eu comecei a pensar em como construir a memória de uma coisa que eu não vivi a partir das fotos antigas do meu pai. Foi um processo muito intenso de reinventar o que poderia ter sido a vida dele. Fotografei o cotidiano dele e pedi pra ele também se fotografar.
E quais as técnicas que você usou para construir esse trabalho?
Eu quis experimentar várias coisas: filme, polaróide, digital, e ver o que tinha mais a ver com a proposta. As minhas referências eram as fotos antigas. Então, de alguma forma eu quis deixar presente, seja na tonalidade ou no enquadramento, essa estética caseira e crua.
Fotografia documental ou artística?
Hoje existe uma vasta discussão sobre o que é documental ou o que é arte na fotografia. Pode ser que o meu trabalho seja documental, eu não me apego muito nesses conceitos. Não procuro muito me colocar em uma divisão e nem acredito nessas divisões. Que seja documental ou não, mas que tenha outros experimentos com a linguagem fotográfica. Hoje em dia tem muita pesquisa boa, por exemplo o trabalho do João Castilho, que é arte, mas não deixa de ser documental.
Quem são os fotógrafos que te influenciam?
O Breno Rotatori é uma referência pra mim, não só por ele ser o meu namorado e eu acompanhar de perto o processo dele, mas sim porque sempre vejo ele pesquisando e estudando a fotografia. Gosto muito também do trabalho do João Castilho, do Rodrigo Braga e da italiana Moira Ricci.
Saiba Mais:
www.flickr.com/photos/jssmangaba