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Fri: 08-27-10

Javelin Faz Show no Estúdio Emme Amanhã

O Javelin, um dos principais exportadores de beats do Brooklyn da atualidade, chega ao Brasil para uma apresentação responsa amanhã, 28, no Estúdio Emme para o projeto Under30 Series. Formado pelos primos Tom Van Buskirk e George Langfordos, o projeto da dupla é uma mistura de disco music, Motown, electro e hip-hop. Se você curte os caras, eles ainda vão fazer apresentar um DJ set no Neu Club hoje.

Confira abaixo a matéria de Sean Edgar sobre a dupla, que estará na  +Soma 19.

28 . 08

Under30 Series com Javelin
Entrada . R$ 30 . 23h30
Estúdio EMME: Av. Pedroso de Moraes  1036 . Pinheiros
 
Javelin
Os Mestres da Reciclagem


Por Sean Edgar (*) . Retrato por Tim Soter

Quando Tom van Buskirk, o frontman barbudo do Javelin, admite que era “totalmente sem noção” na época do colégio, fica difícil avaliar se a afirmação é um elogio ou um insulto. Contextualizando: van Buskirk fez essa revelação enquanto contava como criou a melodia de uma de suas primeiras composições, o tema de abertura do programa do clube do audiovisual de sua escola. “Eu sampleei um som do Three Dog Night, mixei com o beat de um disco de break e gravei uns instrumentais por cima”, ele conta, aos risos. “Ficou bem brega.”

“Brega” e “sem noção” são duas definições que van Buskirk usa com frequência para descrever suas inclinações musicais. Tecnicamente, ele não deixa de ter razão. Junto com seu companheiro de banda George Langford, van Buskirk tem uma certa tendência a reciclar, destilar e aglutinar uma determinada gama de gêneros subestimados, e muitas vezes considerados brega, do espectro pós-moderno. Porém, apesar de sua humildade um tanto irônica, o Javelin é hoje um dos maiores exportadores de beats do Brooklyn, ostentando um bom número de mixagens premiadas em eleições feitas por blogs e uma reputação considerável por jams épicas em lofts da cidade.

Mas as origens do Javelin vão muito além das margens do East River. Van Buskirk e Langford têm muito mais em comum do que o amor pelos hits radiofônicos e pela produção nas picapes: eles são primos, e foram criados nos estados vizinhos de Rhode Island e Massachusetts. Passavam juntos com frequência os feriados prolongados e as férias de verão, trocando riffs de guitarra e mixtapes de quatro canais durante toda a juventude. Depois de se formarem na faculdade (ambos em Literatura Inglesa), eles viajaram para a América do Sul: van Buskirk para Buenos Aires, e Langford para Salvador e para o Rio de Janeiro. “No meu caso foi só uma temporada fora do país, com um objetivo mais ou menos definido”, explica van Buskirk. “Levei comigo toda a minha aparelhagem musical e ficava criando coisas no apartamento.”

Para os futuros integrantes do Javelin, as lojas de discos locais ofereciam prateleiras repletas de obras-primas esquecidas e novos tesouros que os nova-iorquinos antenados devoravam em segundos. “Tinha uma lojinha a que eu ia direto, onde comprei nada menos que 75 discos bem bizarros, desses que são lançados para o mercado internacional. Muitos deles eram de disco music, e muito, muito bregas.” Langford, por sua vez, que nutria um gosto por Herbie Hancock no colégio, estava descobrindo Caetano Veloso, Os Mutantes, Gilberto Gil e muitos outros artistas da Tropicália no Brasil.

Quando voltaram aos Estados Unidos, por volta de 2005, os dois começaram a transformar anos e anos de escavações fonográficas em discos que foram imediatamente bem aceitos pela comunidade blogueira. O lançamento independente “Jamz n Jemz”, um CD-R de 25 faixas de beats retrô do hip-hop e melodias criadas em sintetizadores dos anos 80, chamou a atenção do Luaka Bop, o selo internacional de David Byrne. A gravadora propôs um contrato para o Javelin sem pensar duas vezes. “Quando eles entraram em contato, já estávamos conversando com outro pessoal. A gente tinha acabado de mudar para Nova York, e pensou: ‘Não deve ser só uma coincidência’”, recorda van Buskirk. A Luaka Bop permitiu inclusive que a dupla co-optasse seu podcast, plataforma na qual surgiu “Andean Ocean Tape”, uma espécie de celebração escapista do verão. Logo depois, foi lançado “No Mas”, primeiro LP de estúdio do duo.

“No Mas” representa um passo à frente muito bem pensado na evolução impressionante do Javelin. Poderia ser facilmente confundido com uma mix tape de funk, pop, dub e acid jazz para ninguém botar defeito, mas cada som traz consigo o DNA peculiar do duo. A lista de músicas do disco é um excelente exemplo da inquietude da dupla, que muda de estilo com frequência e delicadeza. “Vibrationz” pulsa por trás do som de uma guitarra com wah wah digitalizada, que se funde a um vocal feminino sampleado entoando o mantra sensual de uma só palavra da faixa. Logo em seguida, “Mossy Woodland” navega pelas águas de uma música pop executada por um conjunto de cordas, permitindo a van Buskirk exibir seu alcance vocal em meio a uma tempestade de reverbs. E músicas como “Tell Me, What Will it Be?” mergulham tão profundamente no mar de arranjos jazzísticos medianos que o limo acumulado durante os longos anos de esquecimento se torna quase palpável. É o tipo de trilha sonora capaz de dar sobrevida a uma festa mesmo depois de sua morte natural.

Levar essa mistura sofisticada para os palcos não era uma tarefa fácil, e nesse caso van Buskirk e Langford fizeram o qualquer músico de respeito que trabalha com mixagens faria: juntaram um estoque de vinte boomboxes antigas para amplificar suas batidas através de um rádio FM. Assim como em suas escavações sonoras, eles foram longe para conseguir os melhores sons reciclados. “Eu passava o tempo todo indo a lojas de artigos de segunda mão. A maior parte da aparelhagem do Javelin foi encontrada nessas lojas, assim como os discos, os cassetes e as fitas VHS. Achamos algumas coisas na rua uma vez, mas a maioria foi comprada por 10 ou 20 dólares em um bazar qualquer do Exército da Salvação.”

Porém, apesar do contrato com uma gravadora de prestígio e da pirâmide de alto-falantes velhos, van Buskirk ainda não se acha muito diferente do moleque do colégio que incorporava beats a samples de sons do Three Dog Night. “Na música ‘Radio’, a letra que eu escrevi diz que ‘Eu sou o mesmo desde a quarta série.’ E é verdade – eu faço as mesmas coisas que fazia quando era moleque.”


(*) Tradução de Alexandre Boide