(Entrevista publicada na +Soma 18/Jul-Ago 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
O barítono do hip-hop
Por Daniel Tamenpi . Colaboração de Suemyra Shah
Charles Stewart Jr., ou Chali 2Na, como ficou mundialmente conhecido, é uma das figuras mais ativas do hip-hop mundial. Sua carreira acompanha a evolução do rap desde os anos 90 até os dias de hoje. Nascido em Chicago, mas criado em Los Angeles, Tuna faz parte da geração que moldou o estilo que viria na contramão do gangsta rap e do rap comercial. Sua voz é marcante, daquelas que se reconhece nos primeiros versos, seja nas músicas do Jurassic 5, do Ozomatli ou nas dezenas de participações que fez durante toda a carreira. Uma de suas características é a facilidade de se encaixar em linhas sonoras variadas: rap, funk, reggae, música latina, rock, o que for. Apelidado “o barítono do hip-hop”, o rapper agora segue em carreira solo após a separação do J5, alçando voos altos e marcantes em seu álbum de estreia, “Fish Outta Water”, um dos destaques de 2009, na recém-lançada mixtape “Fish Market Part 2” e em vários outros projetos. Em conversa com a +Soma, Tuna fala de sua carreira, dos tempos de colégio, da paixão pelo graffiti e pela pintura e ainda adianta informações sobre novos shows no Brasil.
Você nasceu em Chicago, que tem uma grande história no hip-hop. Qual foi o motivo da sua mudança pra Los Angeles?
Eu me mudei para Los Angeles para evitar sérios problemas em que estava prestes a me meter e que não vem ao caso descrever aqui. Minha avó já estava cansada de Chicago, por causa das muitas tragédias que teve que enfrentar durante anos, então se ofereceu pra me levar, junto com meus irmãos, pra morar com ela na Califórnia. Nós aceitamos e fomos.
Fale um pouco sobre o seu tempo de colégio, quando tinha companheiros de classe como Cut Chemist, Everlast, DJ Muggs e Sun Doobie. O hip-hop já fazia parte da vida de vocês nessa época?
Sim, senhor! O hip-hop me conquistou bem no início dos anos 80. Em 86/87 eu já estava em Los Angeles, então [o rap] definitivamente já fazia parte da minha vida. Eu, Sun Doobie, Cut Chemist e Marc7 fazíamos parte do U.N.I.T.Y. Committee, e foi através deles que conheci o Muggs e depois o Everlast. O hip-hop em Los Angeles era bem louco, porque era muito influenciado e fortemente ligado à indústria do cinema, então você via todo tipo de estrelas em qualquer lugar. Isso me fez pensar: se eles podem, eu também posso!
Sei que antes de rimar você já pintava, e faz disso uma atividade até os dias de hoje. Inclusive, na sua passagem pelo Brasil, fez pinturas com o Flip. Qual a importância do grafitti na sua vida?
Foi a chave dos portões do hip-hop pra mim. Abriu as portas de um novo mundo, que até hoje parece novo, graças a todas as coisas que eu aprendi sobre arte através dos anos. É um dos elementos mais antigos do hip-hop, e não pertence só a ele, faz parte também de outros subgêneros. A minha disciplina artística passa pra minha música, então [a arte] é muito importante pra mim.
Vi no seu Myspace que você tem feito telas a óleo, além do graffiti. Quais são suas influências nessa área?
Van Gogh e Rembrandt. Esses caras têm quadros que duram centenas de anos, e os detalhes continuam imaculados! Eu busco a mesma habilidade e longevidade no que eu pinto, então decidi experimentar a pintura a óleo.
O Good Life Cafe foi um lugar que teve um grande valor na sua carreira. Fale um pouco sobre a importância desse local pra cena daquele momento.
O Good Life Cafe foi importante pra cena porque você não conseguia um contrato se não fizesse parte do gangsta rap. Naquela época esse estilo era tão popular que todo selo queria um grupo como o N.W.A., então o Good Life era a vitrine necessária para aqueles de nós que não participavam da cena gangsta.
Foi por lá que o Jurassic 5 surgiu? Como aconteceu essa união de tanta gente talentosa?
Sim, o Jurassic 5 se conheceu no Good Life. Começou com dois grupos distintos que se admiravam mutuamente e queriam trabalhar juntos. Alguns anos depois finalmente tivemos a chance, e esse som abriu caminho para o que viria a ser o Jurassic 5.
Antes do J5 você e o Cut Chemist fizeram parte do Ozomatli, uma banda que tem a música latina como sonoridade principal. Como rolou essa história?
Na verdade o J5 existia antes do Ozomatli. Foi a versão deles da nossa primeira música, que se chamava “Unified Revolution”, que me levou a tocar com a banda e mais tarde me tornar parte dela. Eu conheço o Wil-Dog desde que ele tinha uns 14 anos, e continuamos amigos até que as circunstâncias me levarem a ajudá-lo a propagar sua causa. Eu me sinto abençoado por ter sido parte daquilo, e ainda toco e gravo com eles de vez em quando.
O Jurassic 5 é um dos grupos mais queridos do hip-hop. Vocês viajaram o mundo todo fazendo shows e turnês. Quais foram os mais marcantes e importantes?
O Festival de Glastonbury, na Inglaterra, em 98, e o Festival Bonnaroo, em 2001, foram pra mim dois pontos cruciais no sucesso do nosso grupo. Tanta gente nos viu ao mesmo tempo em cada um desses festivais que o boca-a-boca se espalhou feito fogo em mato seco.
No ano passado o EP do J5 foi relançado em uma comemoração aos 10 anos do lançamento original. Bateu uma saudade do grupo? Existe a possibilidade de um retorno?
Na verdade não rolou nostalgia, porque essa é [até hoje] a parte principal da minha história como artista. Agradeço o que conquistei durante aquela época, assim como o que conquistei depois que me desliguei do grupo. Todos nós estamos fazendo o que consideramos necessário artisticamente neste momento em nossas carreiras solo. Apesar de não poder prever o futuro, não acho que exista a chance de nos reunirmos tão cedo.
No ano passado você lançou seu primeiro disco solo. “Fish Outta Water” me surpreendeu muito – como fã, esperava algo que lembrasse a sonoridade do J5, mas você seguiu um caminho diferente, mais autoral, mostrando diversas influências.
“Fish Outta Water” foi o processo de criação de uma identidade, então você está certo. Era minha intenção expor coisas diferentes, que me formaram como artista, e ir além. Agradeço a todos os produtores e artistas convidados que me ajudaram a pintar esse quadro.
Você fez parte do interessante projeto Dino 5, de hip-hop direcionado para as crianças. Como MC e pai, como foi essa experiência?
Foi maravilhoso, porque eu realmente pude usar minha habilidade pra me dirigir às crianças sem descambar pro brega. O Prince Paul foi o idealizador. Ele me chamou de uma hora pra outra e explicou a missão. Eu jamais diria não ao Prince Paul! (Risos) Além de mim, estavam envolvidos LadyBug Mecca, WordsWorth, Scratch e a Ursula Rucker. Nós finalizamos o projeto em uns cinco dias, apesar de termos um prazo de até onze. Tenho muito orgulho de ser parte disso!
Você pegou o hip-hop como cultura, e não como a indústria que é nos dias de hoje. No Brasil, o hip-hop ainda é visto dessa forma. Como você encara o hip-hop nos EUA atualmente?
O hip-hop nos EUA é definitivamente movido pela indústria e pelo que você pode ganhar nesse jogo. Ainda é um movimento centrado na juventude, porem é mais superficial e visto como uma maneira de ganhar dinheiro, e não como um meio de expressão. Isso é a realidade. Mas tenho muito orgulho de existirem artistas por aí que ainda o amam como forma de arte. Só tenho a agradecer ao pessoal do Brasil por manter isso vivo.
O Jurassic 5 fez duas apresentações em 2005 em São Paulo. Eu estava presente e me pareceu que vocês ficaram bem satisfeitos, dando atenção e sorrisos a todos após as apresentações. O que você achou do Brasil? Tem planos pra novos shows por aqui?
Eu simplesmente amo o seu país por inúmeras razões. Tem gente linda por dentro e por fora, uma música espetacular e uma cultura inquestionavelmente rica. Eu amei o Brasil, não só daquelas duas vezes, mas em todas as vezes que o visitei (ele também veio ao Brasil com o “Galactic”). Eu amo o povo brasileiro. Vocês são calorosos e hospitaleiros. Estou pra voltar nos três últimos dias de julho, pra promover o “Fish Outta Water” e o meu novo projeto, a mixtape “Fish Market Part 2”, então, por favor, apareçam pra me dar uma força!
Saiba mais:
Chali2na.com
Jurassic5.com