| |
+HIGHLIGHTS
Fri: 08-13-10
Review (Show) . Jay-Z no Radio City Hall
Por Mateus Potumati . Fotos divulgação e Arthur Bortolin
Na letra de “Real as it Gets”, Jay-Z rima: “Close your eyes you can smell/ Hov's the audio equivalent of braille/ That's why they feel me in the favelas in Brazil/ And water-house 'cause real recognize real”. A faixa de “Blueprint 3”, disco do rapper de 2009, não poderia ser mais esclarecedora sobre o status que o rapper alcançou: com 11 discos no topo da Billboard (desbancando Elvis Presley), ele superou barreiras culturais e linguísticas para se tornar um ícone pop mundial que une, quase paradoxalmente, o poder de uma máquina multimilionária a uma identificação inabalável, horizontal, com seu público – seja ele das favelas do Brasil, das ruas descoladas de Williamsburg ou dos clubes de Xangai. Não à toa, “Real as it Gets” foi a segunda faixa do show do astro ontem, na cerimônia de lançamento do World Basketball Festival, evento idealizado pela Nike como aquecimento para o mundial da Turquia, que acontece a partir do próximo dia 28. O concerto aconteceu no lendário Radio City Hall, que em seus quase 80 anos de atividade já recebeu espetáculos e eventos de todos os gêneros. O auditório suntuoso na 6ª Avenida estava com seus mais de 6 mil lugares totalmente tomados, em uma noite que incluiu ainda shows de stand-up comedy, de dança e um jogo da nova seleção de basquete estadunidense, na quadra montada em pleno palco.
Pouco mais de 20 minutos após o final do jogo, a estrutura estava completamente modificada para receber a parafernália de luz e som do show, que incluía projeções de Martin Luther King, Sinatra, Nova York e, claro, do próprio Jay-Z. Sempre em volume grandioso, a qualidade das luzes e das projeções foi um show à parte. O setlist relativamente curto (nove músicas) foi aberto de forma inesperada: com bateria, percussão e sopros fazendo um arranjo de alta intensidade, o rapper cantou “Hovi Baby”, do disco “The Blueprint²”, de 2002. Quando entraram os acordes de “Real as it Gets”, porém, a escolha fez pleno sentido, em uma perspectiva histórica. Se o Jay-Z de 2002 cantava, com sangue nos olhos, “I’m so far ahead of my time/ I’m about to start another life”, em 2010 o rapper maduro faz uma levada mais tranquila, reflexiva, fazendo a conta de oito anos de um novo tempo. Em seguida, a quase dubstep “On to the Next One” fez boa parte do público se levantar, balançando os braços ao ritmo do som. O rapper Swizz Beats, que levou a música com Jay-Z, também ficou no palco para outra digressão ao passado no roteiro fragmentado do show: “99 Problems”, um dos maiores sucessos de “The Black Album”, disco de 2004 que é um dos marcos da década e que muitos julgavam o canto do cisne de Jay-Z, até a chegada de “American Gangster”, em 2008, que devolveu o rapper às graças dos críticos. Voltando ainda mais no tempo, o MC presenteou os fãs mais antigos com “Brooklyn’s Finest”, do longínquo “Reasonable Doubt”, de 1996. De volta ao “Black Album”, a faixa seguinte foi “Public Service Announcement”, com direito a improviso acapella do rapper no final.
“I’m Home Already”, na sequência, inaugurou a fase final do show, dedicada especialmente a Nova York e ao Brooklyn, bairro onde Jay-Z cresceu. Com o público cantando em coro, ele não deixou nenhuma dúvida sobre o quanto se sentia em casa, concluindo uma fábula urbana que traduz Nova York como poucos artistas conseguiram, de seus momentos mais trágicos a suas maiores realizações. No final, a aguardada catarse de “Empire State of Mind”, de “The Blueprint 3” (cantada por uma outra intérprete que não a Alicia Keys, se você souber quem é me avise) exaltou a “selva de concreto produtora de sonhos”, de luzes inspiradoras e cujas ruas renovam quem anda por elas. No final, a análise oferecida por Jay-Z é a de uma carreira que saiu de ruas pobres e entregues ao tráfico de drogas para representar a própria essência da cidade – e, mais do que isso, de moldá-la em grande parte à sua própria semelhança. Em dialética materialista pura, Jay-Z é criatura e criador de Nova York, seu filho e seu rei. Na letra de “Empire State of Mind”, ele canta “I’m the new Sinatra”, com o misto de arrogância e consciência do próprio poder que definiu boa parte do rap do final dos anos 1990 para cá, de Ludacris a Emicida. Antes de a música começar, imagens de Sinatra sobrepostas a Nova York deixavam claro o tipo de legado que o rapper busca. Ao contrário da maioria de seus seguidores, porém, a comparação ontem no Radio City Hall soou inegavelmente precisa.
(*) Mateus Potumati viajou a Nova York a convite da Nike Sportswear especialmente para o World Basketball Festival.
|
|
|
|