(Entrevista publicada na +Soma 18/Jul-Ago 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
NOS BOTECOS DO MUNDARÉU COM RODRIGO OGI
Texto Por André Maleronka e Fotos Por Fernando Ferreira Martins
Ogi apareceu como integrante do grupo de hip-hop Contrafluxo, e agora está lançando um trabalho solo em que aparece como um letrista intrigante e ótimo intérprete. A habilidade descritiva e as soluções narrativas do MC são de impressionar. Suas músicas, cada uma durando entre dois e três minutos (relativamente curtas para o rap brasileiro), trazem rimas detalhistas, minuciosas e contêm muito mais informação do que nós, ouvintes, estamos acostumados – salvo casos de gênios da polissemia, como Sabotage e Mano Brown.
Do disco, intitulado “Crônicas da Cidade Cinza”, Ogi já soltou duas músicas na internet, “A Vaga”, produzida pelo DJ Zala, e “Premonição”, produzida pelo DJ Caíque – esta com direito a videoclipe. O álbum também conta com batidas feitas pelo próprio Ogi e pelos produtores Drunk, Nave, Dario, Sala 70 e Menor, com Savave, Rodrigo Brandão, Lurdez da Luz, Munhoz, Espião, Dr. Caligari e Doncesão nas rimas. A capa é d’OSGEMEOS. Como não poderia deixar de ser, fizemos uma miniexcursão por botecos para escutar as faixas inéditas e conversar sobre tudo isso. Abaixo, um resumo da ópera.
Tinha uma coisa que eu via no Contrafluxo, e que é uma característica do rap dito underground, que é querer dizer pras pessoas como fazer as coisas, sabe? Tinha quem conseguisse fazer isso melhor, quem fizesse pior... Mas tenho a impressão de que a estética implodiu.
A gente não tinha essa ideia de querer levantar uma bandeira underground, tá ligado? Se você for ver os beats, era tudo uma pegada antiga, Golden Era, que é o que a gente gostava, e as ideias eram coisa nossa, não era um negócio planejado pra seguir um estilo. No meu disco não vou tanto pra essa linha, é uma música mais popular. No disco do Contrafluxo tinha gente que não conseguia assimilar algumas ideias que pra mim eram uma coisa fácil. Tinha gente que não entendia, falava “que rap estranho”, outros falavam que aquilo não era rap, que parecia coisa pra gente mais intelectual.
Mas já foi um grupo que conseguiu, com esse disco, tocar em festas da galera mais indie rock também.
A gente tocou em periferia também, pra caralho. Dividiu. Mas tinha muita gente indie que gostava do som. Mas não tocava em pista. Sem chance.
Tem um lance que é uma bênção e uma maldição no rap brasileiro: a tradição narrativa do Mano Brown. Ele foi o cara que melhor contou histórias até agora. O jeito como você conta história não tem necessariamente a ver com o dele, mas todo mundo que tenta contar história tem um débito com ele. Por isso achei legal quando você soltou a “Premonição”. Achei um negócio propositivo, de falar “Olha, também dá pra contar história desse jeito”. Como você entrou nessa de fazer raps com narrativa?
Ele conta história conforme o que vive. Acho que [essa linha narrativa] tem muito a cara da época em que o rap ficou, como eu posso dizer, estagnado – não sei se essa é a palavra –, em que era tudo igual. Era sempre na mesma linha de crime. Tinha até cara que não era do crime, mas falava que era do crime. Procuro detalhar o que vivo. Tudo o que tá no disco já vivi ou vi acontecer. Posso não ter vivido diretamente, mas não tem mentira. E tento ser bem detalhista. Leio bastante, tento me inspirar.
“Eu vou ao bar sozinho, mano. Fico ouvindo as conversas dos outros, olhando.”
Quem você acha legal, quem te inspira?
Gosto do Fante, do Bukowski, do Moacyr Scliar.
Em “Premonição” você tá falando de sair em um rolê pra pichar. Como foi a pichação na sua vida?
Comecei a fazer rap com o DJ [Big] Edy, a gente tinha um grupo – eu era MC – em 93. Sempre pirei na escrita do “pixo”, mas não entendia qual era a pegada. Um dia eu falei: “Vou sair pra pichar” Inventei um nome lá, e saí. Em 95, isso. Fiquei 15 anos pichando muro. Várias vezes fui pra delegacia. É o que falo em “Premonição”, várias vezes eu sentia uma coisa ruim assim, de verdade, do tipo “Não vou hoje”. Aí ia pro rolê e acabava me dando mal. Eram poucas as vezes em que isso não acontecia. Daí eu quis resgatar mais ou menos isso, como se tivesse não ido daquela vez. E a música seguinte [do disco] conta a história de um cara que se deu mal. Chama “Noite Fria”.
Você acha que pichar tem conexão com fazer rap? O rap, bem ou mal, por mais que seja pop, sempre tem um lado dedo-na-cara-da-sociedade.
Lá no meu bairro a maioria da molecada já roubava. Ou era ladrão ou era noia, ou então não saía do apartamento. Eu conhecia todos os caras ali, ficava o dia inteiro jogando bola com eles. Minha pegada não era roubar, não tinha a manha disso. Mas queria fazer alguma coisa pra chocar também, contestar. Aí comecei a pichar. Só que na pichação você perde o medo de fazer as coisas, e daí parte pro crime. É um passo. Se você não tem uma cabeça boa – não sei se é boa a palavra, porque já tá fazendo uma coisa ilegal –, se não tem uma base familiar, parte pro crime. E o protesto foi antigamente, hoje em dia não tem mais essa de protesto na pichação, hoje em dia é competição: quem faz mais alto, tá ligado? Até 97, 98, existia protesto. Hoje em dia você vê uns caras protestando, só que eles querem aparecer. Aí, por exemplo, tem cara que rala em várias quebradas, que picha São Paulo inteira, mas não gosta de aparecer. Tem cara que não picha nunca e vai lá e faz um que sai no jornal. As primeiras gangues que vi eram diferentes das de hoje. Tinha competição, mas não era igual. Era mais um protesto, mesmo. E o rap também é competição hoje em dia.
(Ogi mostra um som em que encarna um motoboy) Cara, você não acha que, se tocar uma música dessas na 105 [FM], ela bomba?
Mas e pra tocar, mano? Jabá, velho, é isso que eu tô dizendo. Se eu tivesse um investidor, ia tocar em várias outras rádios também. Os caras cobram. Já ouvi lenda de nego que pagou 4 paus pra tocar. Aí é foda. Não escuto a 105 também por isso. Nem rádio eu tenho. Mas tem muita gente que só conhece o rap por lá, né, é a única que pega. Acho que devia ser mais democrático. Ganha com comercial, sei lá. Vai ganhar com artista?
“Procuro detalhar o que vivo. Tudo o que tá no disco já vivi ou vi acontecer. Posso não ter vivido diretamente, mas não tem mentira. E tento ser bem detalhista. Leio bastante, tento me inspirar.”
E como você inventou essa letra do motoboy?
Observando.
Você acha que ser um cara observador, no seu caso, tem a ver com ser botequeiro?
Ah, sim, tudo a ver. Eu vou ao bar sozinho, mano. Fico ouvindo as conversas dos outros, olhando. Já ouviu aquela música “Por Aí Vou Vagar”, no meu Myspace? Aquilo foi uma cena que aconteceu voltando do bar. Só que a mulher não chegou a me xavecar que nem eu conto, mas tinha uma mulher lá e tinha uma música tocando, tá ligado? Pra música do motoboy me imaginei andando pela cidade. Pegava ônibus cedão, ia pro trampo, ficava imaginando, olhando a cidade... Agora, quando ouço a música pronta, acho que tá tudo a ver. “A Vaga” foi algo que eu tava passando também, tava procurando emprego mesmo.
(Mostra um som que conta uma história de um policial e um bandido) Qual foi sua viagem de fazer essa?
Eu fui criando uma melodia do refrão.
Você tem uma entonação pra cantar. Como desenvolveu isso?
Minha mãe cantava. Sempre vi minha mãe cantando, e ela era muito afinada. Não digo que sou um cara afinado (risos), mas aprendi com ela. Sempre pirei no samba, o pai do meu pai deixou vários discos. Ainda gravo um disco só de samba.
Você fala de um assalto a banco, tema de que vários caras já trataram, mas de um jeito que ninguém nunca fez. Conta mais história em dois minutos e meio do que nego conta em sete.
É, porque você vai detalhando. Tem outra que é “A Corrida dos Ratos”. Tem dois estágios, a corrida do rato. O primeiro é aquele em que o cara trabalha e depende do emprego, que se ficar cinco dias fora não consegue sobreviver – só trabalha e nunca consegue ter nada. O segundo é o do cara que só trabalha, consegue juntar alguma coisa, mas nunca vai conseguir ficar rico, de poder usufruir o dinheiro, ficar bem.
O que você quer pra você como músico?
Quero morar numa casa... Nada de luxo, só quero morar num lugar e poder me sustentar a pampa. Só quero poder viver de música. Poder ter um carro e sustentar o meu filho – quero ter filho um dia – e a minha mulher. Só o básico, cara. Não é que sou pessimista, mas sei como é a música. Num ano um músico ganha dinheiro pra caralho no rap, no ano seguinte não ganha nada. Estereotiparam o rap. Mano, rap é uma música qualquer. Mas pra eu dar valor pra um MC o cara tem que fazer malabarismo, que é o que tento fazer com as minhas rimas. Tem que ser um MC muito cabelo de levada. Não é arrogância. Tem vários caras parados lá em 90, mas tem outros fazendo isso. Quer exemplo melhor que o Brown, que é um cara que rima há trocentos anos e tem uma rima atual até hoje?
Saiba mais:
myspace.com/ogidocontra