Minha relação com o metal é muito semelhante à minha relação com o futebol. Faço vista grossa aos defeitos evidentes de ambos – em comum: tendência à misoginia, maniqueísmo, espírito gregário, breguice, grosseria, conservadorismo – em função de suas magníficas virtudes – capacidade de dar espetáculo, falta de espaço pra frescura, intolerância contra enganadores, valorização da técnica. Seguindo na metáfora, o disco novo do High on Fire é tipo o time atual do Santos (que eliminou o meu tricolor do Paulistão): só dá espetáculo e bola dentro. Quinto disco de estúdio da banda californiana, "Snakes For The Divine" celebra o excelente momento de um dos grupos de metal mais constantes do século XXI – apesar da porra-louquice do guitarrista/vocalista Matt Pike, que já afundou outra grande banda, o Sleep.
Em anos pós-indústria do disco, eles se tornaram referência de público e crítica sem cair nas armadilhas dinheiristas de bandas como o Metallica, nem sucumbir a modismos mofados como o nu-metal. No caminho de gente como Mastodon, Harvey Milk e Boris, o HoF joga no seguro: um mix meticuloso do que de melhor o metal já deu ao mundo.
A faixa homônima e “Frost Hammer”, que abrem o disco numa pegada speed metal, são irmãs das melhores porradas de "World Painted Blood" (não por acaso, Snakes foi produzido pelo mesmo Greg Fidelman que gravou o disco responsa de retorno do Slayer). “Bastard Samurai” põe a adrenalina para baixo aos poucos, caindo numa levada sludge à Melvins, que ressalta notas esparsas na guitarra como estrelinhas lisérgicas na retina. “Fire, Food & Plague” é quase doom, modernizado pela distorção meio 8-bits da guitarra, e com inflexões pelo stoner. Quem já viu o HoF ao vivo sabe que tudo só melhora quando esses três estão em cima do palco. É graças a bandas como eles que o metal segue sendo relevante.
Por Mateus Potumati.