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Mon: 03-29-10
Criolo Doido . Live in SP
Independente . 2010
Gravado em dezembro de 2008, este DVD é um passo importante na carreira de um MC singular. Apesar de adorado no hip-hop, seja por suas letras contundentes, pelo carisma pessoal ou por sua liderança decisiva no renascimento do rap paulistano, Criolo Doido ainda não foi devidamente apreciado e digerido por uma audiência maior. Em “Live in SP”, fica um pouco mais fácil entender o que tantos estão perdendo. A começar pelas execuções inflamadas das dez faixas maturadas em seus 20 anos de carreira.
Após o spoken word afiado do parceiro de rinha DJ DanDan, num palco onde falta espaço mas sobra sangue nos olhos, Criolo metralha “Até Me Emocionei”. Na ofensiva e de peito aberto, ele canta, entre o descritivo e a metalinguagem, sobre “aquele que até a respiração sai rimando”. Em “Selva Urbana”, chama o parceiro carioca MC Funkeiro e mostra a força de uma comunidade freestyle sem fronteiras. “É o Teste”, um dos grandes clássicos do rapper, espreme mais gente ainda no palco e provoca a catarse anunciada, em nível desproporcional ao público barulhento e modesto.
Se o show ainda reserva momentos especiais como “No Sapatinho”, “Chuva Ácida” e “Ainda Há Tempo”, é nos extras que está guardada a cereja do bolo. Em pouco mais de 13 minutos de depoimento numa laje no bairro do Grajaú, extremo Sul de São Paulo, Criolo Doido destila uma saraivada de ideias que trazem na mesma dose articulação, loucura, amor, revolta, urgência e gratidão. “O erro do homem é querer tirar a razão do outro. Todo homem tem a sua razão, por que querem foder com a minha?”, ele diz num momento. “A gente se odeia demais, por isso que tamo acabando com o mundo”, sentencia em outro.
Ao lembrar de uma crítica que ouviu porque suas letras “têm palavras bonitas demais”, ele não perdoa: “O cara vira pra mim e fala que eu tenho que ser o rei da merda pra representar ele? Por isso que eu sou doido, eu levo porrada dos dois lados”. Mais adiante, ele segue falando sobre os dois lados da ponte, tocando no ponto mais delicado da relação: “acham que quem tem condição [financeira] é o demônio, mas muita gente ajuda pra caralho”. Em vez de jogar para a plateia, no lugar comum do ódio de classe, ele rejeita a atitude como armadilha nociva à comunidade. Documento precioso para quem não se contenta com as águas mornas da mediocridade.
Por Mateus Potumati.
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