Conrad Editora . 2009
Em 2005, uma notícia agitou o mundo editorial: Robert Crumb, lendário quadrinista norte-americano, um dos pais da contracultura, voltaria a produzir um livro inédito. Mais do que isso: produziria uma adaptação do livro bíblico do Gênesis, pedra fundamental na moral de duas das maiores religiões monoteístas do mundo. Em uma época de intolerância ascendente – religiosa, legal, de liberdades individuais –, o fato de um dos artistas mais ácidos e impiedosos vivos se dedicar a uma missão como essa provocou risinhos sarcásticos de contentamento entre os fãs, certos de mais uma obra-prima do escárnio e da imoralidade. Mas não era bem assim: logo no princípio, o artista deixou claro que faria um trabalho fielmente ilustrativo. Sua intenção não era parodiar o primeiro livro do Pentateuco, mas trazer à luz em imagens o teor da obra. O resto, ele dizia, o texto original faria por si só. Quatro anos depois, o livro chega ao Brasil – em lançamento simultâneo com outros onze países –, em edição de luxo, com capa dura e notas da ótima tradução brasileira. À primeira folheada, já fica claro que estamos diante de um outro Crumb: em vez de cenas explícitas com genitais, sugestões e relações indiretas; em vez de rompantes de revolta, um autor incrivelmente submisso ao texto original. Parte da crítica não demorou a condenar o livro como obra monótona (afinal, a linguagem empolada do Gênesis não é das mais divertidas), subserviente, sem sentido. Do outro lado, leitores incautos se chocaram com as imagens divulgadas na imprensa, em especial a de Adão e Eva nus – ele sobre ela, ela com o êxtase da primeira penetração da história humana irrompendo no rosto. Difícil imaginar situação mais gratificante para Robert Crumb. Em uma só tacada, traiu os que julgavam tê-lo entendido (domesticado?), chocou os neocons fregueses das listas de mais vendidos, e de quebra meteu uma bolada de dinheiro no bolso. Claro, no meio disso tudo produziu um deleite majestoso ao grande número de fãs que, como sempre, entenderam a piada. A grande subversão do Gênesis de Crumb é justamente sua sutileza – a primeira delas, fazer um monte de marmanjos hereges lerem a Bíblia pela primeira vez. Fruto de um trabalho hercúleo de pesquisa histórica, as ilustrações trazem o apogeu do desenhista até agora, exibindo um equilíbrio primoroso entre seus contornos sujos e seu detalhismo obsessivo. Assim, Crumb alcança um êxito silencioso, ao mostrar coisas que ficavam escondidas sob o texto protocolar. Deus finalmente aparece em toda sua humanidade, invertendo a célebre relação de imagem e semelhança, com poder criador e atitude irascível, mas cheio de dúvidas e incoerências em sua onisciência. As cenas de guerra e violência em geral – o assassinato de Abel, o Dilúvio, o fogo sobre Sodoma e Gomorra – aproximam o leitor de uma era muito mais crua do que o cristianismo politicamente correto atual. Vendas de mulheres, traições e figuras fálicas – como o cantil de couro sobre o peito de Ló durante o coito bêbado com suas filhas – expõem o senso prático de uma moral em que, enfim, resultados são mais importantes do que princípios. Quem diria, o registro definitivo de um livro santo, feito pelo menos santo dos artistas. Um epílogo essencial e oportuno à história do século XX.
Por Mateus Potumati