Quando esta resenha for publicada, o dia 16 de outubro já será um fato consolidado na história do rap paulistano: nessa data, Emicida lançou sua nova mixtape em São Paulo diante de uma casa lotada, hiptonizada pela apresentação do MC e seus convidados ilustres. Mas esse abalo sísmico, para os de mente aberta e ouvidos atentos, já vinha ocorrendo desde muito antes, e Emicídio foi apenas o ponto culminante do processo. Ainda que o MC da Zona Norte fale sobre um possível genocídio de MCs na faixa-título, fatalmente a palavra remete também a um suicídio. Claro, na visão dos homens de negócio, era mais do que hora de capitalizar o momento, descolar um contrato, se "profissionalizar". E, com a recusa, eis o suicídio. Mas não é esse o ponto.
Com suas 18 faixas ("Avua Besouro" e "Emicídio" lançadas como single anteriormente), a mixtape pode ser dividida em um lado solar e outro mais sombrio. O solar diz respeito às faixas mais intimistas e descompromissadas como "Rua Augusta", "Novo Nego Veio" e "Beira de Piscina", homenagens aos amigos e à mãe ("Velhos Amigos" e "Um Final de Semana", respectivamente) e algumas tentativas de demarcar um espaço dentro de momentos/locais importantes no particular e no coletivo, como "I Love Quebrada" e "De Onde Cê Vem!?". O lado sombrio, com temática consagrada - mais "rap nacional" no equívoco sentido comumente usado -, com respostas cifradas a detratores e letras mais pesadas e de autoafirmação acintosa, estão concentradas em músicas como "E Agora?", "Cê Lá Faz Ideia", "Então Toma e "Emicídio". Um exemplo do Gandhi e do Adolf Hitler que todo moleque de periferia pode carregar dentro si de atuando lado a lado.
A revolução contida nesta mixtape pouco diz respeito à forma - ao menos aparentemente -, e sim muito mais ao conteúdo, ousado, forte e menos arrogante. Afinal, ninguém tem ombros fortes o bastante para suportar a "rua" por toda uma carreira - é melhor relaxar. Daí a tese de um simbólico suicídio. E, para mim, fica claro que é melhor se liberar do fardo de um hit como "Triunfo" e ganhar uma canção feliz de FM como "Eu Gosto Dela", que conta com seu irmão Fióte soltando o gogó no refrão de uma faixa pra lá de romântica na qual o MC constrói todas as rimas com terminações em "ina" e "ona". Pepeu, pioneiro MC brasileiro autor do proto hit "Nomes de Meninas", chamado ao palco no lançamento após 16 anos de ausência, deve ter ficado feliz com o uso de um recurso caro à sua geração. O rap está mais feliz sem ter que abandonar os punhos cerrados. A rua ganhou novamente.
Por Arthur Dantas