(Quem Soma publicado na +Soma 19/Sep-Out 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)
Por Natalia Lucki
David Quiles Guilló é naturalmente inquieto. Nascido em uma família espanhola de classe média, escapou da rigidez da educação católica de seu país natal, onde estudava em uma escola da Opus Dei, para se tornar referência no mercado das novas artes, administrando uma rede multidisciplinar espalhada por mais de 25 países.
Filho do dono de uma fábrica de sapatos, principal atividade econômica de Elche, cidade onde nasceu, e de uma mãe dona de casa, aos 13 anos ganhou uma bolsa para estudar em Nova York, graças a sua aptidão para os esportes. Educou seu olhar em visitas ao Guggenheim e ao MoMA, sempre atento a clássicos da arte moderna, como Jackson Pollock e Jean-Michel Basquiat. Foi introduzido à street art pelos trabalhos de Keith Haring - colecionava os adesivos e singles que ele ilustrou para artistas como De La Soul.
Durante o tempo em que viveu nos Estados Unidos, mudou de colégio várias vezes, sempre buscando escapar do excesso de rigor da educação formal. O último, com princípios mais liberais, foi o que possibilitou sua aproximação com a arte. David queria ser estilista, mas, como não encontrou nenhum curso especializado na época, optou por uma escola em Boston que oferecia um currículo de Belas Artes. Foi lá que aprendeu as técnicas de estamparia e fotografia.
Ainda como estudante secundarista, tentou trabalhar por algum tempo com pintura e sound art. Como artista iniciante, porém, tinha dificuldades de se aproximar de revistas especializadas e galerias. Desistiu de investir em sua produção quando conheceu novos artistas e se deu conta de que sua arte não continha nada que se destacasse.
Ao terminar o ensino médio, David resolveu voltar à Espanha, por saudade da família. Depois da experiência de Nova York, no entanto, Elche parecia pequena demais, e ele se mudou para Barcelona. Na universidade, por influência do pai, se matriculou no curso marketing, para que pudesse escolher um trabalho em um área mais abrangente. Acabou como estagiário no estúdio de design que criou o uniforme da seleção espanhola para as Olimpíadas de 1992. As referências que ele trazia dos Estados Unidos logo fizeram com que ele se destacasse e se tornasse o responsável pela estamparia do projeto. Depois de um ano na área, porém, ele desistiu da carreira.
Em 1995, recebeu uma proposta para trabalhar em São Paulo. A convite de uma marca de material esportivo, veio ao Brasil para representar uma linha de chuteiras. Trabalhou com os principais craques da época - Roberto Carlos, ainda no Palmeiras, e Ronaldo, que já estourava no Barcelona. O caos paulistano a princípio o assustou, mas ele logo aprendeu a gostar da cidade.
Passados dois anos, David percebeu que sua função na verdade se resumia a cortejar atletas e convidar pessoas para almoçar. "Se aos 25 anos é essa a sua preocupação, alguma coisa está errada". Mais uma vez, David largou tudo e voltou para Barcelona, onde abriu um estúdio de criação. Quando as exigências do mercado fizeram com que tivesse que abrir concessões em seu projeto inicial, ele ficou descontente e decidiu fechar o estúdio depois de apenas um ano e meio para criar um novo projeto.
Foi quando nasceu a "ROJO", em 2001, com o objetivo de ser uma multiplataforma de lançamento de novos artistas, com revista, rádio e canal de televisão. "Criei o projeto para dar voz e lugar para novos artistas. A "ROJO" é meu alter ego". Na revista, David investiu tempo e dinheiro para criar um formato atemporal, sem intenção de fazer crítica de arte e com liberdade para publicar somente aquilo que fosse de seu interesse. "A "ROJO" é uma ilha à parte da mídia. Tentamos fazer arte construtiva, colorida. Não precisa de bula pra entender o que fazemos".
Morando hoje em São Paulo, casado com uma brasileira e pai de duas filhas, David concentra a parte criativa da "ROJO" em São Paulo, cidade que considera um dos principais centros artísticos do mundo, ao lado de Los Angeles. Dez anos depois de sua criação, seu projeto tem revista, site, bases de trabalho em Barcelona e Milão e uma rede de 23 galerias associadas. Ele prepara ainda o lançamento da ROJO filmes e pretende levar seu mais recente projeto, o NOVA, para os Estados Unidos e a Europa. E quando se cansar de tudo isso? Simples, voltará a pintar.
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