I’ll Be Your Mirror
Thomas Dozol
Quando ouvi falar de Thomas Dozol pela primeira vez, ele ainda estava fazendo as fotos do que viria a ser sua série “I´ll Be Your Mirror” (“Eu serei o seu espelho”). Fiz uma ideia vaga do que poderiam ser esses portraits. Depois, logo antes de ele mergulhar no laboratório para sair dali com a edição final, nós fomos apresentados. Esse processo gradual de aproximação deu um sentido especial para a exposição que fui conhecer pouco tempo depois. Se uma obra de arte carrega, inevitavelmente, a bagagem do artista, percebi como esta série imprime o toque delicado, o olhar agudo e o silêncio de Thomas. Quando se propõe a ser o espelho de seus objetos, ele o faz de forma tão particular que o trabalho retribui o gesto.
“Eu sempre acho estranho ligar pras pessoas e perguntar: ‘Posso ir até a tua casa te fotografar depois do banho?´”, diz Thomas. Ele foi chegando sorrateiro e, antes que alguém dissesse “não”, se instalou fora da sala de banho esperando ser chamado. Sem artefatos, apenas com sua câmera, sem dar instruções, Thomas compilou momentos de intimidade de seus amigos. A presença pontual de algumas figuras mais famosas faz toda a diferença: todo mundo está aqui em igualdade, com as mesmas armas (ou a ausência delas), despojado de artifícios, como o fotógrafo, em ações puras. Um homem com a pele cortada pela lâmina afiada ou gasta demais surge do lado do galã sem a luz favorável a lhe disfarçar as rugas. A amiga aparece envolta numa toalha, da mesma forma que a superstar seca os cabelos ainda sem maquiagem e sem Photoshop. Fosse a série composta de poucos retratos, a presença desses astros ficaria acima da obra. Mas, entre dezenas deles, tudo se dilui: a persona pública, os excessos, as aparências, retrabalhados pela presença purificadora da água e com a força da solidão necessária.
Por Diego de Godoy