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Fri: 10-29-10

+Matéria: Do Amor, por Luciano Matos

(Matéria publicada na +Soma 19/Sep-Out 2010. Baixe aqui ou descubra aqui onde conseguir uma.)  

Do Amor

Por Luciano Matos . Fotos por Caroline Bittencourt

Em sintonia com o que se tornou a música mundial dos anos 90 para cá, a banda carioca Do Amor vem se apresentando pelo Brasil há alguns anos e lançou seu disco de estreia de forma independente no último mês de julho. Apesar de ainda ser relativamente pouco conhecida, a Do Amor é formada por nomes que circulam na música brasileira já há bastante tempo: Gabriel Bubu (guitarra), que foi baixista do Los Hermanos durante boa parte de sua existência; Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo), integrantes da banda Cê, que acompanha Caetano Veloso desde 2006; e Gustavo Benjão (guitarra), que tocou com artistas de diferentes estilos, especialmente no Rio de Janeiro.

Os quatro pertencem a uma geração formada por influências díspares, que passam pela MPB mais tradicional, mas também pelo rock nacional dos anos 80 e pela música pop internacional, sem deixar de lado uma enormidade de referências independentes. Como bons cariocas, porém, eles foram influenciados de forma decisiva por duas bandas seminais da cena local: Mulheres que Dizem Sim e Acabou La Tequila. "Cada um tem sua influência: eu e o Marcelo somos mais do rock - o Marcelo curte uma rock mais sessentista, Bob Dylan. Ricardo ouve punk de épocas diferentes, e o Benjão tem o lance com afro beat", explica Bubu. Mas o som da banda inclui também coisas bem menos óbvias. "Tem um elemento meio dançante, que flerta com músicas regionais, axé, carimbó, influências adquiridas na estrada que acabam sendo uma maneira de a gente se aproximar do público."

Esse passeio por diferentes ritmos é uma das facetas mais aparentes e interessantes do grupo. Sem intenção de reinventar nada, a banda incorporou de forma bastante particular os sons que foram captando em viagens pelo Brasil. O humor no trato com os clichês do rock é outra marca característica, que às vezes chega até a soar estranha aos desavisados. Mas o grande trunfo da banda é sua capacidade de criar um pop brasileiro autenticamente atual.

O início

A origem de tudo está em outra banda, a Carne de Segunda, que atuou no underground carioca na virada dos 90/00. No grupo, Gabriel Bubu e Gustavo Benjão já misturavam referências de forma peculiar. Algumas das músicas tocadas pela Do Amor, inclusive, já faziam parte do repertório da Carne de Segunda, como "Morena Russa" e "Pepeu Baixou em Mim".
A Do Amor só foi formada de fato em 2006, com Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes se juntando a Benjão e Bubu. "A Do Amor é uma banda em que todos compõem juntos, não há uma liderança. A gente é amigo há muitos anos e já tem uma convivência musical grande", garante Bubu. Talvez por isso o quarteto seja requisitado constantemente para acompanhar artistas como Nina Becker, Jonas Sá, Rubinho Jacobina e Lucas Santtana.

Apesar de carioca, a Do Amor tem uma ligação especial com a Bahia - é uma das poucas bandas nacionais a assumir a influência do proto-axé, de nomes como Luiz Caldas, Banda Reflexu's e dos blocos afro. Foi lá também que eles se apresentaram pela primeira vez fora do Rio de Janeiro, motivo pelo qual resolveram incluir uma música no repertório, "Pepeu Baixou em Mim", que acabou virando um dos hits do grupo. "A gente resgatou essa música quando foi tocar em Salvador. Fiquei matutando e comecei a fazer uma versão mais afoxé. Fizemos o arranjo todo em um ensaio, e ela tomou outra proporção", revela o guitarrista.

O disco

A faixa é um dos destaques de "Do Amor", o disco, que demorou um bom tempo para ser finalizado e só chegou às lojas em meados deste ano. "Fizemos no período entre 2008 até o meio de 2009. Na primeira parte, gravamos bases, bateria, baixo e guitarra, mais ou menos nessa ordem", explica Gabriel. Com Marcelo e Ricardo na turnê de Caetano Veloso, a banda teve que dar uma pausa na gravação. "Em 2009, algumas coisas foram refeitas e, depois de fechar as vozes, fomos aos detalhes, ideias que a gente só conseguiu ter por conta do processo longo de gravação."

Com produção de Chico Neves (O Rappa, Los Hermanos, Skank), o álbum tem 14 faixas e é um exemplo bem acabado da personalidade da banda. As três primeiras faixas - "Vem me dar", "Chalé" e "Morena Russa" - sintetizam bem seu pop essencialmente brasileiro, com composições caprichadas, que ficam gravadas na cabeça.
O primeiro som do disco é o latido da cadela de Chico Neves na faixa "Vem me Dar", que num clima relaxado prepara o ouvinte para o que está por vir. Guitarra e baixo trabalham juntos em uma base que remete à música africana, enquanto o vocal quase preguiçoso de Benjão conduz a letra com segurança até o belo solo final. Um pouco mais agitada, "Chalé" traz teclados e clima festivo, com Ricardo nos vocais e as guitarras gritando. Já "Morena Russa" é um sambinha levado na guitarra, com corinho e clima amoroso.

No decorrer do álbum aparecem também ecos dos anos 80, como em "Homem Bicho", com direito a efeitos eletrônicos e um flerte com a disco music. O ótimo afoxé-frevo "Pepeu Baixou em Mim" faz alusão à música baiana pré-explosão da axé music, com percussão discreta e balanço de trio elétrico. Outra que revisita os carnavais baianos das antigas, mas de forma menos direta, é a deliciosa "Perdizes", com groove ultra dançante e guitarrinha lambadeira que compõem uma das melhores faixas do álbum. O carimbó, a guitarrada e a lambada dão o tom em "Isso é Carimbó", que traz o tempero do Pará para o baile Do Amor.

O rock marca presença em "Shop Chop", "I Picture My Self", "Exploit" e "Dar uma Banda", nas quais o quarteto visita com humor os clichês do gênero, como os agudos do heavy metal. Existe espaço até para um ska-dub safado em inglês, "Brainy Dayz". Com seu jeito todo particular de falar de amor, a banda faz também uma homenagem à música romântica em "Meu Corpo Ali". E, para fechar o álbum, há uma versão surpreendente de "Lindo Lago do Amor", de Gonzaguinha - algo entre um eletro demente e uma disco-MPB.

Uma cozinha suingada, um interessante trabalho de guitarras - que passeiam por reggae, ijexá, fricote, ska e rock sem nenhum estranhamento - aliado a vocais despretensiosos, antivirtuosos, quase desleixados, e arranjos cuidadosos, repleto de detalhes. Tudo isso a serviço de músicas bem-feitas e bem-humoradas. Um som para levantar qualquer astral.

Saiba mais:
myspace.com/doamor