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Thu: 01-07-10

+Soma 15 . Cinema em Grupo

Por Lauro Mesquita . Imagens Divulgação

Existe um cinema novíssimo sendo feito no Brasil. Uma produção que acontece fora do eixo Rio-São Paulo e é coletiva. Os grupos realizam filmes, organizam mostras, promovem debates e publicam suas reflexões sobre o audiovisual. Ao contrário das produtoras independentes da tal “retomada do cinema brasileiro dos anos 1990”, a ideia não é criar para o mercado televisivo de sempre e nem levar a estética das propagandas e dos filmões hollywoodianos para as telas refrigeradas brasileiras.

A +Soma conversou com pessoas de três desses coletivos: Alumbramento, de Fortaleza, Filmes de Quintal e Teia, ambos de BH. Em todos eles, o entusiasmo com a nova produção audiovisual brasileira é grande. O trabalho em conjunto – apesar de todas as dificuldades administrativas e de organização – é encarado como a melhor possibilidade de produzir um cinema independente mais barato e menos atrelado aos sabores do mercado. “Os grupos garantem as condições de produzir trabalhos autorais com independência. A vantagem é que a gente consegue fazer muitas coisas sem tanto dinheiro”, explica Junia Torres, antropóloga, documentarista e uma das integrantes da Filmes de Quintal.

A organização em coletivos, como explica Clarissa Campolina, diretora e montadora da Teia, também oferece a possibilidade de trabalhar fora de um esquema cruel, que acaba arrastando os profissionais do cinema para a publicidade e outros trabalhos comerciais. Para o diretor cearense Ivo Lopes Araújo, do Alumbramento, além da questão dos custos, “Esse nosso trabalho em grupo acaba potencializando o que a gente tem de melhor”. Ivo, que também trabalha como diretor de fotografia, explica: “Quando é um filme no esquema mais tradicional, cada pessoa cumpre seu papel e a equipe técnica acaba não tomando muito parte do processo criativo dos filmes. É tudo muito especializado, bem no esquema de indústria. Quando a gente faz em conjunto não há como escapar. Todo mundo cria, interfere, mesmo que respeitando a vontade do diretor”.

Todos os três coletivos já têm um currículo com muitos filmes. Para se ter uma idéia, no Alumbramento, só os irmãos Ricardo e Luiz Pretti – conhecidos pelo furor criativo – já produziram mais de quatro filmes este ano. Um deles, o longa Rumo, foi totalmente captado com imagens de celular. Os filmes em geral são feitos com verbas dos editais que se multiplicam pelos estados e municípios ou com a cara e a coragem. É por isso que quase sempre as equipes são pequenas e as ideias na cabeça, bem grandes.

As produções não estão no circuito comercial: são exibidas nos mais de 150 festivais de cinema no Brasil, em mostras, universidades, cineclubes e outros espaços que raramente contam com bilheterias ou lanterninhas. “O Alexandre Veras (diretor cearense que é uma espécie de mentor do Alumbramento) faz um cálculo do número de salas de aula em que ele exibiu o filme dele, Vilas Volantes, e de acordo com os números o público do filme já é bem maior do que o de muitos festivais e filmes em circuito comercial. Porque o que mais tem é sala de cinema vazia”, diz Fred Benevides, montador e um dos diretores do Alumbramento.

E é nesse circuito que os filmes começam a fazer barulho. Radical e sem nenhuma concessão, o longa Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo, foi o vencedor do prêmio do júri jovem do último festival de cinema de Tiradentes. Aboio, primeiro longa-metragem de Marília Rocha, da Teia, recebeu o prêmio de melhor filme brasileiro no É Tudo Verdade em 2005. Já Trecho, de Clarissa Campolina e Helvécio Martins, também da Teia, recebeu os prêmios de curta-metragem, fotografia e montagem no festival de Brasília no ano seguinte. Outros trabalhos seguem recebendo prêmios e sendo discutidos em vários eventos no Brasil. Eles se reproduzem pela Internet e em DVDs copiados nas faculdades e entre os jovens cinéfilos. Mas, para além disso, esses coletivos têm construído uma nova dinâmica de produção, em que os filmes e o pensamento sobre cinema andam de mãos dadas, sem formalismo e de maneira absolutamente natural.

Em Minas Gerais e no Ceará, a preocupação com filmes mais livres, em que o processo de realização é tão importante quanto o produto final, é cada vez mais forte em termos de produção e de público. Muito diferentes entre si, os três grupos parecem ter pontos comuns muito fortes: o primeiro deles é a vontade de pensar através dos filmes que fazem ou assistem. Os filmes ainda propõem uma relação mais direta entre a tela e a vida das pessoas.

Filmes de Quintal

A Filmes de Quintal tem um papel importante nisso. O grupo vai além dos filmes e nasceu para explorar o diálogo constante entre cinema e antropologia. O Forumdoc.bh é a produção mais vistosa deles. Organizado desde 1997, o evento, que carrega o subtítulo de Festival do Filme Documentário e Etnográfico, é reconhecidamente um dos espaços mais ricos de discussão sobre antropologia, documentário e cinema com proposta estética mais inovadora. “Criamos o Forumdoc pra assistir aos filmes que a gente não via. Até hoje é um pouco assim”, diz Junia. Doze anos depois, o festival extrapola Belo Horizonte e vai a várias cidades do interior de Minas e grandes centros como São Paulo. Na capital mineira, arrasta multidões. A programação conta com um público majoritariamente jovem. As mostras não se fecham no documentário etnográfico. “Tem muita ficção e filmes experimentais que carregam reflexões parecidas com a do documentário”, diz Junia.

A Filmes de Quintal ainda produz e publica livros, e o catálogo do festival se tornou uma referência bibliográfica sobre cinema e humanidades. Um exemplo disso é a caixa Imagem-Corpo-Verdade: Trânsito de Saberes Maxakali, que traz livros e DVDs com mais de seis horas de imagens de cantos gravados durante cerimônias rituais. “É a primeira vez que se publica no Brasil um repertório inteiro de ritual indígena, sem cortes”, destaca Rafael Barros, também da Filmes de Quintal. Nessa variedade de trabalhos, cada membro do coletivo contribui como pode. A união desse monte de gente que pensa as coisas sob um ponto de vista específico faz toda a diferença, que se reflete no ver e no fazer. “A coisa da interdisciplinaridade é fundamental na Filmes de Quintal”, diz Paulo Maia, antropólogo e um dos fundadores do grupo mineiro. “Tem antropólogo, escritor, artista plástico, diretor de filmes, todos com interesses muito diferentes no cinema, e isso é uma das nossas riquezas.”

A Filmes também já promoveu oficinas com os jovens das aldeias Maxacali, do Vale do Mucuri, em Minas Gerais, e com os Caxixó, da região metropolitana de BH. Alguns dos resultados são os documentários Caçando Capivara, Acordar do Dia e o longa Tatakox Vila Nova, realizados pelos Maxacali, e Casca do chão, realizados pelos Caxixó. Reforçando essa vocação, a Filmes elaborou um projeto para se tornar um ponto de cultura e inaugurou um cineclube, que exibirá semanalmente parte do enorme acervo de filmes que já passou pelo Forumdoc.

Apesar de muito heterogêneas, as obras produzidas pelo grupo têm um interesse grande pelo que Junia define como filme etnográfico: “são filmes que partilham uma relação de aproximação entre quem filma e quem é filmado”. Isso pode ser visto em Pelos Olhos de Mariquinha, de Cláudia Mesquita e Junia Torres, Agosto de Minha Gente, de Ruben Caixeta, Roda, de Carla Maia, Memórias de Um Tipógrafo Partideiro, de Pedro Portella, e em muitos outros títulos produzidos pelo núcleo.

A Filmes de Quintal também produz filmes com outros diretores mineiros, como Tiago Mata Machado e Affonso Uchoa. “Ao longo do tempo, muita gente do cinema daqui participou do Fórum com assiduidade. Gente como o Cao Guimarães, a Marília Rocha, o Leandro HBL não são do coletivo, mas têm muitos interesses em comum com a gente”, explica Paulo Maia.

Teia

Vários dos filmes produzidos pela Teia foram exibidos no Forumdoc, e muitos dos seus realizadores estão entre a plateia cativa do Festival. A já citada Marília Rocha foi até curadora de uma das mostras do festival em 2007. O coletivo surgiu quando os seis jovens realizadores resolveram dividir as salas de uma antiga e espaçosa casa na Zona Oeste de Belo Horizonte. Todos eles eram envolvidos com linguagens audiovisuais, mas cada um tinha uma perspectiva diferente. “Quando nos juntamos na casa, muita gente achava que não podia dar certo. Afinal, somos todos realizadores e cada um tem o seu projeto. O curioso foi que a coisa funcionou justamente por causa dessas diferenças”, diz Leonardo Barcelos, diretor de vídeos experimentais, VJ e integrante da Teia.

De acordo com Clarissa e Leonardo, as produções não são necessariamente desenvolvidas em conjunto, mas, com a proximidade dentro da casa, é inevitável que a opinião dos outros interfira no resultado final. O grupo ainda é bastante ativo na cena dos jovens realizadores e neste ano organizou um grande evento justamente para discutir o cinema brasileiro mais autoral. A mostra Tecer teve curadoria de Sérgio Borges e Clarissa Campolina, da Teia, e do professor André Brasil, da PUC-MG. “No Brasil, existe muito festival de cinema, mas pouco espaço pro debate da produção audiovisual. O projeto a princípio foi uma maneira de criar uma discussão acerca dessa nova produção”, explica Clarissa.

No encerramento do Tecer, o documentarista João Moreira Salles desistiu de falar sobre sua filmografia e preferiu perguntar à plateia: “por que Minas Gerais tem uma filmografia tão singular e diferente do resto do Brasil?” O silêncio da plateia e da mesa durou longos segundos e mostrou que a resposta não era fácil. Sem dúvida, o estado parece ser um dos poucos lugares onde cineastas e pensadores como Jean Louis Commolli, Pedro Costa e documentaristas como Jean Rouch parecem ter mais público e adesão do que em qualquer outro lugar no país. “BH não tem uma indústria de produção. Esse é um fator que propicia um ambiente adequado para produções menores, um ‘cinema de cozinha’”, diz Clarissa, citando a expressão de Cao Guimarães. A diretora ainda aponta a proximidade dos realizadores com a universidade e a tradição de eventos de cinema na capital mineira como fatores decisivos para esse debate profundo sobre o audiovisual.

Alumbramento

Talvez tenha sido esse mesmo tipo de ambiente que estimulou a criação do Alumbramento, em Fortaleza. Em nenhum dos grupos a expressão comunidade pode ser mais bem aplicada. Até dois anos atrás, quase todos os seus treze integrantes dividiam o mesmo espaço no Sítio Sabiá, em Sabiaguaba, 30 km a leste de Fortaleza. Os primeiros filmes feitos pelo grupo – antes mesmo que ele existisse formalmente – como Sábado à Noite, de Ivo Lopes Araújo, surgiram nas reuniões nesse lugar. Essa convivência intensiva também se repetiu no longa Praia do Futuro, em que quinze curta-metragens são exibidos em sequência e sem divisão entre um e outro.

Os integrantes do Alumbramento se conheceram no Espaço Cultural Alpendre, um centro de referência em dança, cinema e artes visuais na capital cearense. O espaço é capitaneado ainda hoje pelo professor e diretor Alexandre Veras. Essa convivência em parte se aprofundou nos cursos da Escola do Audiovisual da Vila das Artes, de Fortaleza, e depois na produção de Vilas Volantes, do próprio Veras. “Esse longa era do Alpendre, não tinha nada formalizado, mas foi quando começamos a trabalhar todos juntos”, conta Fred Benevides.

O grupo tinha crescido no Alpendre com influência decisiva da volta de Ivo Lopes Araújo ao Ceará e a chegada dos gêmeos cariocas Ricardo e Luiz Pretti que, segundo o jornalista carioca Marcelo Ikeda, do blog Cinecasulofilia, “desistiram da politicagem mauricinha do cinema carioca e desembocaram em Sabiaguaba, bairro interiorano de Fortaleza”. A produção segue em velocidade total e hoje envolve mais de trinta pessoas. “Eu já nem sei quem é e quem não é do Alumbramento. A coisa funciona coletivamente mesmo, e isso é muito bom”, diz Ivo.

Além da produção coletiva, outra tônica do Alumbramento é a intervenção na cidade de Fortaleza e no estado do Ceará. Os filmes falam bastante da localidade dos cineastas, em todos os projetos já citados e em outros como As Corujas, Road Movie ou Longa Vida ao Cinema Cearense. A dinâmica, no entanto, funciona de maneira mais radical em projetos como Livro Livre e Supermemórias. No primeiro, o grupo espalhou cem exemplares de um livro de cem páginas em branco e acompanhou sua trajetória em filme. Dessas cópias, só uma voltou para a exposição, onde todos os registros eram exibidos simultaneamente.

Toda semana, o grupo ainda promove um cineclube na escola da Vila das Artes, convidando um realizador independente para exibir e discutir seu filme. “Os debates têm duas horas e meia e continuam depois nos bares e na casa do pessoal”, diz Fred. Essa relação se ampliou na última edição do Festival UFC de Cultura, que contou com representantes de coletivos como Símio e Trincheira, de Recife, Teia, de Belo Horizonte, e outros do Rio, de São Paulo, da Paraíba e do Piauí. “Foi bem bacana o encontro. Parecia que faltava ligar uns pontos pra gente integrar essa produção nacionalmente”, conta Fred Benevides. O grupo ainda pensa em um projeto de residência artística colaborativo que rode Ceará, Paraíba, Pernambuco e Minas. “A ideia é tentar criar uma rede em que as pessoas exibam seus filmes nesses estados e interfiram diretamente no processo artístico local”, explica o diretor, músico e técnico de som Danilo Carvalho. Essa articulação pode ser o pulo do gato para esse cinema, que já influencia realizadores e chega ao público mais especializado via mostras e festivais. “O público tem interesse nisso, só precisa chegar. O pessoal cansou do Homem-Aranha”, diz Fred Benevides.

 

Saiba Mais 

Alumbramento . revistaetcetera.com.br/24/sessao_cinema/index.php

Filmes de Quintal . filmesdequintal.org.br

Teia . teia.art.br