Por Mateus Potumati . Fotos Fernando Martins
Sentado à mesa em um restaurante de Goiânia, naquele que é provavelmente seu primeiro almoço decente no Brasil – no dia anterior, quando chegou, ele teve que se contentar com o aeroporto –, Dave Longstreth explica a seus colegas de banda, animado, os ingredientes dos pratos locais. O cardápio não é bilíngue, e ele não fala português, mas se sai surpreendentemente bem. Não pergunto para não interromper o momento, mas arrisco que a familiaridade com as palavras venha de seu grande interesse pela música brasileira. Semanas antes, pelo telefone, ele havia me dito que cresceu cercado por MPB e que já foi “fanático pelos discos de Tom Jobim e Caetano Veloso”. Não é por acaso que o Dirty Projectors escolheu o Brasil para encerrar a turnê de um ano memorável, em que saltou da condição de banda interessante, mas ainda um tanto hermética, para o posto de um dos grupos mais importantes e influentes da música norte-americana neste fim de década.
O salto se deu com o lançamento, em junho, de Bitte Orca (“bitte” do alemão “por favor”), que ampliou o estilo peculiar de composição de Longstreth em direção a um pop de vanguarda – algo como um indie-rock com déficit de atenção, que une de forma inteligente estilos como punk/pós-punk, no-wave, rock progressivo, música africana, r&b, hip-hop e a composição europeia contemporânea. Antropofagia tropicalista pura, versão Brooklyn do século XXI. Quando entrevistei Longstreth, horas antes de seu show no Goiânia Noise 2009, comentei que, na minha opinião, o Dirty Projectors fazia um som mais “brasileiro” do que a maioria das bandas do festival. “Vou encarar isso como um elogio”, ele disse, se divertindo com a ideia. Quatro dias depois, no final de seu show apoteótico em São Paulo, ele diria: “É uma honra para nós ter encerrado nossa turnê tocando para vocês. Os brasileiros são capazes de qualquer coisa. Vocês são o povo mais musical do mundo”.
Bitte Orca, sexto álbum do grupo (excluídos EPs e singles), fisgou pesos-pesados como David Byrne, Arto Lindsey e o já citado Caetano – que, para felicidade geral dos Projectors, compareceu ao show da banda no Rio de Janeiro. Em seu blog, Byrne disse: “A música deles tem elementos familiares, e mesmo assim muitas vezes soa como música pop feita por alguém que leu sobre a forma, mas nunca ouviu as músicas, e depois pegou os elementos básicos para compor. Mas isso não é verdade, porque Dave tem um conhecimento profundo sobre músicas e seus respectivos autores. Mesmo assim, o som da banda segue sendo completamente estranho e estranhamente familiar ao mesmo tempo”. Quem assistiu a algum show sabe que é como pagar por uma banda e ver umas 40 ao mesmo tempo. Muito disso é culpa de seu conjunto magnífico, formado por Amber Coffman (voz e guitarra), Angel Deradoorian (voz, teclados, guitarra e baixo), Brian Mcomber (bateria), Haley Dekle (voz) e Nat Baldwin (baixo). A dinâmica entre os seis gera resultados tão impressionantes – no disco e mais ainda ao vivo – que fica claro estarmos diante de um desses encontros que não acontecem com muita frequência.
Dave Longstreth falou com a +SOMA, na única entrevista que deu durante sua passagem pelo Brasil, depois de uma escapada para comprar vinis. Nacionais, é claro.
“Cannibal Resource” tem uma letra bastante forte sobre os problemas que o mundo vive hoje – que basicamente se resumem ao uso predatório dos recursos humanos e naturais –, e sobre a postura de cada um de nós a respeito. Ao mesmo tempo em que é pessimista, tem uma certa dose de esperança. É possível ficar bem com o mundo no ponto em que chegamos?
Não sei. Não sei dizer se os nossos dias estão definitivamente contados por conta do que fizemos com o clima. A consciência está aumentando, mas a responsabilidade não segue o mesmo ritmo. O planeta está irremediavelmente fodido? Não sei. O que é certo é que a forma como vivemos – ou melhor, como as Américas e a Europa vivem e o resto do mundo se inspira – não é sustentável, exige muito da Terra. Parece impossível pensar em melhorar a qualidade de vida na Terra com a população aumentando de forma tão acelerada como está agora. É mais lógico pensar em uma diminuição acelerada como fruto das nossas próprias ações.
Houve um ponto em que você decidiu partir de uma visão mais idiossincrática, como em Rise Above [disco de 2007 em que a banda faz uma releitura do clássico álbum punk Damaged, do Black Flag], para tratar de assuntos mais abrangentes como esse?
Até você ter colocado dessa forma eu não tinha pensado nisso, e talvez nunca pensasse em organizar as coisas sob essa lógica progressiva. Acho que a música tem a capacidade de falar sobre todos os tipos de coisas que encontramos pela frente na vida, e desde que comecei a compor é assim que eu penso. Mesmo Rise Above, que tem esse conceito mais idiossincrático, acho que trata de coisas tão amplas e universais como qualquer coisa no disco novo.
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Ainda falando sobre letras, “Stillness Is The Move” é inspirada em um diálogo de Asas do Desejo, do Win Wenders, que fala sobre um anjo que se apaixona por uma mulher e quer se tornar humano. É um filme importante pra você?
Eu não vi o filme, na verdade, porque não tive tempo. Mas queria ver e li a respeito, e parece o tipo de filme com o qual a Amber [Coffman, vocalista, para quem Longstreth compôs a música] se identificaria muito. Aí, como uma forma de assistir sem assistir, pedi a ela para lembrar as frases do filme que mais chamaram sua atenção e elas foram inseridas no esqueleto vocal, que já existia.
Um pouco parecido com o que você fez em Rise Above.
Isso, um pouco.
O que na história se parece com a Amber, para você?
Eu sei só o básico do roteiro: um anjo se apaixona por uma mulher e quer se tornar humano, com todas as imperfeições. É uma história bonita. É difícil verbalizar, mas a Amber é uma pessoa muito apaixonada. As primeiras frases vão do ponto mais grave do alcance vocal dela, e os vocalises no final atingem as notas mais agudas, então também é feito pra ela nesse sentido. E o clima r&b da música também é totalmente pensado nela. A Amber ouvia muito esse tipo de música quando era adolescente.
Acho interessante a forma incomum como você encaixa os acentos das palavras nessa música. Às vezes é como se a criança do começo da letra estivesse cantando, tentando encaixar no ritmo coisas que ela acabou de inventar. Eu não ousaria cantar aqui agora, mas você sabe do que eu estou falando, não?
(Risos) Sei, sim. Obrigado pelo comentário. Não sei explicar, é minha forma de compor. Tentar encaixar música e ideias verbais.
Gosto de um verso em “Temecula Sunrise” em que você canta “I know the horizon is bright and motionless/ Like an EKG of a dying woman” (“Sei que o horizonte é brilhante e imóvel/ Como o eletrocardiograma de uma mulher que está morrendo”). É trágico, mas ao mesmo tempo tem uma ironia.
Nos EUA, muita gente muda para o Sul quando fica velha e se aposenta, porque lá é quente. Como na Flórida, no Sudoeste ou no Sul da Califórnia. Isso é uma coisa. E a outra é que a primeira vez que passamos de carro pela região de Temecula (cidade ao sul da Califórnia, próxima a San Diego), durante a primeira turnê de Rise Above, uma garota chamada Susanna [Waiche], que canta no disco com Amber e é de San Diego, ficou surpresa com o desenvolvimento, as casas novas. Ela dizia “nossa, lembro de vir aqui quando era criança, na primavera, com a minha avó, fazer piquenique na colina, entre os arbustos”. Acho que pensei na imagem da avó dela, velha, morrendo no deserto.
Você fala sobre morte aí e em “Cannibal Resource”. Acha que há uma ligação entre as duas nesse sentido, de começar a sentir de forma mais concreta a proximidade da morte?
Talvez. “Temecula Sunrise” também é uma música sobre o fim do mundo, à sua maneira. Certamente sobre o fim dos EUA. Faz sentido estabelecer essa ligação. Os EUA estão perto do fim, isso é muito visível agora. O espírito está cansado – o espírito da nação, da democracia participativa. Não há muita inspiração hoje, as pessoas não percebem que têm o poder de mudar as coisas.
Um ano atrás, com Obama, estava um pouco diferente.
O Obama é um cara incrivelmente carismático, e depois do Bush nós todos levantamos a cabeça e percebemos que precisávamos de alguma mudança nominal. Mas estou falando... Sinto que o tipo de mudança que produz um crescimento recíproco real é a soma das tarefas pequenas que as pessoas realizam em sua vida diária. Algo para poupar energia, usar menos água, menos papel, gerar menos lixo, esse tipo de coisa.
Muito pouca gente faz isso.
Exato. Mas se você tiver 35 milhões de pessoas mudando seus hábitos cotidianos, para fazer algo... O que me preocupa sobre consciência ecológica nos EUA é que ela tem um aspecto fetichista. As grandes empresas estão na onda de se definirem como “verdes”. É a palavra da moda, e eu não sei até que ponto os produtos [dessas empresas] são diferentes do que já temos disponível. Por outro lado, a História é muito extensa. A janela de 23 anos de consciência que eu tive até agora (o músico tem 27 anos) é muito pequena para julgar o cenário inteiro. Na história do meu país, houve outras vezes em que a nação e a União estiveram fracas, e as pessoas choraram pelo fim dos EUA da mesma forma que fazem agora. Então, não sei. Realmente não sei. Mas acho que nós realmente precisamos mudar as coisas.
Você faz alguma coisa para ajudar, na sua vida diária?
(Pensativo) Tento usar menos papel. Mas não estou envolvido em nenhuma forma de ativismo. E, claro, nós [gastamos muita energia] nos locomovendo o tempo todo de avião e van em turnê. É difícil conciliar ações com crenças.
O que você acha de pessoas como Thom Yorke e Bono, que criaram essa persona pública imensa, ativista e às vezes caricata? Sem levar em conta o que você pensa da música deles.
Você diz a posição do rockstar como um tipo de autoridade social, uma persona em prol do ativismo? Especificamente em relação ao meio-ambiente? Em princípio, acho legal. [É legal] usar a plataforma que eles têm para atrair atenção a uma área tão importante. Acho ótimo, na verdade. Acho que o Bono tem feito um trabalho imenso na África, em relação à AIDS, ao perdão da dívida externa. É algo grande demais para ser realizado por um homem só. Por outro lado, não sei muito a respeito, talvez seja cheio de furos e eu não esteja ciente de tudo. O mesmo vale para Thom Yorke. Há uma linha nebulosa entre ser consciente, chato e hipócrita, de certa forma, porque ambos usam caminhões imensos – 50, 100 por show – e levam centenas de milhares de pessoas, que às vezes dirigem duas horas, até arenas gigantes. É difícil não se tornar uma força desse tamanho na Terra, com um impacto ambiental tão grande, quando sua música é tão conhecida.
Uma escritora brasileira, Hilda Hilst, diz em um de seus livros que “os gigantes devem ser mortos porque são gigantescos”.
Há uma certa aura revolucionária por trás dessa frase, uma força, uma intensidade agressiva na forma como essa escritora colocou a coisa. Em geral, penso que gigantes tendem a tropeçar, cair e quebrar o pescoço por si próprios. Não é necessariamente preciso acabar com eles.
Como na história do sonho de Nabucodonosor, na Bíblia, em que ele é uma estátua com pés de barro.
Não conheço isso, em que parte da Bíblia é?
No livro de Daniel, acho. A estátua é gigante, com cabeça de ouro etc., mas os pés são de barro. Aí uma pedra gigante cai do céu bem nos pés e derruba tudo. A interpretação bíblica tem a ver com o futuro do judaísmo, a chegada de Cristo e tal, mas independentemente disso é uma imagem interessante.
Oh, eu não sabia disso. Parece legal, vou procurar me informar. Acho que isso costuma acontecer com muita frequência.
A sua voz foi uma das mais influentes na música americana este ano. Você se imagina crescendo a ponto de estar em uma posição parecida no futuro?
Não sei. Foi um grande ano para nós, fizemos uma turnê muito extensa, o público nos nossos shows é muito maior do que antes. Mas eu ainda me sinto como se o nível de relacionamento fosse de pessoa para pessoa. É difícil imaginar qualquer banda ou artista hoje ocupando o espaço cultural que aquelas bandas tiveram no passado, porque tudo é bem menor. É uma ótima época para fazer música, os discos não são mais posicionados como produtos como antes, não há praticamente mais interesse em discos como produtos. Por isso, estamos provavelmente mais livres do que nunca para criar o que quisermos.
Sem contar que dez, quinze anos atrás seria inimaginável uma banda como vocês tocando no Brasil.
Com certeza. Todos nós na banda sabemos que temos muita sorte por estarmos onde estamos hoje, e por podermos tocar no Brasil. Somos muito gratos por isso. É a primeira vez de todo mundo, estamos todos muito empolgados.
Escute:
www.myspace.com/dirtyprojectors
Leia a resenha do show do Dirty Projectos que rolou no Goiânia Noise aqui.