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Fri: 01-15-10

Exposição Virtual: FOTOS EM XADREZ

Por Marcos Diego

Em 1983, Michael Lavine tinha 19 anos e vontade de trabalhar com animações. Morador da então pacata Seattle, onde nada de muita relevância acontecia, era o fotógrafo da turma de skatistas, músicos e jovens que gastavam o tempo procurando algo para fazer. Mal sabia ele que, ao registrar esses grupos, documentava o surgimento de um dos momentos centrais no rock dos anos 1990. Agora, 26 anos depois, lança Grunge, com prefácio de Thurston Moore, em que mostra – em preto e branco – as bandas e as “pessoas comuns” que, influenciadas por heavy metal, punk e hardcore, mostravam em seu jeito de vestir e agir a mistura que mais tarde levou grupos como Nirvana, Mudhoney e Pearl Jam à fama internacional.  

Quando você decidiu ser fotógrafo profissional?
Comecei a trabalhar em 1987, mas já fotografava bem antes, quando estava na escola. Acho que ganhei a primeira câmera aos 10 anos. Fotografava por hobby, e foi nessa época que fiz as primeiras fotos do livro.

Se você não fosse fotógrafo, seria o quê?
Eu estava decidido a estudar animação. Era o que eu gostaria de fazer, mas na última hora mudei de ideia e troquei as aulas de animação por fotografia. Sempre quis ser animador.

Quais são suas recordações da Seattle pré-grunge?
Eu me mudei de Seattle para Nova York em 1985, então não me lembro exatamente do estilo de vida da cidade nessa época. O que eu me lembro é da música que veio de lá quando eu trabalhava para o escritório da Sub Pop aqui em Nova York. As bandas vinham de lá e eu as fotografava. Mas, sobre as coisas que mudaram, acho que foi uma questão de conscientização. As pessoas tomaram consciência da cena musical que existia por lá, e de uma hora para a outra o mundo inteiro ficou sabendo. Foi muito louco. Porque antes era uma cena muito pequena e independente, underground, em que todos se conheciam. Aí o Nirvana apareceu com “Smells Like Teen Spirit”, explodiu no mainstream, e de repente todos estavam envolvidos. Foi chocante para quem vivia isso, algo difícil de lidar.   

O que mudou na sua vida depois da explosão do grunge?
Não sei. Acho que foi uma sensação de perda, de que a nossa comunidade havia sido de certa forma destruída. Mas, ao mesmo tempo, sem isso eu não teria conhecido as pessoas que conheci. Então é uma sensação amarga e doce ao mesmo tempo. Agora, a ideia do livro foi mesmo pontuar o fato de que o grunge não foi exatamente o que as pessoas pensam que foi. Esse livro é a minha visão pessoal, minha versão pessoal, sobre o que foi o grunge. Não é um livro sobre sua história definitiva.

E o que é o grunge para você?
Grunge foi o rótulo dado pela imprensa tradicional para um amplo leque estilo musicais que estavam rolando por todo o país. Eles basicamente juntaram algumas bandas de metal e punk sob esse rótulo. Não significa muita coisa, na verdade. É só um nome que alguém deu a uma cena muito diferente do que as pessoas imaginavam. As fotos ficaram no meu armário por 25 anos, e acho que é uma boa hora para olhar para trás e ver o que aconteceu de verdade. Existem muitos mal-entendidos e [o livro] é uma forma de redefinir, esclarecer e ajudar as pessoas a entender o que rolava por lá.


Você é uma espécie de Bob Gruen do grunge. Concorda com isso?

(Risos) Eu conheci o Bob Gruen, e talvez ele não goste dessa comparação. Ele e o trabalho dele são uma grande influência, mas acho que para chegar lá ainda preciso ganhar mais alguns cabelos brancos.
As primeiras fotos do livro mostram jovens de Seattle e Olympia em 1983 vestidos sob influências de estilos variados.

De onde vinha isso?  
Não existia internet naquela época, então as pessoas queriam se expressar de diferentes formas – para questionar a autoridade, por exemplo. É uma espécie de tradição usar roupas para enfrentar o sistema, se afirmar. Seja qual for a orientação política, isso ajuda a identificar grupos diferentes. Naquela época, em Seattle, a cena underground era bem pequena, e a música que se ouvia em geral era da Costa Oeste, de Londres, Nova York. O pessoal de lá acabou misturando todos os estilos e criou sua própria versão, que é o que as pessoas no mundo chamam hoje de grunge. Você pega pop, heavy metal, mods, skinheads, todos os tipos de rebeldia e transforma nisso. O som de Seattle também dizia isto naquela época: “nós não queremos ver The Go Go’s”, ou seja lá o que fosse o mainstream em 1983. Havia muitas bandas de heavy metal e new wave ruins, a política estava ruim, era o Rock Against Reagan, então a união chegava à esfera política também.

Como você fazia para capturar momentos espontâneos das bandas, como o Mudhoney? Você era amigo dos músicos?
No caso específico do Mudhoney, eu ainda não os conhecia. Mas eu acho que, por causa da minha amizade com o Bruce [Pavitt], chefe da Sub Pop, todo mundo era amigo de alguém, então havia um certo conforto nas relações. E essa é um dos segredos para se tornar um bom fotógrafo. Se você se sente à vontade perto de mim, você me escuta, e fotografar se torna mais natural.  

Mas ser amigo da banda é importante para conseguir uma boa foto?
Não, de jeito nenhum. Às vezes pode ser um problema, se você ficar conversando e não se concentrar no trabalho. (risos)

O prefácio do seu livro é do Thurston Moore. Como ele entrou na história?
A ideia inicial do livro foi dele. Ele é meu amigo há muitos anos, meu vizinho, e um dia, há uns dez anos, perguntou por que eu não fazia um livro. Há quatro anos, novamente, ele lembrou da ideia. Demorou três anos para que o livro ficasse pronto, o processo de seleção e compilação foi bem longo.

Qual foi a banda mais difícil de fotografar?
A mais difícil? Sonic Youth. (risos) Porque eles são difíceis, um pé no saco. [Folheando o livro] Nirvana foi explosivo, Pearl Jam foi ok, Soundgarden eu fotografei um milhão de vezes e todas renderam ótimas imagens, Butthole Surfers também... Vou te dizer, a maior parte das pessoas é fácil de fotografar, você raramente encontra alguém difícil. Até a Courtney Love não é assim, ela é divertida. Quer dizer, ela pode dar uma de louca de uma hora pra outra, mas sempre foi divertida.

Pensei que sua resposta seria Kurt Cobain. Como era o relacionamento entre vocês?
Pois é, Kurt não foi difícil comigo porque era meu amigo. Ele me respeitava, eu acho, então foi uma boa relação de trabalho.

O que, para você, fez dele alguém tão especial?
Se eu soubesse responder isso, estaria rico! (risos) Nós não sabemos. Ele vivia em Seattle, e é uma coisa mágica, é magia! Se você está numa sala com um cara desses, ele é só mais um, uma pessoa doce e amável. É exatamente como você e seus amigos. Quer dizer, ninguém sabia que o cara ia se tornar uma lenda. Ele era apenas um de nós.

Qual é o seu álbum favorito daquela época?
Daydream Nation, do Sonic Youth. É um disco forte. Eu trabalhei nele e sinto sua força até hoje.

O que você faz hoje em dia?
Tenho um grupo de pessoas que eu fotografo e um trabalho com vídeo também. Acabei de finalizar o videoclipe do Heavy Trash, a banda nova do Jon Spencer. Trabalho também com a Cher, a Miley Cirus, fiz as promos para o álbum do TV on the Radio. Trabalho também para algumas emissoras, como a Fox.

E o que você tem ouvido?
Muitas coisas. Peguei o Them Crooked Vultures recentemente, gosto também do Spoon e do Heavy Trash. Já ouviu Fever Ray? É uma garota sueca que tocou no The Knife e não sai do meu som. Não é rock, é algo mais viajante.  

Qual é sua melhor foto, na sua opinião?
Todas possuem uma história, mas fiquei muito feliz que as fotos dos jovens na rua tenham saído. Porque acho que ninguém conhece de verdade esse lado de Seattle. Tempos atrás recebi um e-mail de uma das fotografadas em 1983, dizendo que o livro era o anuário escolar que ela nunca teve.    

Você planeja uma segunda edição do livro, ou outro com alguma banda específica?
O livro tem uma versão em cores, que é completamente diferente. Fiz algo parecido no meu outro livro, Noise From the Underground: A Secret History of Alternative Rock (Fireside), lançado há 10 anos e que tem diversas bandas, de 1986 a 1996.