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Thu: 09-10-09

People Under The Stairs no Espaço +Soma em Outubro . Veja Entrevista Exclusiva

-A notícia já circulou pela internet ontem e pode acreditar: em outubro o People Under The Stairs toca mesmo no Espaço +Soma. Um dos principais nomes do rap underground norte-americano, o duo de Los Angeles/São Fancisco faz dois shows aqui, nos dias 24 e 25 (sábado e domingo). Os ingressos custam R$ 30 e é prudente correr, porque são limitados a 300 em cada noite. Eles estarão à venda a partir de 25 de setembro aqui na nossa loja (Rua Fidalga 98, Vila Madalena - telefone 11 3031 7945).

O PUTS começou a ficar conhecido no final dos anos 1990, com seu memorável disco de estreia The Next Step, que trouxe faixas já clássicas como "Mid-City Fiesta", "Los Angeles Daze" e, principalmente, "San Francisco Knights". Depois de uma turnê com o De La Soul, o duo se firmou como um dos principais herdeiros dessa linhagem do hip-hop, ao lado de Jurassic 5, Edan e outros. Confira a seguir a entrevista feita por Daniel Tamenpi com o People Under The Stairs, publicada também na +Soma 13 (que você pode baixar na faixa e sem culpa aqui).

 

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People Under The Stairs





Por Daniel Tamenpi. Fotos Divulgação


Você é daqueles que sentem falta da cena rap dos anos 90, quando safras de MCs e produtores surgiam aos montes, criando instrumentais simples (por serem sampleados de algo já existente) mas geniais, e quando vendagem não significava mais que a própria música? Relaxe. Você não está sozinho. Na contramão da lógica atual, o grupo People Under The Stairs remete ao espírito dos b-boys e à atmosfera das ruas, e não estou falando das ruas mostradas hoje em clipes milionários com gangues, drogas e armas.


Criados em Los Angeles na década de 90, em meio ao skate e a uma cena musical efervescente, Thes One (nascido Chris Portugal em 1977 na Califórnia, de mãe norte-americana e pai peruano) e Double K (nascido Michael Turner Jr em Los Angeles no mesmo ano) absorveram o que ali havia de melhor. Juntos, eles cresceram garimpando sebos de vinis atrás de timbres orgânicos e loops para produzir seus beats simples e suaves, com breaks de bateria espetaculares, samples funkeados e levadas jazzísticas. Tudo isso é combinado com letras sobre temas cotidianos, com uma atmosfera de positividade. Eles não são somente rappers, são contadores de história, o que fazem como poucos. Também são seus próprios DJs, gravam em seu próprio estúdio e fazem seu próprio design. O primeiro disco da dupla, The Next Step (1998, independente), foi recebido com entusiasmo na Costa Oeste e chamou a atenção de Chris Stevens, manager da OM Records (um dos selos mais interessantes de San Francisco).
Com contrato assinado com a OM para outros discos, o P.U.T.S. deslanchou e hoje, uma década após seu surgimento, tem seis discos gravados e uma legião de fãs espalhada pelo mundo. As turnês pelos EUA, Europa, África e Oceania totalizam mais de 200 apresentações por ano. Com shows marcados na América do Sul no fim do ano, Thes One trocou uma ideia conosco, na qual falou do sonho de conhecer o Brasil e contou algumas histórias desses dez anos.

 

 

O People Under The Stairs tem um estilo próprio, com batidas simples. Como vocês chegaram a esse som?

A primeira coisa que nós fazemos são os beats. Tudo começa daí, do sentimento de cada batida. A música vem em primeiro plano. Eu e Double K somos produtores antes de sermos letristas, mas, como não gostávamos das letras que víamos, resolvemos começar a escrever também. Pra gente a produção é 80% do grupo, e acho que é por isso que ficamos conhecidos no mundo todo, porque focamos principalmente na sonoridade. Mesmo que as pessoas não entendam as nossas letras, o som agrada.

 

As letras do P.U.T.S. têm uma marca pessoal. Vocês fazem rimas bem locais, falando sobre o underground de Los Angeles e sobre experiências próprias. Vocês acham que isso atrai um público maior?

Pra gente é diversão, não pensávamos nisso no início. A cena underground em Los Angeles foi muito grande nos anos 90, mas era engraçado, porque vários grupos e rappers encarnavam personagens, tinham uma levada forçada. Tinha gente que pintava a cara, usava chapéus gigantescos, se fantasiava. Nós não queríamos isso, queríamos ser só o People Under The Stairs, simples como realmente somos – dois caras de LA que escutavam Bob James e Zimbo Trio ao mesmo tempo, entende? E essa diversidade nos levou a fazer um som muito honesto, com a nossa cara. Até me arrependo de algumas coisas que disse em letras, de tão pessoais que eram. Inclusive, no segundo álbum, tem uma música em que falo mal de uma garota que hoje é a minha esposa, mãe dos meus filhos (risos). Talvez se fôssemos personagens como os outros não teríamos esses arrependimentos, mas também não seríamos reais. E esses personagens não duraram, porque não conseguiram manter sua imagem. Nós não, vamos gravar durante muitos e muitos anos.




 

Quais são as influências do P.U.T.S.?

É engraçada essa pergunta, porque eu e K temos falado muito sobre a morte do Michael Jackson. Cinco anos atrás eu não diria que Michael Jackson era uma grande influência, mas com a morte dele comecei a pensar mais profundamente e percebi que a minha música tem referências fortes do som dele. Percebi que se o artista Michael Jackson não existisse eu não seria o que sou, não estaria no palco. E Double K também não. Eu vi o show dos 25 anos da Motown na TV e nem percebi o quanto me influenciou. Não só ele, mas também George Clinton, com a Mothership Tour, ou Biz Markie, ou Led Zeppelin, sabe? A música te influencia sem você perceber. E, como viajamos muito, ficamos expostos à cultura e à música desses países, e isso tudo nos influencia. Indo ao Brasil, com certeza nossas mentes se expandirão ainda mais. As pessoas irão aos shows para se divertir, mas pra nós será mais uma fonte de inspiração.


O ultimo álbum de vocês, Fun DMC, tem todo um conceito nas músicas. O que vocês estavam querendo mostrar com esse disco?

Cada disco é uma oportunidade para resgatar coisas de nossas experiências pessoais. Com o Fun DMC, achamos interessante passar a ideia de um fim de semana em Los Angeles em que fazemos churrasco, nos divertimos, bebemos, fumamos... Por mais que viajemos pra muitos países, nada é igual a isso que temos na nossa área, com nossa família, nossos amigos. O disco foi gravado pra mostrar esse lado. É muito importante as músicas manterem suas raízes locais, isso ajuda as pessoas a entenderem o contexto e o jeito do lugar. Quando eu escuto Tony Tornado, percebo ali o nosso funk (dos EUA), mas é um som brasileiro, tem a sua localidade. Com o Fun DMC, nós tentamos mostrar a essência de LA, o que a cidade representa pra gente. Inclusive, durante a gravação do disco, fomos a vários churrascos de amigos, deixamos o gravador e usamos o barulho como background do disco.

 

Legal você citar o Tony Tornado. Vocês conhecem música brasileira?

Sou muito fã de música brasileira, desde garoto. É óbvio que ainda não ouvi tudo, mas é uma sonoridade que nos interessa bastante. O tipo de música que fazemos combina com a música brasileira, principalmente pela positividade. Procuro pesquisar bastante a respeito da música de vocês, não só o estereótipo da bossa nova que ficou conhecido aqui. Gosto de Mutantes e desse lado mais psicodélico, bastante coisa de MPB e músicas de Tom Jobim. Inclusive o sobrenome do meu filho é Jobim, em homenagem ao maestro Tom Jobim.

 

Voces já estão trabalhando em um novo disco? Qual será o conceito desse trabalho?

Todos os nossos discos foram feitos para nós mesmos, com histórias nossas, do dia-a-dia em Los Angeles. Por sorte, as pessoas gostaram da nossa música. É legal termos muitos fãs e eles criarem grandes expectativas para os discos. Mantemos um bom contato com eles, através da internet, fóruns, etc. Esse disco novo será feito pra eles e vai se chamar Carry The Weight. Não vamos carregar tanto nas letras pessoais, já fizemos muito isso. Vamos tentar voltar às raízes do hip-hop, da mesma forma que Stepfather foi baseado no soul dos anos 70 e 80. Mas o disco também tem uma influência grande do rock – não pensem é nu metal ou esse tipo de lixo, é um lance mais psicodélico, resgatando essa vertente esquecida. Aguardem.


Vocês são um grupo ligado fortemente à cultura hip-hop de raiz, dos quatro elementos, Zulu Nation etc. Como veem a cena atual?

Desde o começo do hip-hop e do rap, a coisa mais importante era a expressão das experiências de cada local. Começou em Nova York, cada área tinha seu estilo, suas expressões, suas gírias e isso transparecia nos sons. O estilo do Queens era diferente do estilo do Brooklyn, por exemplo. Isso foi crescendo e se tornou mais competitivo, quem era o melhor rapper, qual era a área mais pesada, cada um defendendo seu bairro. Com o tempo, o hip-hop começou a se popularizar, outros estados começaram a ter seus representantes e a cena se tornou ainda mais competitiva, NY vs. Nova Jersey, NY vs. LA, e hoje em dia é o mundo contra o mundo, o lugar não importa mais. Isso não se encaixa no contexto das raízes do hip-hop. As pessoas têm que entender que o hip-hop original é aquele feito com as influências locais. Não adianta o Brasil ou a França querer copiar o nosso estilo, porque não vai ser verdadeiro. Não se pode subestimar as experiências locais, elas são as principais contribuições ao hip-hop e à música em geral. A última coisa que o mundo precisa é de cópias dos rappers de NY e LA. Aqui existe uma cena em que os rappers viraram mais celebridades do que rappers, entende? As pessoas vão aos shows pela celebridade, não pela música.


O som “San Francisco Knights” é a principal referência da música do P.U.T.S. no Brasil. Qual a importância dela pra vocês?

É uma musica muito querida pra mim. Fiz o beat quando tinha 17 anos, tinha acabado de pegar minha carteira de motorista. Eu e Double K fomos a San Francisco visitar um amigo e a viagem foi incrível, então nada mais natural do que uma canção com aquele beat que estava pronto. Foi bem legal, porque ela se tornou o nosso primeiro hit. Sempre que escuto esse som volto a essa época, jovem e inexperiente, sem conhecer ainda os desgostos da vida. Acho que é esse clima exuberante, jovem e sem compromissos que fez da música a favorita de muitos fãs. Posso dizer que é nossa música mais inocente, ao contrário dos nossos sons atuais. Quinze anos depois continuo cantando ela pra milhares de pessoas nos nossos shows e a vibe é sempre muito boa. Acho que fiz coisas muito melhores, mas essa música realmente mexe com as pessoas.






Vocês, como produtores, são colecionadores de vinil? Gostam de garimpar pérolas perdidas?

Com certeza. Tivemos várias experiências espetaculares procurando discos em lugares como Índia, Egito, México. Indo a lugares aonde gringos não iriam, fazendo isso só pela música. São várias histórias. Espero que um dia eu possa contar tudo isso em um livro ou DVD, porque documentei grandes experiências em vídeo. Mas, mesmo assim, muitas coisas são difíceis de capturar só com as imagens. O sentimento das situações não aparece nas imagens. Os discos são importantes, sim, mas essas experiências são o melhor que tiramos pra vida. Se no Brasil me levarem nos sebos, talvez nem compre nada, mas só a experiência de estar em lugares onde tem gente que gosta muito de música, entende muito de discos; em bairros populares, comendo comidas típicas da região, já vale tudo. Hoje em dia vejo que os discos pra mim são só uma razão para ver coisas muito bacanas na minha vida, são mais importantes do que qualquer programa turístico, porque eles me põem em contato com a realidade desses locais. 

 

Quais são suas expectativas em relação ao Brasil?

Sei que existe uma cena de hip-hop brasileira bem forte. A gente viajou muito pra fora dos EUA, e o Brasil sempre foi um sonho pra nós, mas nunca tivemos a oportunidade. O que eu posso dizer é que estamos ansiosos para visitar o país. Estou sabendo que diversos grupos estão se apresentando aí, mas sinceramente o que nós vamos levar para o Brasil é, talvez, uma coisa que muita gente nunca viu. Vamos mostrar no palco o sentido real da expressão hip-hop, como era feito antigamente.