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Thu: 07-30-09

Marcello Quintanilha . Sábado dos Meus Amores

Conrad . 2009

Marcello Quintanilha quase foi excluído do primeiro concurso sério de quadrinhos do qual participou, nos começo dos anos 1990. Só não foi porque um dos jurados resolveu remexer na pilha de rejeitados e ficou embasbacado com o que viu. O traço realista, a narrativa à Nelson Pereira dos Santos, o retrato rasgado e inédito do cotidiano brasileiro de segunda, descartado pela agenda cosmopolita dos nossos centros urbanos: tudo ali parecia muito ousado, muito original, muito primoroso para ser descartado. Quintanilha acabou sendo premiado e, não por acaso, esse mesmo jurado, Rogério de Campos, seria seu editor anos depois na Conrad.

No seu primeiro livro lançado por essa editora, Fealdade de Fabiano Gorila (na época o autor assinava como Marcello Gaú), a orelha do próprio Rogério de Campos e o prefácio de Aldir Blanc tentavam traçar paralelos com seu universo pictórico e narrativo. Rosselini, Loustal, Antonioni, Jacob do Bandolim, Elizeth Cardoso, Jaguar, Millôr, Henfil, Ivan Lessa, Barão de Itararé, a lista ia longe. A situação era tão nova que permitia lançar mão do clichê: Quintanilha tinha reinventado os quadrinhos. Dez anos depois, a mesma editora finalmente publica Sábado dos Meus Amores, segundo livro do autor no Brasil. A distância do país – Quintanilha vive há anos em Barcelona, produzindo quadrinhos e ilustrações para o mercado europeu – não diminuiu a verossimilhança de sua narrativa. Pelo contrário: o autor parece ainda mais imerso e abrangente.

Em seis crônicas, ele transita por Rubem Braga (outra referência clara), pela tragicomédia suburbana carioca, pela relação entre negros e imigrantes italianos no começo do século, pelo candomblé no Nordeste brasileiro, pela crueza da vida em um circo de quinta categoria. Extremos e sutilezas de humor, demência, crueldade e sexualidade – sensações que saltam aos olhos em quadros vivíssimos produzidos com técnica mista (lápis de cor? Pastel? Aquarela?). E assim, mais uma vez, Marcello Quintanilha reinventa os quadrinhos.

Por Mateus Potumati