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Mon: 06-01-09

Quer Ser Mais Rua do Que o Emicida?

Leia a seguir o perfil com o Emicida, publicado na +Soma 011. Saiba onde encontrar a revista aqui. Baixe o pdf de graça aqui. E baixe "Só Isso", da mixtape nova do rapaz, aqui

 

Por Mateus Potumati
Retrato Fernando Martins
Fotos de show Ênio César



Nos últimos anos, o hip-hop brasileiro tem presenciado a explosão das batalhas de MCs. Vários centros urbanos têm hoje disputas organizadas, nas quais os rappers mandam rimas de improviso uns contra os outros, diante de plateias inflamadas. As rinhas, como são mais conhecidas, têm movimentando a cena e, principalmente, reaproximando o rap de suas raízes. Dos vários talentos surgidos nas batalhas recentemente, um deles chama atenção pelas tiradas ácidas, embaladas em uma levada firme, limpa e precisa. A julgar pela segurança na voz, nem parece que o Emicida tem só 23 anos. O rapper, que hoje mora no Tucuruvi, mas ainda se define como do Cachoeira (bairro no extremo norte da capital paulista), fez barulho na internet e nas ruas em 2008 com “Triunfo”. A introdução à Enio Morricone já deixava claro: o clima era de batalha, dos pés à cabeça. A base com sopros e baixo funkeado (que lembra a produção de Just Blaze para “The Champ”, de Ghostface Killah), fazia a cama para o MC declarar: a rua é nóiz!

Mais rua do que nunca, Emicida e seu crew Na Humilde acabaram de lançar a mixtape Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe. A estratégia comercial é agressiva: “A gente vai catar essa parada, encher a mochila e sair na rua, vender disco a R$ 2. Eu vou entrar no trem, igual aos caras que vendem doce, vou deixar um CD no colo de cada um e sair, voltar fazendo freestyle, falando que eu tô vendendo o disco”. Enquanto a mixtape ainda estava sendo produzida, meses atrás, o MC abriu sua casa à +Soma, mostrou bases e rimas em primeira mão e falou sobre suas pilhas de cadernos, quadrinhos, Agepê, Blur e, é claro, a rua.

Explica esse lance de “a rua é nóiz”. Você veio das batalhas de MCs, lugar onde o egocentrismo é artigo de sobrevivência. Ali é mais “eu”, não tem essa de “nós”. 

Eu tenho muito disso, sou egocêntrico pra caralho (risos). O rap é egocêntrico, né. Mas na real eu enxergo o “eu” como “nós”. Eu escrevo em primeira pessoa porque falo do que sinto, e se as pessoas sentirem a mesma coisa, a gente tá junto. A intenção é essa, cada pessoa é um eu, e quando todo mundo cantar em primeira pessoa... é nóiz (risos).  O hip-hop tem muito de batalha, mas o rap algumas vezes é meio distante do hip-hop. Eu quero matar essa distância. A gente tá fazendo essa parada na rua, várias pessoas ouvem e se chocam, pensam “caralho, a rua é eles”, mas não essa a intenção. A ideia é exaltar isso que a gente está fazendo, quem faz a parada andar é a gente, tá ligado? A única mídia que a gente tem é a rua, é ali que temos contato direto com as pessoas, e a gente não pode ter receio disso, sabe? Se eu fosse fazer essa parada pela Sonopress (empresa de prensagem de CDs), como todo mundo diz que eu tenho que fazer, eu ia gastar uns R$ 2 mil por mil CDs. Aí, eu teria que vender ele a um preço que, na minha opinião, eu não posso cobrar das pessoas, porque elas não me conhecem. Acho que preciso primeiro ir até elas com o disco. Deixar lá no mercadinho, a R$ 2 – o cara vai comprar pão, leva um disco do MC (risos).

Como rimar de improviso te ajudou a fazer rap?


O freestyle acaba realmente obrigando a gente a conhecer mais coisas, ter mais cultura. Quando a gente tem um ritmo de criação maior, é muito mais fácil se tornar redundante e limitado. Vai chegar o momento em que você só fala de uma coisa. Já aconteceu comigo, há uns três anos: eu percebi que as minhas músicas falavam de tudo e não falavam de nada. Hoje, eu consigo me concentrar e saber o que eu quero falar numa letra, manter uma linha de pensamento. O freestyle ajuda, porque força você a isso. Eu ainda acho minhas composições meio confusas, mas minha cabeça é confusa mesmo (risos).

Você falou bastante do livro Muito Longe de Casa: Memórias de um Menino-Soldado, do Ishmael Beah. Ler te ajuda a ter ideias para rimas, vocabulário, fluência?

É muito relativo isso, sabe? Às vezes eu leio um livro inteiro e não sai nada durante um mês. Às vezes eu sento ali, vejo um Pica-Pau e sai “Triunfo”. Vai muito do momento, acho que vai rolando um acúmulo de informação na sua cabeça e uma hora você precisa esvaziar. Na antiga, eu pagava mó veneno porque gostava de ler e não tinha muitos livros em casa. Tinha as paradas da minha mãe, de espiritismo... Fiquei um tempão lendo o André Luís, Chico Xavier, só porque queria ler (risos). Aí eu fazia o maior rolê [para ler], mas naquela época não tinha Bilhete Único (cartão de integração do transporte público paulistano). Eu vinha a pé lá da Vila Zilda (bairro na Zona Norte) até o Tucuruvi. Andava uma hora e meia, duas. E daqui eu pegava o busão ou o metrô pra Paulista. Ia até o Sesi e ficava o dia inteiro na biblioteca e na gibiteca. Puta rolê, e era da hora. Eu fazia quadrinhos nessa época, uma das minhas metas é voltar a fazer.


Você se considera um rapper underground? Como é isso para você?

Nah, eu sou underground por falta de opção (risos). Eu vejo o underground como uma etapa, sabe. A gente tá subindo alguns degraus, e vários caras já nem me consideram assim, porque o conceito de rap underground no Brasil é outro. Os caras acham que underground é o estilo de uns caras meio malucos, que fazem uns raps abstratos, quando underground é todo mundo que tá fora do mainstream. E mainstream de rap no Brasil não existe – mainstream é Racionais, que é o grupo mais underground de todos. Ou seja, nossa intenção mesmo é estourar, tipo Ivete Sangalo (risos). 


Suas músicas têm essa coisa da rima sobre a rima, meio parecido até com o Kamau. O que mais te serve de influência, além do rap?

Ah, é esse é o rap que a gente mais gosta de fazer. O Kamau gravou um dos melhores discos de rap que eu já ouvi na minha vida (Non Ducor Duco, de 2008), mas agora eu tô ouvindo muito Paulinho da Viola. Eu escuto samba pra caralho, há muito tempo. Tenho muitos discos. Até rock eu tenho escutado mais. Eu não tinha a cultura de ouvi rock e agora tô escutando mesmo, gosto de várias coisas – gosto de Blur pra caralho, vi o clipe de “Coffee and TV”, achei muito foda e virei fã, tenho CD e tal. E fora isso, tem uns caras com quem eu faço uns trampos também, tipo o Mão de Oito (grupo de MPB da capital), aquela parada bem brazuca, suingão. Eu escuto os caras, eu tenho a bênção de poder escutar o som dos meus amigos.

Uma vez eu vi você colocar Agepê num programa de rádio.

Puta, Agepê é foda, mano... Só acho ele meio limitado na temática, ele é meio o Snoopy Dogg do samba, tá ligado (risos)? Fala muito da mesma parada. Mas tem músicas foda, tipo “Aquela Menina de Cabelo Longo” e “Mora Onde Não Mora Ninguém”, que é o hino do Cachoeira. O Cachoeira é o último bairro antes da Fernão Dias, e os caras sempre zoaram muito a gente. Falavam que lá não é mais Zona Norte de São Paulo, é Zona Sul de Minas, essas coisas. E a música faz justiça ao lugar. Esses sons do Agepê são foda. O resto é muita música de amor. É bom, mas enjoa. No rap, eu também gosto muito do Pepeu (um dos primeiros rappers brasileiros). “Nome de Menina” é muito foda. As pessoas deviam valorizar mais isso. É história, né, meu? O Pepeu tinha o estilo dele, e até hoje é superior a vários caras. Ele tinha a levada limpa, e tinha algo que poucos caras conseguem fazer: falar de coisas boas. As pessoas se condicionaram a uma música mais tensa, com assuntos dramáticos. Isso chama mais atenção, faz as pessoas falarem “pô, olha o som do cara”. Mas o grande barato mesmo, que é um desafio pra mim, é fazer músicas felizes. Passar uma sensação de felicidade. Eu acredito que, se as pessoas se sentirem melhor, vão buscar uma vida melhor.

Saiba mais:
myspace.com/emicida
embaixadordarua.blogspot.com