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Fri: 03-13-09

Exposição Virtual: Jim Houser


O código Jim Houser . por Tiago Moraes
(Entrevista publicada na Revista +Soma#10)

O ano é 2100 d.C. PhDs de diversas áreas da ciência e historiadores juntam todas as forças e conhecimentos para tentar decifrar um dos últimos códigos do século XXI ainda não quebrado, nem pelas mentes mais brilhantes, nem pelos softwares mais avançados da tecnologia moderna.

Voltamos para o presente. Essa Babel moderna foi despretensiosamente criada por Jim Houser, um jovem artista norte-americano oriundo do universo do skate e que começa a despontar e cair nas graças da crítica e público. Sua obra, autobiográfica e baseada em associações livres de palavras, pictogramas, desenhos, texturas e cores, pode até enganar os mais desavisados pela aparente ingenuidade dos traços, mas é exatamente aí que se esconde um dos maiores segredos de Jim.

Conheça um pouco mais do que passa na cabeça desse brilhante artista autodidata – que veio recentemente a São Paulo expor seu trabalho na Galeria Choque Cultural – em um bate-papo que tivemos com ele em um café na Vila Madalena.



Você não tem educação artística formal, mas frequentava os prédios da RISD (Rhode Island School of Design) em Providence, Rhode Island. Você tinha amigos que estudavam lá, certo?

Eu estava estudando na Universidade da Pensilvânia havia um ano, mas não estava gostando, decidi abandonar o curso. Estava morando na Filadélfia, superinfeliz, sem saber o que fazer da vida. Um dos meus melhores amigos tinha acabado de se mudar para Providence para estudar na Escola de Design de Rhode Island (RISD) e então eu decidi me mudar para lá. Eu precisava de uma grande mudança em minha vida.
Tinha alguns amigos que estudavam lá e era bem tranquilo, você podia andar por todos os andares do prédio, frequentar as oficinas e ninguém te pedia nenhuma identificação, podíamos usar os computadores para fazer trabalhos de design, os equipamentos de impressão etc.

Se você tivesse estudado e se graduado em artes, o seu trabalho seria diferente do que é hoje?
Acho que sim. Diversas pessoas graduadas em arte que conheço também já me disseram isso. Me lembro do começo, de quando comecei a expor em galerias e entrar nesse universo de arte mesmo, e na época ainda não era muito comum pessoas que trabalhavam como eu. Ouvi muito isso de artistas e galeristas que olhavam meu trabalho e diziam:  “Uau, se você tivesse estudado arte você não estaria fazendo isso, eles [os professores] teriam tirado isso de você!” Eu não sou dos caras mais fáceis para aceitar conselhos, prefiro aprender com meus próprios erros, e foi por esse motivo que larguei a faculdade no primeiro ano – não me sentia confortável quando me diziam o que fazer e como fazer. Em relação a minha arte, eu sentia que era uma coisa minha, que me pertencia e cabia só a mim decidir como que ela deveria ser, não queria ter pessoas me dizendo: “Você tem que fazer isso ou aquilo”.

O Shepard Fairey estudou lá na mesma época e você chegou a trabalhar com ele no começo do projeto Obey, certo? Vocês já se conheciam?
Eu já conhecia o Shepard enquanto ainda morava na Filadélfia. Andava de skate e ele tinha começado uma marca de skate pequena (Giant) e me dava alguns shapes, eu tinha um apoio. Quando me mudei para Providence, a gente já se conhecia e ele tinha montado um estúdio e me deu emprego. Meus amigos da Filadélfia, Ben (Woodward) e o Andrew Jeffrey Wright, que também são artistas, trabalhavam lá com o Shepard. Era basicamente um estúdio de serigrafia e eu ficava cortando adesivos, milhões de adesivos do Andre the Giant...(risos). Às vezes também ficava dobrando e empacotando camisetas, eu era o faz-de-tudo lá, limpava as telas, varria... Mas era divertido, trabalhava com os meus amigos e tive a oportunidade de conhecer muita gente bacana, muitos outros artistas por meio do Shepard.

Quando estava começando, quais artistas você admirava? O que e quem te inspirou e motivou em sua carreira artística?
Eu diria que os primeiros grandes artistas que me chamaram atenção foram Jean Michel Basquiat, Cy Twombly, David Hockney e Alice Neil. Foi nessa época que comecei a comprar livros de arte, se via alguma obra que me chamava a atenção eu ia até a livraria e tentava encontrar livros do artista para aprender mais, isso antes da popularização da internet... E muitas pessoas que eu conheci por meio do Shepard, da cena de Nova York, da Alleged Gallery... Você tem familiaridade com essa cena toda?

Sim, claro, inclusive já entrevistamos o Aaron Rose.
O Shepard era amigo do Aaron e eles fizeram um pequeno projeto de pôsteres chamado “Subliminal” muito tempo atrás. Pelo Shepard eu conheci o Aaron, Phil Frost, Thomas Campbell, Barry McGee, Margaret Kilgallen, Christian Hampton, Ed Templeton, muitos artistas...

Isso foi no final dos anos 90?
É, foi a partir de 1997... Em 2000 eu participei de uma exposição coletiva chamada “East Meets West”, da qual participaram três artistas locais da Filadéfia: o Joy Feasley, a Clare Rojas e eu, junto com três artistas de San Francisco, o Scott Hewicker, a Margaret Kilgallen e o Chris Johanson. O Chris até hoje é o meu artista preferido, em quem mais me espelho e me inspiro, como artista e como pessoa. Logo que me mudei para Providence,    em Rhode Island, eu andava pra cima e pra baixo desenhando em um caderninho e sempre guardava só para mim – às vezes mostrava para um ou outro amigo, mas nunca tinha conhecido ninguém que levava a arte a sério, que fazia exposições. Mas daí as coisas foram evoluindo e comecei a pensar: “Porque não? Talvez tenha alguém interessado em ver tudo isso”. No começo minha motivação não foi dinheiro, foi muito mais para ver se eu era capaz, descobrir o que outras pessoas pensariam sobre o que estava fazendo. Por exemplo, hoje eu também estou fazendo músicas e as pessoas me perguntam: “Mas você toca em alguma banda, faz show?”, e digo que não. Gosto de tocar na minha casa, meus amigos aparecem e de vez em quando fazemos música, mas eu não saio para tocar, fazer shows, essas coisas.

Que tipo de música você toca?
Eu toco rock instrumental. Não faço shows, mas em minhas últimas exposições tenho feito instalações enormes com vários amplificadores de guitarra conectados por cabos, e eles ficam tocando as músicas que eu componho e gravo em casa.

Quando você começa a produzir para uma exposição, se o espaço permitir, você já incorpora no processo criativo a questão da música?
A composição das músicas faz parte da exposição, porque elas são feitas na mesma época em que as pinturas. Se eu acordo um dia e não estou a fim de pintar, faço música e fico gravando, gravando e, quando a exposição chega, pego todas as pinturas, as músicas e monto a exposição.

Você pretende lançar um disco com essas músicas um dia?
Eu tenho um disco pronto para ser prensado, que deve sair em breve. Serão seis músicas. Venho trabalhando nisso há quase dois anos, então espero que consiga lançar em breve. Tem um selo local aqui na Filadélfia, chamado Free News Projects, que está interessado em lançar, eles lançam livros, discos e pôsteres com tiragem limitada. Eles lançam bastante coisa, acabaram de publicar um livro do Matt Leines que é muito bacana, vale a pena ir atrás e conhecer o trabalho dele.

A arte folk tradicional norte-americana faz parte de suas influências ou você foi mais influenciado por artistas contemporâneos que já bebiam nessa fonte, como a Margaret e o Barry por exemplo?

Acho que na verdade ao conhecer eles (Margaret Kilgallen e Barry McGee), tive a confirmação de ideias que tinha na minha cabeça sobre arte e sobre como vejo tudo isso. É meio difícil para eu explicar, mas gosto de ver a pessoa que fez uma arte dentro da própria arte, não deveria haver separações. O estilo de arte folk, mais bagunçada, imperfeita, nos dá uma sensação direta de que a pessoa fez aquilo à mão ao invés de uma máquina ou um computador, como a diferença de valor artístico entre um enorme painel de plástico ou banner e uma placa de madeira pintada à mão. Acho que a principal lição que tirei dos artistas folk foi ver que a ideia é a coisa mais importante e não é preciso ficar tentando fazer com que tudo saia perfeito.

Você cresceu andando de skate e existem muitos outros skatistas que também se tornaram artistas, como o Mark Gonzales, Thomas Campbell, Ed Templeton, Don Pendleton, Michael Leon, entre muitos outros. Não seria bacana se no futuro a história da arte considerasse “Skatismo” como um forte movimento artístico da virada do século XX para XXI, assim como hoje existem o Cubismo, o Modernismo e a Pop Art? Não é louco pensar que existem tantos artistas bem sucedidos hoje, em sua maioria autodidatas, que vieram do universo do skate?
Eu acho que todos nós temos em comum duas coisas. A primeira são os desenhos dos shapes e as artes das revistas de skate, que marcaram muito, você é exposto à arte muito cedo e carrega aquelas lembranças por toda sua vida. Outra coisa é o lado criativo do skate, então é natural que skatistas também façam música, pintem e escrevam poesias, já que você começa a andar de skate porque tem essa veia criativa. O skate é apenas uma das formas de expressão, de colocar para fora a sua criatividade. Na verdade, sempre fico chocado quando conheço skatistas que não fazem mais nenhuma arte, que simplesmente andam de skate, porque a grande maioria dos skatistas que eu conheço tem mais de uma atividade criativa.

Como foi para você, que cresceu andando de skate, passar para o outro lado e começar a fazer artes para skate para marcas como a Toy Machine e influenciar os garotos mais novos?
É muito bacana. Isso sem dúvida foi uma das coisas mais importantes que fiz porque, como você falou, foi um ciclo que se completou. A primeira vez que encontrei com um garoto usando um shape com uma arte minha foi uma das emoções mais incríveis que já senti em toda a minha vida, porque eu sei como é quando você é um garoto e entra numa loja de skate e olha para aquela parede repleta de shapes com os mais variados desenhos e marcas. Para aquele garoto ter escolhido o meu é porque ele achou que era o melhor de todos! Eu faria esse trabalho até de graça! O skate é de onde eu venho, então é muito legal poder fazer projetos com marcas de skate. Até hoje continuo colaborando com a Toy Machine, além de ser superamigo do Ed Templeton, um cara muito bacana, superdivertido e que, por também ser artista, me dá toda a liberdade para eu fazer o que bem entender.

Passar do desenho para a pintura é geralmente um grande passo para a maioria dos artistas. Como foi essa transição para você?
Aconteceu bem devagar, porque eu estava fazendo meus desenhos e com o tempo comecei a colocar mais cores e, quando vi, estava pintando e desenhando em cima das pinturas. Depois comecei a deixar o desenho um pouco de lado no meu trabalho – não foi uma grande ruptura, e sim uma evolução natural.

E você saltou das paredes para praticamente tudo. Em suas últimas exposições, você tem investido em instalações com prateleiras, vasos de flores, amplificadores, bolas de basquete, violões feitos à mão...
No começo foi meio que uma brincadeira, porque parei de pintar shapes por um tempo, e as pessoas iam às minhas exposições, ficavam tristes e reclamavam que eu não tinha pintado nenhum shape. Elas falavam: “Você é um skatista, então pinte em skates!” Começar a pintar outros objetos foi a forma que encontrei de dizer que existem outros lados do Jim Houser além do skatista. Por exemplo, eu jogo basquete e pintei uma bola de basquete, eu gosto de um modelo de tênis, então vou pintá-lo. O que começou como brincadeira foi crescendo dentro de mim e comecei a me interessar por construir coisas, como pequenos violões feitos com caixas de charuto, inspirados naqueles feitos por músicos de blues pobres, que não tinham dinheiro para comprar um violão. Eu tinha acabado de ler um livro sobre a história dos instrumentos de corda, havia um capítulo que falava só disso e pensei: “Será que sou capaz de fazer um?” Acabei me divertindo muito fazendo o primeiro e depois acabei fazendo outros e incorporando à minha arte, eles (os objetos) ajudam a construir esse meu universo que desejo compartilhar em minhas exposições.

Alguns de seus trabalhos apresentam uma mistura rica de elementos: palavras, frases, personagens e texturas. Eles se parecem com uma colcha de retalhos de imagens e pensamentos. Você pensa no conceito, no que quer transmitir em cada peça como se estivesse tentando juntar todas essas peças para comunicar algo?
Tanto esses meus trabalhos que se parecem mais com mosaicos ou colagens de peças menores como as telas em que trabalho com um tema central fazem parte, na verdade, de um mesmo conceito. O que eu quero, no fim, é que as pessoas olhem para uma exposição minha e percebam que tudo ali está interligado. Todas as minhas pinturas são fragmentos da história da minha vida. É por isso que eu trabalho com a mesma paleta de cores em todos os trabalhos, e algumas imagens e palavras acabam aparecendo em mais de um trabalho...

Ia falar sobre isso, pois muitos de seus trabalhos e instalações apresentam imagens e palavras que se repetem. O que sinto ao ver seu trabalho é que você parece ter criado uma enorme família de pictogramas, como o polvo, o elefante, o chapéu e também palavras como “egg”, “rumor”, “eyes”, “system go”, o número 68, entre outros que aparecem com certa frequência em seus trabalhos. Cada um desses pictogramas tem um significado para você?
Múltiplos significados. Assim como o azul parece diferente ao lado do verde do que ao lado do vermelho, as palavras que eu uso têm significados diferente dependendo da imagem ao lado, de como elas estão relacionadas. Então essas imagens e palavras têm mais de um significado... Uma coisa que vim a descobrir recentemente, mas não tenho certeza se me influenciou, foi o fato de a minha irmã mais velha ser uma egiptologista e estudar hieróglifos. Quando eu era moleque, tinha sempre um monte de livros por perto sobre o assunto, cheios de imagens e palavras misturadas, e sempre curti muito essas coisas e acho que acabei trazendo um pouco disso para o meu trabalho.

Provavelmente, no futuro teremos egiptologistas estudando o seu trabalho e decifrando esses códigos todos... (risos).
(Risos) É, seria bem legal... Algumas palavras eu paro de usar um tempo e, quando elas voltam, já têm outro significado para mim... O nome do meu livro, Babel, é sobre a dificuldade em se comunicar, da história da Bíblia, da diversidade de línguas e culturas. Não sou religioso, mas essa é uma história superinteressante. Muito da minha arte é sobre essa dificuldade das pessoas se comunicarem, quais os diferentes significados por trás de uma palavra. No meu trabalho, as palavras são tão ou até mais importantes do que as imagens.

Eu tive a oportunidade de ver na Choque Cultural alguns dos seus trabalhos ao vivo pela primeira vez e fiquei impressionado, especialmente com as telas que têm todas aquelas colagens, principalmente pelo tamanho de cada pequeno pedaço que compõe essas telas e o acabamento impecavelmente refinado.
Cada fragmento dessas telas são pequenos pedaços de papel, superfinos, quase como papel de cigarro. Eu pinto cada um desses pequenos quadrados individualmente até conseguir juntar uma boa quantidade deles, depois pego uma tela e começo a colar cada um – no começo de forma meio aleatória, mas depois começo a me ater mais na mensagem, na composição de cores. Acabou virando meio que um quebra-cabeça para mim. Eu vou colocando para fora tudo o que vem à mente, fico no meu estúdio, ouvindo música e desenhando o dia todo.

E como a tipografia entrou em seu trabalho? Você costuma inserir vários tipos de letra no seu trabalho, alguns nos remetem diretamente à cultura de placas pintadas à mão, cursivas, manuscritas, e outros já são mais contemporâneos, como o feito de ossos...
Eu comecei com isso meio que para dar mais personalidade no que estava escrevendo e querendo dizer. De certa forma, o tipo de letra que desenho está relacionado diretamente com o que eu quero dizer. Por exemplo, quando escrevo com letras pequenas, arredondadas e simples, similares à minha caligrafia pessoal, trato de coisas autobiográficas ou que fazem parte daquele momento. Quando escrevo com letras mais quadradas, que lembram fontes de computador, trato de coisas que já analisei e pensei muito sobre. E, finalmente, o que escrevo com ossos são coisas mais vinculadas ao emocional, geralmente mais sérias e mortais, não no sentido de morte, mas assuntos sérios como a morte. A forma como escrevo cada palavra faz parte do que está sendo dito.

Para finalizar, algumas perguntas sobre sua visita ao Brasil. É sua primeira vez aqui, certo? Como tem sido a experiência?
Sim, é a primeira vez. Tem sido ótimo! Gostaria muito de ter mais tempo, eu estou exausto, realmente cansado e tem tanta coisa para visitar que eu estou me sentindo sobrecarregado. Gostaria mesmo de poder ficar mais tempo aqui, mas definitivamente quero voltar logo e passar um tempo maior, pois sinto que vi tão pouco e São Paulo é o tipo de cidade de que gosto, caótica e enorme. Alguns lugares me lembram San Francisco, outras Sidney (Austrália), às vezes Nova York...

E o quanto você conhece sobre a cena de arte brasileira, você conheceu alguns artistas locais?
Sim, eu conheci muitos por meio da Gale-ria (Choque Cultural) e do Jonathan (LeVine), e gostei muito da energia deles. Sinto que os artistas daqui estão realmente correndo atrás, de uma forma positiva, e me lembram de uma época na Filadélfia quando a cena de pôsteres, de sair para colar coisas na rua, estava muito forte e em todo lugar que você ia havia algo bacana e original. Aqui, todo lugar que você olha na rua tem algo muito legal e isso é realmente inspirador!

Saiba Mais:
www.jonathanlevinegallery.com
www.choquecultural.com.br