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Tue: 09-09-08

Melvins em São Paulo

Por Mateus Potumati / Fotos Janaina Felix

Vinte e seis anos depois, o Brasil finalmente acertou suas contas com uma das bandas fundamentais do underground americano. Felizmente para nós, o Melvins segue tão feio e sarcástico como no passado, e ainda mais barulhento. Quem chegou cedo ao festival Orloff Five, realizado no último sábado em São Paulo, pôde se certificar disso. Por uma hora, um grupo de aproximadamente oitocentas pessoas – o grosso do público mesmo só chegaria mais tarde, para o show do Hives – teve seus ouvidos devidamente surrados pela cozinha inacreditável formada pelos bateristas Dale Crover, mito da cena de Seattle, e Coady Willis, do duo Big Business. A entrada de Willis no grupo, em 2006, marcou o início da emblemática “era das duas baterias”, que trouxe novo fôlego à carreira dos pais do grunge. À frente deles, Buzz Osbourne e o baixista Jarred Warren – a outra metade do Big Business – executaram um borrão sonoro que foi do hardcore ao sludge metal, sempre pontuado por divisões rítmicas mais afeitas ao free jazz e à música experimental do que ao rock. O som do Via Funchal não foi muito generoso com a guitarra, o vocal e o baixo – já é notório que a casa tem eco demais e graves de menos –, mas os mais atentos puderam ver ao vivo por que os Melvins têm a reputação que têm. Ainda que a banda tenha deixado de fora boa parte das músicas dos anos 90 – o show se concentrou mais nos discos Nude With Boots (2008), e (A) Senile Animal (2006), com alguns clássicos do passado aqui e ali –, era fácil identificar nos riffs e timbres de King Buzzo e na levada de Dale Crover a origem direta de idéias que estão no rock até hoje. A influência do Melvins no grunge é mais do que conhecida – ela está presente na guitarra de “In Bloom”, do Nirvana, no contraste entre rapidez e lentidão de “Rusty Cage”, do Soundgarden –, mas ela também está no cerne da nova safra de bandas que têm devolvido ao metal o status de gênero relevante, como Mastodon, Boris (que tirou o nome de uma música do Melvins) e Harvey Milk.

O mais incrível, no entanto, é que nesse tempo todo os Melvins traçaram um caminho muito peculiar. Assumidamente freaks desde sempre, Buzz e Crover nunca alimentaram os sonhos de grandeza que se apresentaram aos seus companheiros de cena em Seattle. Também nunca passaram perto de endossar a anxiety of contamination que destruiu a carreira de alguns desses mesmos grupos. Ao contrário, os Melvins se valeram de um desdém solene em relação às ambições e aos clichês de flanela. São 23 discos, e nenhum simples refrão. Ao vivo, parte desse ethos se traduz na ausência quase completa de interação com o público. Quando algum diálogo finalmente aconteceu, foi na forma de pura provocação: perto do final do show, ao final do clássico “Boris”, de 1991, eles cantaram sua versão para “Star Spangled Banner”, o hino nacional dos EUA. A performance, como esperado, gerou protesto de alguns grupos na platéia – pouco informados sobre o estilo de humor da banda – e resultou no arremesso de um copo de cerveja, que passou perto de Osbourne. O guitarrista respondeu prontamente com uma música de improviso, acompanhada pela banda toda. Apontando para o autor do ataque, ele cantou “Eu te vi/ Pega leve com as drogas”. Em outro momento hilário, a banda fez um cover irreconhecível de “My Generation”, do Who. Essa mistura da esculhambação irrestrita do punk com riffs arrastados do metal e virtuosismo sem afetamento provavelmente é a razão da longevidade dos Melvins. Após três décadas de modismos, hypes meteóricos e crises na indústria musical, eles seguem exatamente os mesmos, sem respeito por ninguém – nem por si próprios. E pelo jeito ainda irão durar muito tempo. Como o próprio Buzz Osbourne disse no Brasil, ele venceu.

Confira o vídeo exclusivo da +Soma com Buzz Osbourne e imagens do show aqui